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ISSN 1516-5450
Há Fé na Terra da Razão
Livro-reportagem sobre o Projeto Universidades Renovadas
Projeto Experimental apresentado ao Dep. de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista, Campus de Bauru, para obtenção do grau de Bacharelado em Comunicação Social, Habilitação em Jornalismo, de acordo com a Resolução nº 02/84 do C.F.E. e MEC.
Orientador: Prof. Ângelo Sottovia Aranha. Examinado e aprovado com nota máxima em 8-12-03.
Ariana Virgínia Pereira
A Fé e a Razão constituem como que as duas asas pelas quais o coração humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecê-Lo, para que conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio... João Paulo II - Carta Encíclica Fides et Ratio
Para começar...
“O papel dos católicos nas universidades não pode se restringir somente à oração. Nosso projeto de evangelização passa pela pregação da ética dos evangelhos. Por isso, os católicos precisam estar inseridos em todos os assuntos universitários. Quem assume o cristianismo tem de assumir a cidadania” (Padre Zeca, Revista Família Cristã, 1999).
Encarar como alienação a presença da Igreja Católica ou qualquer outra forma de relação com o sagrado nas instituições de ensino superior, ou apenas como um “refrigério espiritual para almas necessitadas” pode ser considerada uma visão simplória e superficial da realidade, para os que vivem a religião nos centros do saber. Não é segredo que a formação das lideranças da sociedade está diretamente ligada à vida acadêmica. A grande maioria dos que estarão à frente de um povo são cultivados e preparados para a realidade na estufa da universidade.
Além de exercerem liderança, os profissionais que passam, pelo menos, quatro anos nas cadeiras da academia irão prestar serviços de extrema importância para a população, cada um na sua área de atuação. Advogados, engenheiros, médicos, arquitetos, jornalistas... Profissionais diretamente relacionados com a integridade e o equilíbrio de uma comunidade.
Se o capitalismo trouxe desenvolvimento, quando o homem deixou de lado a escuridão da Idade Média, trouxe também competição, individualismo, lucro a qualquer custo, acúmulo de capital. Houve melhoras no sistema, mas como qualquer modelo econômico, o capitalismo tem seus defeitos. Acentuou as diferenças entre ricos e pobres, existe sim a “mobilidade de castas”, mas é bem mais provável que uma criança que nasça pobre na Somália morra desnutrida, do que ela cresça e se torne um grande empresário.
Diante de um país como o Brasil, onde cerca de 50 milhões de pessoas passam fome, não é possível esperar que a solução dos problemas típicos de países de terceiro mundo venha do nada, por meio de um salvador da pátria. É necessário que se priorize nos projetos pedagógicos escolares a preocupação social, a inquietação com a situação de miséria e a resistência à situações de violência para que, dessa maneira, os profissionais saiam das universidades com maior senso de responsabilidade social, além da vontade incondicional de ganhar dinheiro e vencer na vida.
Se a Igreja Católica, que professa sua preferência pelos mais pobres, depois do “aggiornamento” do Concílio Vaticano II, não contribuir para tal formação humana, estará em falta com a sociedade da qual é parte integrante. Por meio de movimentos como a Pastoral Universitária (PU) e o Projeto Universidades Renovadas (PUR), a Instituição milenar se dispõe a colaborar com o sistema de educação superior no país. A preocupação com a formação integral do estudante não é mais única e exclusiva das faculdades e universidades. Torna-se preocupação também da Igreja e dos próprios estudantes. O intuito eclesial, no entanto, visa não perder de vista a dimensão religiosa e cristã dentro da formação profissional.
O Projeto Universidades Renovadas alcança certa expressividade no quadro da Igreja Católica nacional, ainda mais quando o movimento está prestes a completar dez anos de existência. Não há novidade em fundar grupos de oração nas universidades. Jovens como o Padre Joselito - que em 1981 iniciou um grupo de oração na Universidade Federal de Viçosa – e Eros Biondini – precursor do grupo de oração Carisma da Universidade Federal de Minas Gerais – deram início às atividades da Renovação Carismática Católica (RCC) nos campi universitários muito antes do surgimento do Projeto, em 1994. As grandes novidades do movimento surgido em 1994 são o desejo e as iniciativas concretas para se unir fé e razão, consideradas por muitos imiscíveis.
Após o início do movimento, o número de grupos de oração em faculdades e universidades do país cresceu consideravelmente. Em 1996, a RCC acolheu o Projeto como parte integrante das atividades em nível nacional, fato que abriu ainda mais os olhos da Igreja para as atividades dos tímidos e intrépidos universitários católicos carismáticos, dispostos a mudar a realidade social por meio de um “sonho de amor” para a história não só do país, como também do mundo.
Antes da história
Grandes obras sociais como as que realizaram Madre Tereza de Calcutá, Betinho e tantos outros não surgiram da noite para o dia. Ninguém acorda de um dia para o outro com uma idéia genial e simplesmente a coloca em prática reunindo milhares de pessoas, em uma semana, para realizar seu desejo de uma humanidade melhor. Uma grande história sempre tem outra história anterior, um contexto, um fato marcante na vida de alguma pessoa, que serve de ponto chave, de “pontapé inicial”.
O Projeto Universidades Renovadas, ou simplesmente PUR, não é, ainda, uma grande expressão de mudança diante do mundo. Presente em praticamente todos os estados do país, pode existir em uma universidade há dois, três anos, sem que ninguém da instituição saiba que existe, ali dentro, um grupo de universitários que se reúne semanalmente para sonhar com um mundo melhor e para viver uma experiência íntima com Deus. Não são raros os grupos que passam despercebidos pela universidade, o que não faz com que os integrantes desistam de ser a “voz que clama no deserto”, como dizem os evangelhos a respeito de João Batista, o precursor de Jesus Cristo.
Muitos de seus participantes, principalmente os que já estão no movimento há algum tempo, ou que deram início às atividades do Projeto, acreditam que ele ainda é o início de uma história. Se grandes idéias precisam ser pensadas e amadurecidas, um grande sonho também passa por um processo de maturação. Com dez anos de existência, o Projeto Universidades Renovadas ainda engatinha. Dez anos, no entanto, não foram apenas dez anos. O Ministério das Universidades Renovadas, como também é chamado o Projeto Universidades Renovadas, traz, antes mesmo de 1994 - quando universitários reuniram-se pela primeira vez para discutir a presença de Deus dentro das instituições de ensino superior -, uma história.
Passeando por Pittsburgh
Pode-se dizer que o início do Projeto Universidades Renovadas deu-se bem antes do que é considerado o marco inicial do movimento, o Seara de 1994, na Universidade Federal de Viçosa. Em 1967. Também em uma universidade. Pittsburgh; Universidade do Espírito Santo de Duquesne, Estados Unidos, quando um grupo de universitários resolveu questionar a história da Igreja Católica. Esses universitários norte-americanos, após estudarem os capítulos de um a quatro do livro bíblico dos Atos dos Apóstolos e lerem A Cruz e o Punhal, escrito pelo pastor evangélico David Wilkerson, começaram a questionar o porquê de todos os milagres relatados pelos primeiros cristãos e os acontecimentos sobrenaturais contados por evangélicos não acontecerem na Igreja Católica contemporânea.
Questão pertinente. A Igreja acabava de passar pelo Concílio Vaticano II. O Concílio é uma reunião de autoridades da Igreja para a discussão de assuntos doutrinais e disciplinares. O Vaticano II chega no período em que a Igreja vive um dilema: continuar o caminho que trilhava até então (as missas eram celebradas em latim, vivia-se, ainda, sob regras da Igreja da Contra-Reforma), ou rever algumas posições e adaptar-se aos novos tempos nos quais estava inserida, juntamente com toda a humanidade. O Concílio foi convocado pelo papa João XXIII e aberto em 11 de outubro de 1962. João XXIII tinha, na época, 78 anos e havia assumido a cadeira papal há apenas três meses. Em 1965, depois de quatro sessões consecutivas, das quais participaram cerca de dois mil e duzentos bispos, a Igreja que esteve reunida apresenta à humanidade quatro constituições que iriam reger a história dos católicos do mundo inteiro, a partir de então: Dei Verbum, Lumen Gentium, Sacrosanctum Concilium e Gaudiumet Spes. Em busca do “aggiornamento”, a atualização, a Igreja procurou novos rumos para os tempos atuais para a Evangelização, missão que tem desde a sua origem. As novas conclusões às quais chegou a cúpula eclesial fermentaram, por um lado, o surgimento e crescimento de movimentos sociais (como a Teologia da Libertação, por exemplo) e, por outro lado, o nascimento da Renovação Carismática Católica. “Toda a face do catolicismo no século XX ficará marcada pela grande vontade de mudança que representou o Vaticano II, expressão de atualidade e modernidade”. (PRANDI, 1997, pg. 30).
É nesse contexto vivido pela Igreja que os jovens universitários de Duquesne, que se reuniam em uma sociedade chamada CHI RHO, nome que deriva das duas primeiras letras da palavra grega correspondente a “Cristo”, resolvem, após prepararem-se com as leituras já mencionadas, fazer um retiro de fim-de-semana. Esse fim-de-semana marcou na história da Igreja o início da Renovação Carismática Católica (RCC). O acontecimento ficou conhecido como o Fim-de-Semana de Duquesne. Não se pode ignorar o fato de que outro livro escrito por um pastor protestante influenciou também os participantes da CHI RHO nesse início, Eles Falaram em Outras Línguas, de John Sherril.
“No sábado à noite, tínhamos programado uma festinha de aniversário para alguns dos colegas, mas as coisas foram simplesmente acontecendo sem alternativa. Fomos sendo conduzidos para a capela, um de cada vez, e recebendo a graça que é denominada de Batismo no Espírito Santo, no Novo Testamento. Isso aconteceu de maneiras diversas para cada uma das pessoas. Eu fui atingida por uma forte certeza de que Deus é real e que nos ama. (...) Esse não era, pois, um simples bom fim de semana, mas, na realidade, uma experiência transformadora de vida que ainda está prosseguindo e se desenvolve em crescimento e expansão”. (Patti Gallagher Mansfield, Como um Novo Pentecostes, carta a monsenhor Iacovantuno, 29 de abril de 1967)
A partir desse encontro, quando cerca de 25 pessoas se reuniram, a RCC nasceu, cresceu e alastrou-se rapidamente pelo mundo. “O crescimento da RCC foi tão rápido que, já no ano seguinte ao de sua fundação, um congresso nacional realizado nos Estados Unidos reunia uma centena de pessoas. (...) Em 1974, no segundo congresso internacional, participaram mais de trinta mil pessoas, vindas de 35 países. Calcula-se que a RCC já atingia, nessa época, cerca de oitocentos mil membros espalhados pelos quatro cantos do mundo”. (PRANDI, 1997, pág. 44).
Atualmente, a Renovação Carismática Católica está presente nos cinco continentes do mundo. De acordo com informações da Zenit, agência internacional católica de notícias, mais de cem milhões de católicos vivem a experiência da Renovação Carismática. Os números foram fornecidos por Alan Panozza, presidente dos “Serviços Internacionais da Renovação Carismática Católica” (ICCRS, sigla em inglês do serviço com sede no Vaticano), reconhecidos pelo Conselho Pontifício para os leigos. Com 35 anos, o movimento está presente em mais de 200 países.
Em seu início, no fim da década de 60, a RCC não foi muito bem vinda, pois foi vista com preconceito por diversos segmentos da Igreja. Ainda hoje, segundo o pregador da Casa Pontifícia, Raniero Cantalamessa, existe certo “medo” da RCC:
“Quero dizer aos fiéis, aos bispos, aos sacerdotes, que não tenham medo. Desconheço por que há medo. Talvez, em alguma medida, porque essa experiência começou entre outras confissões cristãs, como pentecostais e protestantes. Contudo, o Papa não tem medo. Falou dos movimentos eclesiais, inclusive da Renovação Carismática, como sinais de uma nova primavera da Igreja, e com freqüência faz referência da importância disso. E Paulo VI afirmou que era uma oportunidade para a Igreja. Não há que ter medo.”, continua Raniero, “há Conferências Episcopais, por exemplo, na América Latina - é o caso do Brasil -, onde a hierarquia descobriu que a Renovação Carismática não é um problema: é parte da solução à questão dos católicos que se afastam da Igreja porque não encontram nela uma palavra viva, a Bíblia vivida, uma possibilidade de expressar a fé de maneira gozosa, de forma livre, e a Renovação Carismática é um meio formidável que o Senhor pôs na Igreja para que se possa viver uma experiência do Espírito, pentecostal, na Igreja católica, sem a necessidade de se sair dela. Tampouco se deve considerar que se trata de uma ‘ilha’ na qual se reúnem algumas pessoas um pouco mais emocionais. Não é uma ilha. É uma graça destinada a todos os batizados. Os sinais externos podem ser diferentes, mas em sua essência é uma experiência destinada a todos os batizados” (Zenit, boletim de 25-09-03, entrevista concedida no encontro internacional da RCC, em Castel Gandolfo, Itália).
Para alguns universitários que participaram do Fim-de-Semana de Duquesne, o encontro não teve nenhum significado especial. Foi apenas um fim-de-semana de encontro, como qualquer outro da Igreja da época. Para outros, como a jovem Patti Mansfield, ele mudaria completamente a história de suas vidas.
A partir do encontro vivido pelos universitários de Pittsburgh, nasce o movimento que marca a história da Igreja com a experiência do “Batismo no Espírito Santo”. Sobre essa “novidade” na Igreja, uma das vozes oficiais do Papa, na mesma entrevista concedida à Zenit por ocasião do encontro internacional da RCC, diz o seguinte:
“O batismo no Espírito não é uma invenção humana, é uma invenção divina. É uma renovação do batismo e de toda a vida cristã, de todos os sacramentos. Para mim foi também uma renovação de minha profissão religiosa, de minha confirmação, de minha ordenação sacerdotal. Todo o organismo espiritual se reaviva como quando o vento sopra sobre uma chama. Por que o Senhor decidiu atuar neste tempo desta maneira tão forte? Não sabemos. É a graça de um novo pentecostes. Não é que a Renovação Carismática tenha inventado o batismo no Espírito. De fato, muitos o receberam sem saber nada da Renovação Carismática. É uma graça; depende do Espírito Santo. É uma vinda do Espírito Santo que se traduz em arrependimento dos pecados, que faz ver a vida de uma maneira nova, que revela Jesus como o Senhor vivo - não como um personagem do passado - e a Bíblia se converte em uma palavra viva. A verdade é que não se pode explicar. Há uma relação com o batismo, porque o Senhor diz que quem crê será batizado e será salvo. Nós recebemos o batismo de crianças e a Igreja pronunciou nosso ato de fé; mas chega o momento em que nós temos que ratificar o que sucedeu no batismo. Esta é uma ocasião para fazê-lo, não como um esforço pessoal, mas sob a ação do Espírito Santo. Não se pode afirmar que milhões de pessoas estejam equivocadas. Yves Congar, teólogo que não pertencia à Renovação Carismática, em seu livro sobre o Espírito Santo afirmava que a realidade é que esta experiência mudou profundamente a vida de muitos cristãos. E é um fato. A mudou e iniciou caminhos de santidade”. (http://www.zenit.org/portuguese, acesso em 28/09/2003).
De volta ao Brasil
No Brasil, a RCC surge pouco depois de Duquesne, uma vez que o movimento saiu dos Estados Unidos e ganhou o mundo com grande velocidade. Foi trazida para as terras nacionais pelo padre Eduardo Dougherty s.j., que teve grande ajuda do padre Haroldo Rahm, s.j. O padre jesuíta, Eduardo Dougherty, fundador da Associação do Senhor Jesus, uma obra voltada para a comunicação, um meio de evangelização, principalmente, pela televisão, é o principal responsável pela propagação da Renovação em todo o território nacional. De maneira muito parecida, às vezes até mesmo na “clandestinidade”, pois muitos padres não viam com bons olhos o movimento nascente, os grupos de oração, célula-identidade da Renovação Carismática Católica, que surgiam por todos os cantos do país. A Igreja, que pouco antes presenciava missas em latim, depara-se com grupos de pessoas fazendo orações efusivas, à maneira pentecostal, que não hesitam em bater palmas e gesticular enquanto cantam e rezam, e dispostas a renovar a face da Igreja.
Dessa maneira, começa a formar-se o cenário que abrigaria, alguns anos mais tarde, o Projeto Universidades Renovadas, Ministério das Universidades Renovadas da Renovação Carismática Católica. Em uma cidade de Minas Gerais, a RCC imita a situação em que surgiu, no ano de 1967. O primeiro grupo de oração da cidade de Viçosa tem início em uma universidade, por iniciativa de jovens que vão para a cidade estudar na Universidade Federal.
O grupo de oração de Viçosa começa em 1982 e passa alguns anos no anonimato. Na época, quem chama a atenção não só da universidade, como também da Igreja presente na cidade mineira, é um grupo de jovens universitários de linha pastoral. Enquanto o pequeno grupo carismático contava com 20 pessoas, o grupo pastoral “arrebentava”, inclusive nas festas universitárias, com cerca de 100 membros. Aliás, a juventude universitária da época não era só festa. O Brasil vivia o fim de uma ditadura traumática, final que teve participação significativa de jovens universitários. Não só deles, como também da Igreja que, por meio das comunidades eclesiais de base, auxiliou na luta contra o regime militar e pelo estabelecimento de eleições diretas para presidente. Desde 1983, o Brasil “fervia” com a campanha pelas eleições diretas e o fim da era militar que assolava o país há 20 anos.
A Igreja da época, por meio das comunidades eclesiais de base, aliou-se a partidos de oposição à ditadura militar (PMDB, PDT, PT, PC do B, PCB e outros) e a entidades como a UNE (União Nacional de Estudantes), ANDES (Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior), OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ABI (Associação Brasileira de Imprensa), sindicatos e algumas outras instituições, representando os anseios de cerca de 90% da população brasileira.
Enquanto o Brasil vivia esse contexto político conturbado, o cenário para o surgimento do Projeto Universidades Renovadas ia se estabelecendo na Universidade Federal de Viçosa. Até 1987, o grupo de oração criado na universidade continuou uma trajetória oculta e não muito ousada. Ao contrário do grupo de jovens. Os jovens da pastoral eram conhecidos da universidade inteira, ganhavam, inclusive, quase todos os anos o prêmio de melhor bloco da Festa Nico Lopes (festa política, como um carnaval fora de época, que até hoje é conhecida na Universidade Federal de Viçosa) com suas fantasias exóticas. Era um grupo de amigos católicos que se destacava dentro dos programas tanto religiosos quanto seculares na faculdade. Até 1987...
O grupo de oração da Universidade
O primeiro dia de aula é um desafio para qualquer “bixo”, ou “calouro” que chega ao curso superior. Para os que não moram na cidade onde se encontra a faculdade escolhida, a situação é algumas vezes mais complicada. Há aqueles que em pouco tempo se adaptam à nova realidade, mas há também os que nunca se acostumam. Os que se adaptam, além de levarem consigo, depois do último dia de aula, junto com o “canudo”, uma carga de conhecimentos para a vida profissional, levam uma experiência inesquecível que é o tempo universitário, mas costumam deixar marcas também.
Em 1987, o estudante Fernando Galvani, o Mococa, é aprovado para o curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Viçosa. Tipo despojado, entrosado, daqueles que deixam marcas, boas ou más, mas marcas. Galvani já havia tentado passar no vestibular da Federal em anos anteriores, foi quando teve contato com o grupo de oração da universidade e conheceu o Padre Mendes, fundador da cadeira n° 3 da Academia de Letras de Viçosa. “O padre Antônio Mendes foi um querido amigo, pai e pastor por muito tempo. Tenho muitas e boas recordações dele. Na minha chegada em Viçosa para o primeiro vestibular, desembarquei às 12h30; por volta das 15 horas já havia conhecido o padre Mendes. No surgimento do PUR, ele teve pouca participação direta, uma vez que quando começamos o Projeto ele já estava muito doente, mas na história da RCC de Viçosa ele tem participação diretíssima. Foi o nosso diretor espiritual por muitos anos e grande incentivador, patrocinador, foi pai, conselheiro, orientador espiritual, confessor...”, relembra o agora médico veterinário Fernando Galvani. A ligação de Padre Antônio Mendes com o contexto que antecede o Projeto Universidades Renovadas deve-se à proximidade entre o sacerdote e os universitários precursores do Ministério das Universidades Renovadas, em Viçosa.
Depois que Mococa entra no vestibular e no contexto da RCC de Viçosa, o jovem universitário torna-se o responsável pelo movimento carismático na região. “Foram quatro anos como coordenador regional (cerca de 50 cidades da região de Viçosa). Os trabalhos de evangelização nessas cidades eram realizados pelos jovens universitários. O desejo de encher as cidades da experiência do Amor de Deus (que eu chamo de Batismo no Espírito Santo) era desafio dos universitários, além do trabalho com as demais pessoas da cidade de Viçosa. Essas missões, e outras, como a realização do Seara (onde surgiu o PUR), eram acompanhadas pelo Padre Mendes, um homem intelectualíssimo, carismático, político e de Deus, que ainda encontrava tempo para nos acompanhar. Viveu e sonhou muitos dos nossos sonhos e, com certeza, hoje é um grande intercessor nosso e deve nos olhar com carinho e alegria lá do céu. Sou um homem feliz por tê-lo como um dos meus primeiros diretores espirituais. Além de tudo, era um grande incentivador por bom desempenho acadêmico, como forma de testemunho”, conta, saudoso, Fernando.
À frente da Renovação Carismática e vivendo intensa atividade de evangelização juntamente com outros jovens universitários da Federal de Viçosa, Fernando Galvani formava-se, sem reparar, para ser o fundador e um dos principais personagens do Projeto Universidades Renovadas. O contexto em que os estudantes de Viçosa viviam no fim da década de 80 e início da década de 90 é essencial para que surja a idéia de renovar o país por meio da ação direta de Deus nas instituições acadêmicas. Muitos estavam longe de casa e sentiam-se amparados pela “comunidade” de católicos que os acolhia em Viçosa. O próprio Fernando Galvani afirma que, por ocasião da primeira vez que foi até a cidade mineira prestar vestibular, ficou extremamente tocado e motivado com a experiência de Renovação Carismática e a Igreja Católica que pôde presenciar.
O que Galvani não sabia era que, ao entrar no curso de medicina veterinária na Universidade Federal de Viçosa ele iniciaria, anos mais tarde, um projeto de evangelização nas instituições de ensino superior, que atingiria não só o território brasileiro, como também se expandiria para além de nossas fronteiras.
Mãos no barro
“A sociedade traz consigo o desejo de que a Universidade responda às suas necessidades específicas, a começar pelo emprego para todos”, é o que prevê a carta A presença de Deus na universidade, escrita para as instituições de ensino superior. A Igreja sempre procurou deixar claro que sua missão primeira é a evangelização. Depois de viver um período de confusão de valores na Idade Média, a Instituição decidiu também dar ouvidos aos apelos da sociedade na qual está inserida. Devido a isso, nas últimas décadas também tem voltado um olhar atencioso às universidades. Altos escalões eclesiais da América Latina estiveram reunidos em Medellín (1979) e em Santo Domingo (1992) para compor documentos que orientassem a Igreja neste continente. Em nenhuma dessas ocasiões foram esquecidas abordagens sobre o tema Universidade.
Nota-se, nesses documentos, o interesse na formação de profissionais comprometidos com a ética profissional e sobretudo com a valorização do ser humano. Aliás, a Igreja já mostrou sua preocupação com a humanização e chama os seus fiéis a promover a dignificação do ser. “O ser humano, quando não é visto e amado na sua dignidade de imagem viva de Deus (cfr. Gn 1, 26), fica exposto às mais humilhantes e aberrantes formas de ‘instrumentalização’, que o tornam miseravelmente escravo do mais forte. E o ‘mais forte’ pode revestir-se dos mais variados nomes: ideologia, poder econômico, sistemas políticos desumanos, tecnocracia científica, invasão dos mass-media. (...) Manchas de pobreza e miséria, ao mesmo tempo física e moral. (...) Tornar-se protagonistas e, em certa medida, criadores de uma nova cultura humanista, é uma exigência ao mesmo tempo universal e individual”, explica o Papa João Paulo II, na exortação apostólica aos fiéis leigos Christifideles Laici.
No documento de Puebla, no capítulo 1074, o episcopado latino-americano deixa claro que as universidades são o fórum para a formação de novos líderes, e que sejam eles os construtores de uma nova sociedade. No contexto universitário, o leigo católico tem uma missão dupla: a primeira, como leigo inserido no mundo com função de promover a humanização; a segunda, como universitário, de preparar-se para oferecer à sociedade um retorno eficaz dos investimentos que a mesma faz, por meio dos impostos, na educação.
O Projeto Universidades Renovadas tem raízes profundas nos documentos da Igreja acima citados (Puebla e Santo Domingo), e, além de basearem-se nesses documentos, os profissionais do Ministério das Universidades Renovadas têm desenvolvido estudos fundamentados no documento eclesial Christifideles Laici, que consiste em um conjunto de instruções para os fiéis leigos inseridos na realidade secular. Desde o início oficial do movimento, o fundador Fernando Galvani preocupava-se com a função social que os universitários têm de exercer. Aliada à preocupação social, havia também a questão espiritual, pois ambos devem caminhar lado a lado, na visão de Fernando. A RCC nasceu dentro de uma universidade. Galvani sempre se questionou sobre o porquê de Deus escolher tal lugar para repetir a experiência de Pentecostes, do derramamento do Espírito Santo como fez na Igreja Nascente, na Galiléia. Ante esse questionamento, por volta de 1992, Fernando Galvani, o Mococa, ouve atento um pronunciamento de Dom Luciano Mendes de Almeida. “Tem muita gente que pensa que a profissão é para ganhar dinheiro, é para preencher lacunas na vida. Ela pode ser para tudo isso, mas é importante que vocês saibam que a sua profissão é um dom de Deus para ser uma prestação de um serviço social para a comunidade. Através do dom da sua profissão, a sociedade que paga os impostos – mesmo para aqueles que estudam em universidades particulares, pois elas recebem subsídios do governo – você estudante cristão, você que comunga da fé cristã, deve saber que a sociedade do Brasil espera uma resposta sua para equacionar os problemas existentes na sociedade”, ensinava Dom Luciano.
Mococa tinha a intenção, na época, de formar-se e trabalhar na área de inseminação artificial em cavalos, ramo veterinário crescente e lucrativo, no início dos anos 90. Depois de refletir em seu chamado como universitário católico, de acordo com as palavras de Dom Luciano, Galvani decidiu mudar os planos. Ao relembrar o impacto que as palavras do bispo causou em seu interior, Mococa entusiasma-se: “Mudou minha vida da água para o vinho. A interpretação social da Palavra de Deus mudou a história da minha vida”.
Com essa visão, os universitários do Projeto Universidades Renovadas sentem-se profundamente chamados a mudar a sociedade, colocando a serviço dela o que foi aprendido na universidade, uma vez que a própria população os sustentou por quatro ou cinco anos em um curso superior. E assumem esse compromisso.
E por que esperar chegar o tão esperado e suado diploma para começar a colocar isso em prática? Dentro do PUR, os estudantes são chamados a ir ao encontro daqueles que necessitam desde o dia em que colocam os pés na universidade. O resultado mais visível e palpável são os projetos sociais, mas os membros do movimento buscam também realizar trabalhos de conscientização da sociedade por meio de palestras, principalmente quando assuntos polêmicos estão em pauta.
Para os membros do PUR, as obras assistenciais podem começar logo no primeiro dia de aula. Mais precisamente, no dia do trote. Aliás, trote em calouros tornou-se um problema, muito mais depois do trágico fato ocorrido na Universidade de São Paulo (USP), em 1999. Inesquecível para qualquer vestibulando ou estudante universitário, a maneira como o calouro Edison Tsung Hsueh morreu afogado na piscina da Associação Atlética Oswaldo Cruz, no dia 22 de fevereiro de 1999, por causa de uma brincadeira estúpida de estudantes, os veteranos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Depois da morte de Edison, muitas universidades repensaram a questão do trote. E não só universidades. Calouros “perdidos” nas instituições, no primeiro dia de aula, encontraram mais do que tinta, tesoura, fantasias, bandanas coloridas e sarro de veterano (como a tão famosa frase: “bixo é burro!”). Houve, sim, muito sangue doado, roupas espalhadas, quilos de alimentos. Um grande despertar de trotes-vampiros (doações de sangue), arrecadações de agasalhos e alimentos para aqueles que têm mais necessidade. Uma experiência de trote que deu muito certo no Projeto Universidades Renovadas, tendo a idéia partido, justamente, do revoltante episódio da morte do calouro de medicina: o Trote Solidário.
Atualmente, é a primeira atividade desenvolvida com os calouros em muitas universidades nas quais o Projeto Universidades Renovadas atua. A experiência mais marcante talvez seja a de Belo Horizonte. Além da assistência pelo lado substancial, os novos universitários, acompanhados dos “veteranos”, não esquecem de doar livros (literários e didáticos) e material escolar. O “bando de bixos” mais solidário de cada turma, geralmente, é homenageado e premiado com camisetas com os nomes dos cursos que, a partir do vestibular, passarão a cursar.
“Sensibilizados com a realidade social brasileira e com a morte do estudante de medicina da USP em um trote no início do ano passado (1999), um grupo de veteranos da PUC Minas promove, de 21 a 25 de fevereiro, o 2° Trote Solidário da Universidade. Integrantes do Projeto Universidades Renovadas (PUR), os organizadores do evento, visitarão 38 salas do campus de Belo Horizonte e sete salas da unidade de Contagem, que somam 2.700 calouros. (...) O 1° Trote solidário arrecadou 982 quilos de alimentos e 1.868 peças de roupas, doados à comunidade Reviver, que assiste a população de rua de Belo Horizonte e trabalha com a recuperação de dependentes químicos. O 1° Trote Solidário (10 a 16 de agosto, 1999) teve apoio da Reitoria da PUC Minas, que arcou com todas as despesas de divulgação: cartazes, folders, panfletos e faixas” (TROTE civilizado. Pampulha, o semanário de Belo Horizonte, Belo Horizonte, 26 fev. a 03 mar. 2000. Educação, p.9)
Assistencialismo? Pode ser, mas é o início de uma consciência social, da responsabilidade que o universitário, semente do profissional do futuro, deverá ter. Em muitos trotes solidários, os estudantes são convidados a saírem da redoma universitária e irem aos locais onde os alimentos e roupas serão distribuídos. Se considerarmos que, de acordo com relatório da Unesco do ano 2000, apenas 9% da população brasileira conclui um curso superior (desses, 7% são homens e 11% mulheres), tal ação significa retirar a “nata” brasileira da taça de cristal e levá-la a conhecer a realidade social que espera por ela, depois do “canudo”, e até mesmo antes dele. A obra de “caridade” torna-se muito mais caridosa para o próprio calouro. Quantos não vêm de um vestibular pensando na carreira que mais traz lucro e possibilidades de enriquecimento de maneira rápida e fácil. Sem contar aqueles que entram em determinados cursos superiores por pressão dos pais ou por “herança” de família. Inseridos no contexto do Projeto Universidades Renovadas, os graduandos procuram fazer tudo o que está ao alcance de um universitário. O que, muitas vezes, é algo restrito pela falta de diploma. Atividades de maior profundidade ou que requerem experiência, geralmente, tem de ser monitoradas pelos “donos” de diploma, os profissionais.
Sementes lançadas ao vento
O que os formados que passaram pelos GOUs (Grupos de Oração Universitários) um dia na vida acadêmica, não esquecem, no entanto, é a lição de amor ao próximo tão bem apreendida nos momentos de encontro com o Sagrado. Portanto, o que não está ao alcance dos universitários de hoje será totalmente possível ao profissional de amanhã. Na realidade, o PUR dentro das instituições de ensino superior é semente. Não há como não comparar o trabalho do Ministério das Universidades Renovadas com a parábola que Jesus conta aos discípulos sobre o semeador que espalha suas sementes pelo caminho. “O semeador saiu para semear. Enquanto semeava, algumas sementes caíram à beira do caminho, e os pássaros vieram e as comeram. Outros caíram em terreno cheio de pedras, onde não havia muita terra. Logo brotaram porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol saiu, ficaram queimadas e, como não tinham raiz, secaram. Outras caíram no meio dos espinhos, que cresceram sufocando as sementes. Outras caíram em terra boa e produziram frutos: uma cem, outra sessenta, outra trinta.” (Mateus 13, 3-8).
Aqueles que resolvem dedicar-se ao PUR sabem que correm o risco de nada conseguirem em curto prazo. É lançar sementes e deixar que a natureza trate de fazê-las crescer. Desanimador? Se comparados o número de corruptos no Brasil e a quantidade dos que ainda acreditam em um país melhor, não. Considerando-se também a força que brota dos universitários e profissionais envolvidos com o Projeto, uma sociedade mais justa é questão de tempo.
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VIII ENUCC - Fernando "Mococa" Galvani
e Elen Resende Santos“Eu entendo que a Renovação surgiu em uma universidade porque os homens públicos hoje, os políticos, em sua grande maioria, têm algum grau de escolaridade. Pelo menos, 87% tem nível superior. Já pensou se esses políticos já tivessem passado pelo seu GOU (Grupo de Oração Universitário)? Se você tivesse rezado por eles e eles fossem batizados no Espírito Santo? Por isso eu acredito que a Renovação surgiu numa universidade. Somos chamados, vocacionados a tirar o Brasil dessa situação em que se encontra atualmente e o colocarmos em uma situação muito melhor. Começa pela sua vida, passa pela sua sala de aula, pela sua república, vai na sua família, vai no seu trabalho, vai para a sua cidade, vai para o mundo inteiro. É para isso que nós estamos aqui. Eu não consigo imaginar nada além disso”, afirma Mococa, dirigindo-se aos 1.600 universitários presentes no VIII Encontro Nacional de Universitários Católicos Carismáticos em Goiânia, no ano de 2003.
...e elas passam a brotar
E lá vão eles. Profissionais e estudantes tentam oferecer o que podem. Dessas tentativas nascem os mais variados projetos. Infelizmente, os trabalhos que cada estado desenvolve ficam restritos a poucas comunidades. Aqui e ali, nas listas de discussão na internet surgem um ou dois textos contando o que os membros do PUR têm feito nos diversos pontos do país, mas o projeto de uma comunidade ou fica esquecido como um belo testemunho, ou, e essa é a melhor opção, torna-se modelo para realizações em outras comunidades. O que acontece, na maioria das vezes, é o desenvolvimento de ações que ficam apenas sob o conhecimento de quem as inicia.
Algumas, pouquíssimas, foram resgatadas e estão impressas, mas são mínimas, o que não as impede de promoverem impactos razoáveis sobre as comunidades nas quais estão inseridos os GOUs que as desenvolvem. Talvez os trabalhos realizados pelo Projeto sejam o tão sonhado retorno que a academia luta para dar à sociedade local, que a abriga. Não se compara à extensão universitária, claro. Mas preenche as lacunas que a universidade deixa na hora de oferecer à comunidade os frutos da sua presença. Não é raro encontrar-se sociedades que nem tomam conhecimento da presença de uma universidade estadual, por exemplo, em suas proximidades.
O Projeto Universidades Renovadas incita seus participantes, ou pelo menos deveria, a estender-se ao outro. Uma das primeiras necessidades que surgem na mente e coração dos universitários é um cursinho pré-vestibular gratuito àqueles que não têm condições financeiras para pagar por um. Certamente, em muitos locais do Brasil nos quais o movimento chegou, os alunos já deram ou dão aulas aos que têm dificuldades ou para cursinhos pré-vestibulares da própria faculdade na qual estudam. O Ministério das Universidades Renovadas também tem iniciativas nesse sentido: participantes do movimento que ainda estão na graduação, mestrandos e doutorandos, arranjam tempo e doam seus “saberes” àqueles que sonham em passar no vestibular.
Existem no país algumas iniciativas de cursinhos, uma delas, de maneira expressiva, procura firmar-se no estado do Amazonas. “Hoje a diocese de Manaus está toda trabalhando em cima do cursinho pré-vestibular que nós temos como projeto, o Cursinho Pré-vestibular São Lucas. Quem organiza, quem vai ministrar as aulas são os membros do PUR. Os alunos irão pagar uma taxa que é o valor da apostila e a escola nos foi cedida pelo município. O trabalho é voluntário, todos os professores são voluntários. Desses 20 reais de taxa, nós iremos tirar o dinheiro da apostila e, no caso de alguns professores que necessitam pegar ônibus, nós vamos dar o transporte deles também. O cursinho vai funcionar no turno da noite porque durante o dia os professores não têm tempo por serem alunos formandos da faculdade ou estudantes já formados, fazendo mestrado. Nós temos duas salas com capacidade para 30 alunos cada. Vamos abrir vagas para toda a cidade, mas 60 vagas não são nada. A prioridade é para os membros do bairro no qual vai ser realizado o curso, mas queremos expandir para o centro da cidade. A demanda vai ser um pouco maior. O projeto é antigo. Em Parintins, antes de terem implantado o PUR, já existia o projeto do cursinho. O GOP (Grupo de Oração Pré-vestibular) virou a idéia de um cursinho cristão e o início vai ser no ano que vem, em março (2004). Temos a intenção de preparar estudantes para a Federal e para a Estadual também”, comemora a formanda em fonoaudiologia da Universidade Federal do Amazonas e coordenadora do Projeto Universidades Renovadas no estado, Tatiana Vanessa.
Devido ao contato diário dos universitários com a educação, projetos que visam ensinar seja lá o que for para os mais carentes são sempre muito bem-vindos. Outro projeto que deu certo e trouxe frutos visíveis aos que o organizaram, foi um curso de computação ministrado por membros do PUR de Bauru, São Paulo. Com o apoio logístico da Universidade do Sagrado Coração, que cedeu o laboratório de computação, profissionais recém-formados em Ciência da Computação e Análise de Sistemas ministraram aulas de informática aos que não tinham condições de pagar. Como saber lidar com o computador tem se tornado um dos pré-requisitos para se conseguir um bom emprego, os voluntários pretendiam diminuir a exclusão digital nessa cidade do interior de São Paulo. As poucas vagas foram preenchidas rapidamente. Depois de seis meses de aulas voluntárias, nos fins de semana, pelo menos dois alunos do curso saíram com empregos novos.
Renovar a sociedade nos atos, “arregaçar as mangas” para o Projeto, no entanto, parte de um profundo movimento interior. E, para a coordenadora nacional do PUR, o objetivo tem sido alcançado. “A gente acredita que tem alcançado o objetivo de corações renovados para que exista uma sociedade renovada, primeiro, porque temos visto a juventude mudar muito nas nossas faculdades. Por meio dos grupos de oração com professores, com universitários e com funcionários das universidades. Aí, eles têm vivido o amor de Deus, Pentecostes. Vemos pessoas envolvidas com drogas, com tráfico dentro da faculdade mudarem de vida; pessoas profundamente decepcionadas com seu curso, com dúvidas vocacionais se resolverem por trocar de curso ou até por criar uma nova visão, começar a sonhar com seus cursos de forma diferente. Além de pessoas que estavam desistindo do curso – por saírem de suas cidades e sentirem-se extremamente isoladas, tristes, entram muitas vezes até em depressão – mudarem completamente ao encontrarem nos nossos grupos de oração muito mais do que simples momentos de oração, elas encontram também acolhimento, carinho, uma segunda família. Na realidade extra-pessoal, o Projeto lança o sonho de sociedade nova. Temos visto pessoas optarem por temas de teses de mestrado, trabalhos de pós-graduação, monografias de conclusão de curso que, de alguma forma, fazem diferença na sociedade. Para citar alguns exemplos, a tese de doutorado de um dos participantes do Projeto na Universidade Federal de Viçosa. Ao estudar uma planta, a pessoa constatou que aquela reduziu 50% da incidência da diabete em ratos. A pessoa passou a buscar formas de estudar isso em humanos. Temos um trabalho de monografia de conclusão de curso, em Santa Catarina, de uma formada em artes. Ela elaborou um projeto para levar a escola de artes para o presídio. Então, começou a realizar com os presos escolinhas de arte, ensiná-los a trabalhar com madeira, pintura. Com o término do trabalho de conclusão de curso, ela começou a realizar um programa interdisciplinar com isso. Várias pessoas se interessaram e foi tão bom em Florianópolis que o Secretário de Segurança do Estado resolveu ampliar o projeto e levá-lo para os presídios de todo o Estado de Santa Catarina. Assim, todo o estado tem escolas interdisciplinares nos presídios, projeto que nasceu dentro do Projeto Universidades Renovadas, no grupo de oração”, conta com entusiasmo Elen Resende, responsável pelo Projeto Universidades Renovadas em âmbito nacional. A mineira da cidade de Araxá é formada em Engenharia Química e, após concluir seu mestrado na Universidade de Campinas (Unicamp), passou a trabalhar em um laboratório em Marabá, no estado do Pará.
As obras não param nos benefícios materiais que são capazes de trazer. Reduzir o ser humano à dimensão física é correr o risco de coisificá-lo. Proporcionar o bem-estar material em uma sociedade repleta de necessidades desse âmbito é urgente e indispensável, esquecer-se do interior do homem, porém, é ignorar sua essência, a fonte do verdadeiro bem-estar do ser humano, de acordo com a convicção do Projeto Universidades Renovadas.
Se enumerar a quantidade de obras sociais realizadas pelo PUR nos diversos estados do país não é tarefa fácil, as moções interiores que provoca nos participantes e naqueles que atinge de alguma forma são praticamente incontáveis. Como parte integrante da Renovação Carismática Católica, o PUR assume, nitidamente, a identidade do movimento, ou seja, características voltadas para a espiritualidade, a interioridade do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Assim sendo, os fazeres e afazeres partem, primeiramente, de um impulso interior.
Ao remeter o ser humano para dentro de si mesmo, o movimento incentiva descobertas pessoais que refletem diretamente no relacionamento do indivíduo com a sociedade da qual faz parte.
A primeira grande obra “subjetiva” realizada é o encontrar-se consigo mesmo. Por meio desse encontro inusitado, o sujeito é capaz de certificar-se, por exemplo, se o curso que faz corresponde realmente à formação para o que gostaria de exercer profissionalmente. Muitos participantes do Projeto desistiram do curso que faziam e optaram até mesmo por outras áreas, depois de voltarem-se para si e ordenarem a “bagunça” interior em que se encontravam, segundo constatam os próprios participantes do Ministério das Universidades Renovadas.
Sendo a espiritualidade uma das principais identidades do movimento, os diversos encontros de fins de semana realizados em todos os cantos do país não são surpresa. O maior deles é o Encontro Nacional de Universitários Católicos Carismáticos, o Enucc. A importância desse encontro é tanta para o movimento que ele deve ser tratado como um caso a parte, mereceu um capítulo inteiro só para ele.
Há também, quando se fala em encontros que tratam especificamente do Projeto Universidades Renovadas, os de âmbito regional, diocesano e estadual. Recebem os nomes mais diversificados: Erucc (Encontro Regional de Universitários Católicos Carismáticos), Educc (Encontro Diocesano), Sampa Pur (encontro do Projeto que envolve as dioceses da Grande São Paulo), Encontro do Vale do Paraíba, do Projeto Universidades do Sul do país, entre outros. Além dos encontros que envolvem especialmente os graduandos, o Ministério das Universidades Renovadas não esquece dos formados, os profissionais. Pelo pouco tempo de existência e recentes gerações do movimento que se formaram, o primeiro e único encontro nacional de profissionais foi realizado em maio de 2002.
O movimento “espiritual” é maior nas dioceses. Encontros vocacionais, terços nas repúblicas, tardes de oração, novenas de natal e pentecostes. Em algumas realidades, as atividades dos universitários nas comunidades acadêmicas são de fazer inveja a qualquer paróquia. No interior paulista, o PUR tem certa expressividade na cidade de Presidente Prudente, uma das primeiras do estado de São Paulo a abraçar o movimento. “Nós estamos fazendo encontros quinzenais vocacionais nas repúblicas e na moradia (alojamento universitário). Nos encontros fazemos uso de um livrinho lançado pela Igreja (semelhante ao da novena de Natal), no qual em cada encontro se fala de um tema relacionado à vocação. Temos momentos de louvor, oração e de meditação de uma palavra da Bíblia. Esse livrinho também faz com que as pessoas que participam partilhem através de algumas perguntas referentes à palavra lida e também à vocação. Claro que procuramos falar mais sobre a vocação de ser universitário (que é o nosso objetivo principal), de ser família, do que do chamado ao sacerdócio ou vida religiosa, mesmo porque em muitas das casas que visitamos nem todos aceitam o GOU e mesmo a Deus. Outra coisa legal que fazemos todo ano é a novena de Natal nas repúblicas. Cada dia é em uma república diferente e a própria casa que nos acolhe prepara o encontro seguinte para a outra república, e assim sucessivamente. Tem dado muitos frutos e, no ano passado, foi muito legal porque envolveu não só nós do PUR, como também a comunidade do bairro próximo à Unesp (Universidade Estadual Paulista). Muitas senhoras da comunidade acompanhavam-nos nos encontros que aconteciam às 22h30 (para elas é super tarde)”, conta a formanda em Matemática Michele de Oliveira Alves que, apesar da correria com a conclusão do curso, é responsável pelo Ministério das Universidades Renovadas na diocese de Presidente Prudente.
Se a assistência social que os GOUs procuram realizar – às vezes sem muito sucesso, é verdade – propicia melhorias na vida dos beneficiados, o trabalho que os universitários fazem no aspecto espiritual e individual gera mudanças de comportamentos que podem ser consideradas verdadeiros milagres. Mudanças sensíveis no modo de ser, agir, pensar, notadas por aqueles que convivem de perto com integrantes do GOU. O modo de viver em comunidade e a experiência com Deus que caracteriza o Projeto Universidades Renovadas faz com que muitos dos integrantes vejam um novo sentido na vida e abandonem práticas autodestrutivas como o envolvimento com drogas ou egocentrismo acentuado, por exemplo, fatos que isolam e desumanizam aos poucos as pessoas que adotam tais tipos de procedimento, fato já acentuado pela coordenadora nacional, Elen Resende.
Ao sair de si, vão diretamente ao encontro do outro, observam necessidades que, anteriormente, não conseguiam ver, por não se importarem com realidades que não lhes diziam respeito. A preocupação com o bem-estar do próximo, no entanto, não se limita ao campo material. Prova disso, além dos encontros de oração, é a busca do conforto interior para aqueles que não podem tê-lo exteriormente. Essa busca desencadeia projetos como o Andorinhas, de Uberlândia, Minas Gerais. Estudantes da Universidade Federal de Uberlândia dispõem-se há três anos a levar alegria aos doentes. Toda semana, os membros do Projeto Universidades Renovadas da faculdade mineira reúnem-se para cantar nos corredores do Hospital das Clínicas e no setor de psiquiatria da universidade. “O Projeto Andorinhas nasceu no coração de dois integrantes do PUR/Uberlândia, que sentiram a necessidade de avançar no sonho de uma universidade mais justa e fraterna. Não mais nos sentimos satisfeitos por apenas receber, mas, abastecidos nos GOUs pelo Espírito Santo, fomos impelidos a sair do nosso comodismo e fazer algo mais. Assim, começamos esse projeto que hoje conta com o apoio e reconhecimento dos médicos, enfermeiros, psicólogos e funcionários do HC. Todos testemunham as maravilhas que Deus tem feito nos corredores, nos leitos e principalmente nas vidas que lá estão. No início, não tínhamos nome, até que, ao retornar em mais um dia de missão, as enfermeiras do HC nos recepcionaram dizendo que as andorinhas haviam voltado. Diversos pacientes das alas cirúrgicas, de pediatria, moléstias infecciosas, maternidade, de psiquiatria e UTI já ouviram o nosso canto. E puderam receber também o amor de Deus, através de nossa alegria, olhar, orações. Com a graça de Deus, hoje temos o apoio de todos do HC, e passamos a fazer parte do projeto interno de humanização do hospital. Recentemente, fomos presenteados com matérias exclusivas em duas emissoras de TV, no jornal da cidade, em um programa na rádio universitária e recebemos o reconhecimento da Câmara Municipal de Uberlândia”, contaram ao jornal do Projeto Universidades Renovadas na internet, o Jornal de Partilha on-line, Eduardo Duarte Faria e Leiriane Alves de Souza, responsáveis pelo “Andorinhas” da Universidade Federal de Uberlândia.
Os estudantes dedicam-se e revezam-se na “missão de levar alegria” aos corredores do hospital. Quem vê uma obra como essas em prática, algumas vezes, pode não imaginar que se tratam de estudantes em trabalho voluntário que “têm muito mais o que fazer”. O colocar-se à disposição é inclinação sincera e sem esperar nada em troca, a não ser o que o doar-se pode causar na vida do outro. “Foram três anos de muita luta, em meio a provas, estágios e monografias mas, acima de tudo, três anos de muita alegria e só temos que render graças a Deus por tudo o que Ele tem realizado e principalmente por nos dar força a cada dia para seguirmos em frente nesse projeto, mesmo diante de tantas provações e dificuldades. Sonhamos que um dia todos os hospitais públicos e privados possam também receber as andorinhas de Deus e que elas possam sempre voltar, cada vez em número maior”, contam os organizadores do Projeto Andorinhas ao Jornal de Partilha on-line.
Com limitações e em pequenas doses, muitas vezes, os jovens universitários carismáticos não se intimidam na hora de colocar a mão no barro. Se, em uma visão pessimista de mundo, não o são para a sociedade, para a Igreja, as iniciativas têm extrema importância e correspondem a um apelo: “Tornar-se protagonistas e, em certa medida, criadores de uma nova cultura humanista, é uma exigência ao mesmo tempo universal e individual”, como expressa e espera o Papa João Paulo dos fiéis leigos na exortação Christifideles Laici.
Fé e razão
Não seria equívoco afirmar que o PUR nasce não somente da RCC, mas também de apelos da própria Igreja Católica. Na América Latina, os bispos na Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, nos documentos originados dessas conferências, Puebla, de 1979, e Santo Domingo, de 1992, a Instituição deixa clara sua preocupação com a evangelização bem como com a formação dos profissionais cristãos nas universidades. A Igreja percebeu, e não só ela sabe disso, que ali, dentro dos centros da razão, são formadas as futuras lideranças de um país. Até aí, tudo parece perfeito. Mas, somente quem passou por uma universidade, porém, tem a noção exata do ceticismo que se instala em algumas delas. Fé e razão se “estranham” abertamente, desde que o homem começou a pensar em tirar Deus do centro (teocentrismo) e, na Época das Luzes, estabelecer-se como centro da cultura (antropocentrismo). Alcançar o equilíbrio entre Theos e anthropos torna-se praticamente “missão impossível”, em algumas situações e realidades.
O PUR surge antes que o Papa João Paulo II se pronuncie sobre o duo Fé e Razão, mas, desde sua concepção, já traz em si o desejo de fazer de Fé e Razão não rivais, mas aliadas. Em 1998, a Igreja se aprofunda nesse tema: “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” assegura João Paulo II, na introdução da encíclica Fides et Ratio, ou Fé e Razão.
Um desafio. Conciliar fé e razão. Talvez não um desafio para os altos escalões da Igreja. Bispos, cardeais, homens formados e “re-formados” em Filosofia, Teologia e quantas “ias” forem necessárias para constituir líderes capacitados para caminhar à frente de uma instituição de nome como a Igreja Católica Apostólica Romana. Desafio, sim, para jovens universitários que saem de seu ensino médio e cursinhos pré-vestibulares e enfrentam novas formas de viver e pensar no mundo acadêmico. Não são raras as histórias de pessoas que professavam alguma religião antes de passarem no vestibular, mas que começaram a fazer cursos universitários e simplesmente desistiram de seus credos, ou que mudam seu modo de pensar. Católicos que viraram ateus. Evangélicos que tornaram-se agnósticos. Espíritas que tornaram-se adeptos única e exclusivamente da doutrina-ciência. Alguns acadêmicos enxergam Fé e Razão como água e óleo, que não se misturam, nem nunca poderão caminhar aliados. O PUR, com seu ideal de renovar a sociedade, tem muitos desafios. Um deles, um dos grandes, é promover uma convivência não só sadia como também uma relação de mutualismo entre Fé e Razão. A Fé, sem excluir a razão, ou guardá-la em uma gavetinha para ser usada nas horas em que é necessária, mas utilizando-a para fazer do cristão um ser orante que não se deixa alienar em sua espiritualidade. A Razão, não esfriando totalmente o ser humano, fazendo dele somente um ser pensante, preocupado sim com a realidade, mas esquecido de sua porção sobrenatural. A Igreja, em documentos, deixa clara a intenção de estar presente em universidades: torná-las formadoras de pessoas humanas e não meros cientistas dependentes da técnica.
Tratando-se de um movimento católico, fica simples para o PUR realizar tal tarefa. Errado! As contradições fé e razão acontecem dentro do próprio movimento. Muitas vezes existem tendências espiritualistas demais, assim como racionalistas extremos. É preciso admitir, no entanto, que o movimento marca sobremaneira a Igreja na discussão científica e humana. Prandi afirma, quando trata da RCC, que o movimento católico “compete com o pentecostalismo, adotando concepções e práticas muito similares e, assim, constituindo-se em concorrente robusto na caça às almas; e combate as comunidades eclesiais de base, revalorizando o indivíduo e a família e deixando para trás qualquer preocupação com a sociedade e suas estruturas, especialmente no que diz respeito às questões de justiça social e mudanças dessas estruturas”. (PRANDI, 1997, p. 11, grifo nosso).
Contrariando a visão que muitos da Igreja têm sobre a Renovação Carismática Católica, o PUR tem criado uma estrutura preocupada não somente com a formação espiritual de seus membros, mas também com a formação acadêmica e científica deles. Isso fica claro nos encontros nacionais do Projeto. Logicamente, sendo encontros cristãos e “carismáticos”, os participantes são levados a uma experiência sobrenatural, com o Sagrado. Em algum momento, no entanto, os estudantes, professores e funcionários presentes no Encontro Nacional de Universitários Católicos Carismáticos (Enucc) terão a oportunidade de ouvir e trocar experiências puramente científicas. São as mesas temáticas.
Inicialmente, as atuais mesas temáticas eram as mesas redondas do encontro. Os universitários dividiam-se por áreas (humanas, biológicas ou exatas) e cada mesa tratava de um tema específico dessas áreas de conhecimento. Atualmente, as mesas temáticas tratam de temas de interesse de qualquer área de conhecimento contemporânea e que esteja incluída no cotidiano do ser humano.
VIII ENUCC - Mesa temática com o Pe. Joãozinho e Jean Lauand. Nos últimos Enuccs, temas como, “Propostas e desafios para a educação no Brasil”, “Bioética”, “Ética e responsabilidade social” Como o encontro é de católicos, há a discussão de como a Igreja vê e pensa temas da atualidade, portanto “A Igreja e os acontecimentos atuais”, “Fé e Política” e “Nosso papel na campanha da CNBB contra a Miséria e a Fome”, são temas que geram discussões “quentíssimas” entre os participantes do encontro.
Duplo comprometimento
O Ministério das Universidades Renovadas enfrenta o estereótipo de que a RCC aliena e tira as pessoas da realidade social em que vivem, assim como busca formar não somente graduados comprometidos com o “amor ao próximo”, princípio ensinado pelo próprio Cristo, mas também profissionais capacitados. Capacitação extremamente frisada por aqueles que estão à frente do movimento. “Eu sempre gostei de estudar muito. Deus me deu a graça de gostar de ler, de aprofundar. Tenho comigo que preciso marcar todos os lugares por onde eu passo. Quando eu era bandido, eu era um bandido de primeira, e depois que eu me entreguei a Deus, eu quero ser um cristão de primeira. Eu assumi comigo um compromisso, onde eu passar eu transformo, onde eu passar eu quero deixar minha marca, deixar o selo do que eu acredito, do que eu vivo. Não ficar brincando de viver”, afirma convicto o fundador do PUR, Fernando Galvani.
Ser “cristão de primeira” sempre é acentuado pelos participantes, como também ser bom, capacitado, o melhor naquilo que se faz. Essa característica é tão marcante que ser relapso com as matérias da faculdade ou levar a vida acadêmica “com a barriga” é considerado até mesmo um contra-testemunho dado pelo participante do GOU. Segundo João Carlos de Almeida, o Padre Joãozinho, da ordem do Sagrado Coração de Jesus, não estudar, para um estudante do Ministério das Universidades Renovadas, pode ser considerado um pecado grave. “O pessoal do Projeto Universidades Renovadas sabe brincar, sabe sorrir. Sem deixar de estudar direito, se um sujeito do PUR, um universitário em renovação, foi mal na prova, tem que ser ferrado mesmo, ele pecou. Eu acho que quando vai fazer o exame de consciência, o pessoal das universidades em renovação deveria se colocar: ‘Não estudei direito’. Quem vai ao grupo de oração e por isso vai mal na prova, pecou. É pecado grave porque o sujeito não usou bem os talentos que Deus lhe deu, inclusive o do tempo”, afirma o sacerdote que tem um carinho especial pelo Ministério das Universidades Renovadas e pelos membros do movimento.
Entregar-se às atividades do movimento, esquecendo-se de alimentar a razão é “crime feio” no Projeto Universidades Renovadas. Isso inclui também mergulhar nos documentos doutrinais e esquecer-se da anatomia, teoria da comunicação, cálculo I, II e III. Não basta ter todas as respostas da Igreja na ponta da língua. É necessário ter as respostas científicas dentro da cabeça. Para o PUR não há valor em ser doutor da Igreja se não se é bom na mesma medida cientificamente ou profissionalmente.
Pensar crendo e pensando crer
Grande marco na história “racional” do Ministério das Universidades Renovadas é o envolvimento do professor titular de filosofia da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp), Jean Lauand, com o Projeto na capital paulista. O professor tem uma carreira acadêmica expressiva. Além de docente da USP, é pesquisador do Instituto Jurídico Interdisciplinar da Universidade do Porto, tem artigos publicados em diversas línguas e é diretor de uma editora. Sem contar seus incontáveis textos e publicações.
O que é consenso para os participantes do movimento é que a profundidade acadêmica de Jean marca sobremaneira o percurso do PUR. Pode-se dizer que Jean entra para a história do PUR por suas “próprias pernas”. Acostumado com o ambiente da internet, o professor encontra, em março de 2001, as listas de discussão dos membros do PUR e, imediatamente, inscreve-se nas listas nacional e do estado de São Paulo e apresenta-se.
Do virtual ao real foi questão de dias. A aluna do primeiro ano de pedagogia da FEUSP, Aline Lacerda procura o docente da mesma faculdade para apresentar-se e, consigo, o Projeto Universidades Renovadas. De maneira divertida e carinhosa a aluna de pedagogia relembra o dia em que conheceu o professor:
“O Jean não tem nada a ver com o que eu pensava dele. Eu fui ao prédio dos professores da faculdade pela primeira vez na minha vida. Cheguei na porta da sala dele ensaiando o que eu iria falar. Bati. Ele, com a voz de sempre:
- ‘Eeentra’.
“Pensei comigo: ‘ele deve estar esperando alguém’. Bati de novo, ele respondeu da mesma forma. Abri a porta, timidamente, olhei para ele e ele ficou me olhando. Estava sentado em frente ao computador, para variar.
- ‘Pois não?’.
- ‘Então, o senhor é o professor Jean?’.
- ‘Sou’.
“Foi muito engraçado. Eu não sabia se eu ria, o que eu falava. Eu teria aula com ele em maio e junho e estávamos em março.
- ‘Então professor, o senhor vai me dar aula daqui dois meses’.
- ‘Ah, é do primeiro ano? Bem vinda’.
- ‘Eu sou do Projeto Universidades Renovadas, fiquei sabendo que o senhor entrou em uma de nossas listas de discussão...’
“Ele pediu que eu contasse sobre o Projeto. Eu fui falando para ele.
- ‘A gente tem um sonho...’
“Na época, eu conhecia pouco o Projeto, para mim tudo era graça, batismo no Espírito. Eu não sabia qual era a do Jean, eu queria é que ele nos ajudasse. O professor era sério, me acolheu muito bem, mas sério. E eu ali naquela sala toda bagunçada, cheia de livros. Então começou a me contar o que ele fazia, a mostrar o site da hottopos.com, a editora dele, mostrar as publicações, contar e contar. Apesar de ficar entusiasmada, não entendi muito qual era a dele. Fiquei umas duas horas e meia na sala, conversando. Ele foi me ouvindo pacientemente. Hoje, diz ele, que me ouviu com encanto, que ali o coração dele encheu-se de alegria e esperança. Fomos à missa juntos, depois o Jean me levou pra comer pizza.
- ‘Meu, eu to comendo pizza com um professor da minha faculdade! Que negócio é esse?’
“Eu não entendi nada. Ele me deu vários livros, saí da sala dele naquele dia com uns sete livros. Rolou um carinho tão forte que, ali, ele me adotou e adotou o Projeto. Adotou mesmo com paternidade responsável, sempre muito presente com a gente. Na verdade, o Jean entrou no Projeto para mudar. Tem gente que entra na nossa vida pra mudar. Ele marca, existe o antes e o depois da presença do Jean nas listas, da presença do Jean com a gente, levando-nos sempre a entender melhor a nossa identidade de leigos, de batizados”.
Crescer cientificamente, ao contrário do que acontece com muitos pesquisadores, não significa, para os membros do Ministério das Universidades Renovadas, entrar em um cientificismo vazio, que nega a existência de Deus, do Transcendente, receba Ele que nome for. Para o PUR, Fé e Razão se completam. Portanto, evoluir racionalmente é também crescer espiritualmente.
Não são poucos os universitários que já tinham experiência com a RCC quando conheceram o Projeto. Todos eles concordam que o contato com o Ministério das Universidades Renovadas os fez repensar seu modo de ser Renovação e até mesmo seu jeito de ser Igreja. “Aprendi a rezar usando minha razão. Agora sei que não preciso deixar de lado a ciência para me dirigir a Deus”, conta a estudante de Engenharia Civil da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Renata Patrícia Silvério Higino, participante de grupo de oração de paróquia que passou a freqüentar o GOU da faculdade, depois de um tempo de resistência. Para quem já conhece a atividade de um grupo de oração, que, em média, tem duração de duas horas, fica difícil acreditar que se possa atingir alguma profundidade espiritual ou doutrinal em apenas 15 minutos de intervalo ou, quando os universitários conseguem mais tempo para a realização do GOU, em uma hora, no máximo.
É inegável que a RCC trouxe de volta à Igreja muitas “ovelhas desgarradas”, mas é inegável também que algumas vezes ela evita debater temas polêmicos, ou abrir-se para discuti-los. Não raro, ela fecha com a opinião da Igreja e não quer nem saber de ouvir posições contrárias. É assim e ponto final, não se fala mais nisso. O que não se pode esquecer é que existem pessoas que não se contentam com opiniões fechadas. Para os membros do PUR, não se coloca em questão aqui a obediência ou não aos dogmas e pronunciamentos da Igreja, o que se espera é que temas que geram discussões sejam discutidos e não simplesmente ignorados. “A instituição PUR sempre está um pouco desconfortável na Renovação Carismática. Porque é um Projeto que pensa, por isso ele é perigoso”, constata o próprio assessor teológico da RCC no Brasil, Padre Joãozinho.
Atualmente, a Igreja encontra-se mais aberta a diálogos, sem abrir mão de suas próprias opiniões, é claro. Dentro do PUR essa questão de discutir, ouvir opiniões contrárias não “mete medo”. Ao contrário, as polêmicas são bem-vindas, são até mesmo instrumentos de divulgação do próprio movimento. Temas da atualidade como aborto, homossexualismo, castidade e outros que geram algum tipo de conflito são abordados em palestras, muitas vezes com professores das próprias universidades nas quais acontecem, a fim de, além de esclarecer dúvidas, deixar claro o que pensa a Igreja. Note-se que “deixar claro o que pensa a Igreja”, não significa derramar sobre quem ouve um “caminhão” de opiniões próprias e não-fundamentadas. Os universitários mais engajados no movimento, geralmente, procuram estudar os documentos e encíclicas da Igreja. Aceitar um posicionamento eclesial, no caso do Ministério das Universidades Renovadas, é também um ato de amor e adesão à Igreja Católica, mas de maneira fundamentada e com algum conhecimento de causa.
Evuccs
Ao incentivar iniciativas de discussão dos mais variados assuntos, o PUR procura promover o crescimento intelectual de seus participantes, uma vez que acredita na importância da formação completa do profissional. Formação completa que quer dizer, para o PUR, ser completo profissionalmente e espiritualmente. Se, por um lado, há o incentivo à formação intelectual, por outro, o plano espiritual não fica esquecido. Os esforços são remetidos tanto à espiritualidade quanto à intelectualidade. Há, assim, um incentivo à espiritualidade, à interioridade que proporciona mudança individual e, conseqüentemente, revolução social. Unida a isso há no movimento católico uma forte busca pelo conhecimento. E os mesmos meios que servem para manter em interação os membros do Projeto podem ser canal de formação intelectual e acadêmica.
Um exemplo disso são os Evuccs – Encontros Virtuais de Universitários Católicos Carismáticos. Os encontros virtuais vêm da necessidade de comunicação entre os participantes do Projeto dos diversos estados do país. Como alguns se encontram apenas uma vez por ano no ENUCC, em um local preparado (nos encontros de internautas) surge a idéia de combinar dia e hora para encontrarem-se virtualmente. Foi assim que, pela primeira vez, os universitários fizeram um encontro virtual. Isso até surgir a idéia, incentivada pelo professor Jean Lauand, de realizar os encontros virtuais temáticos. O encontro virtual consiste em colocar de um lado da telinha do computador um especialista em algum assunto, com tema previamente combinado, e de outro, curiosos dispostos a fazer perguntas. Assim, os universitários interessados entram na sala de bate-papo do site do PUR http://www.pur.com.br, no dia e hora do encontro, e fazem perguntas sobre o tema escolhido.
O que parece brincadeira de televisão – quem nunca viu em uma sala de bate-papo “Fulano estará em nosso chat para conversar com os fãs”? – virou assunto sério. Os Evuccs são marcados, o tema é decidido e a pessoa convidada coloca o texto base no site do Projeto para os participantes do Encontro Virtual lerem e terem base para formular questões pertinentes e inteligentes.
Entre os temas abordados nos encontros virtuais realizados pelo Ministério das Universidades Renovadas estão: “Como falar de Deus nas universidades”, com Gabriel Perissé, formado em Letras pela UFRJ, mestre em Literatura pela USP e doutor em Filosofia da Educação, também pela USP; “Cura: os limites da fé e da medicina”, com o Doutor Roque Saviolli, diretor do Instituto do Coração (Incor – USP); “Justiça hoje”, esse, um Evucc “internacional”, por ser o entrevistado um catedrático, Paulo Ferreira da Cunha; Padre Joãozinho, com o tema Ação Evangélica; e o relutante Jean Lauand que respondeu perguntas sobre “Prudentia: a arte do discernimento – um debate sobre a virtude cardeal da Prudência”.
O resultado desses encontros virtuais foi tão proveitoso que um deles virou matéria de uma revista científica. A publicação é um conjunto de estudos e seminários de cunho filosófico da Universidade do Porto, mais precisamente da Faculdade de Direito dessa instituição. A revista Mirandum, n° 14, foi editada com o apoio da Editora Mandruvá, do CEMOrOc (Centro de Estudos Medievais – Oriente & Ocidente da Universidade de São Paulo) e do Projeto Universidades Renovadas e o Encontro Virtual que ganhou o destaque da edição foi de “alto teor filosófico”, segundo o professor Jean Lauand, em homenagem ao dia de Santo Tomás de Aquino, nome expressivo da filosofia. Na mesma edição em que foi publicado o Encontro Virtual, que teve como “entrevistado” o professor Jean Lauand, com o tema “Prudentia: a arte do discernimento e da decisão”, foram impressos os artigos: “Religião e Liberdade – a ‘Revanche de Deus’, Neo-Maniqueísmo e Fanatismo Religioso”, “Dialéctica, Tópica e Retórica Jurídicas” e “O Referencial de Keirsey e Bates como um dos Fundamentos da Ação Docente”.
Sobre a experiência de ser “vítima” da idéia que incentivou, Jean Lauand escreveu entusiasmado à revista científica. “Esses encontros ocorrem desde o ano passado (2002) e os três primeiros Evuccs foram entrevistas virtuais com professores de filosofia do mais alto nível: Gabriel Perissé, João Carlos de Almeida (padre Joãozinho) e Paulo Ferreira da Cunha. Com este último, tivemos um Evucc internacional, pois o entrevistado estava em seu computador na Universidade do Porto dialogando on-line com os brasileiros. Quando os jovens organizadores desses encontros me consultaram sobre a idéia, recebi-a com um certo ceticismo: chat – parecia-me então – não era um meio adequado para discutir filosofia: a necessidade de dar a resposta de modo imediato (e a de digitar apressadamente a resposta), a impossibilidade de consultar livros etc., pareciam-me obstáculos difíceis de superar. Chat, pensava eu erradamente, serve para assuntos mais superficiais, como entrevistar um artista famoso sobre sua carreira e hobbies, por exemplo. Mas, depois de ter participado (como um a mais) dos primeiros Evuccs tive que rever esses meus preconceitos: aprendi muitíssimo com os Evuccs, com o brilhantismo dos entrevistados e também com os jovens universitários que formulavam perguntas muito inteligentes e sugestivas”.
O PUR não mereceu destaque somente na Mirandum. Antes mesmo de aparecer nas páginas impressas da revista, o movimento ganhou espaço nas páginas científicas da web. Em setembro de 2002, os números 17 e 18 da revista internacional de filosofia e educação, Videtur, tiveram co-edição do Projeto, em parceria com a USP e a Universidade do Porto. A revista científica é uma publicação que circula, principalmente, na internet e existe há seis anos, criada a partir da parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e universidades internacionais, como a Universidade do Porto, por exemplo. Nos números editados com a participação do Ministério das Universidades Renovadas, estavam conferências do professor Jean Lauand, Padre Joãozinho, Gabriel Perissé e Paulo Ferreira da Cunha (catedrático da Universidade do Porto), proferidas no IV Seminário Internacional Cristianismo – Filosofia, Educação e Arte, realizado na USP – São Paulo, em setembro de 2002. As publicações das conferências do seminário dividiram as páginas da rede com um artigo do Padre Jacaúna, membro do Conselho Nacional do Projeto Universidades Renovadas, e dois estudos de Josef Pieper, considerado um dos mais importantes filósofos católicos do século XX, além de um comentário de Tomás de Aquino sobre o Salmo 2.
Seminários de Filosofia
A publicação na revista Videtur nasceu de outra iniciativa do Projeto em busca de conciliar fé e razão: os seminários de filosofia que tiveram início na Universidade de São Paulo, na capital paulista, e têm se espalhado por outras regiões do país. Desde 2001, foram realizados cinco grandes seminários, nos quais o Projeto tem participação significativa, principalmente, no primeiro. Quando os universitários do PUR entram em contato com o professor Jean Lauand passam a ter uma relação mais estreita com a filosofia. Como os próprios estudantes da USP dizem, não entravam na sala do professor sem sair de lá com, pelo menos, cinco livros.
Se o movimento já incentivava o crescimento científico e instrumental dos envolvidos, o encontro com o Jean gera uma verdadeira sede de conhecimento nos membros do Ministério das Universidades Renovadas. Isso porque o professor da USP tem estreita ligação com os ensinamentos de São Josémaria Escrivá que, grosso modo, pregava o ser Igreja a partir da busca da santificação por meio do cotidiano, como o trabalho, os estudos, por exemplo. Modo de pensar a vida que vem ao encontro do sonho do Projeto de “Profissionais do Reino”. Depois que a estudante Aline Lacerda se apresentou ao professor da USP, pouco a pouco outros integrantes do Projeto da capital de São Paulo aproximaram-se e estreitaram os laços. Com a proximidade, alguns estudantes cogitaram a possibilidade de Jean realizar com o PUR-São Paulo capital um dia de estudos e formação, baseado em documentos da Igreja e na própria “bagagem” do professor. Aline, gesticulando com empolgação e entusiasmo, relembra o surgimento inusitado dos seminários de filosofia.
“Em junho de 2001, um amigo meu das ciências sociais, o Edílson, que já tinha lido algumas coisas do Jean, perguntou se eu conhecia o tal do professor. Chamei-o para ir até a sala do Jean. O Edílson começou a falar dos artigos, dos livros que o Jean havia escrito. Ele perguntou se o professor já havia feito algum evento, alguma coisa dentro da faculdade. O Jean respondeu que não, que o negócio dele era mais escrever. Aí, eu falei que tinha a ver. Tinha coisa do Jean que eu não concordava, mas aquilo tinha a ver. O Jean falava coisas muito coerentes, citava o Papa, documentos, tinha muito conhecimento e a gente precisava dele. Então, eu perguntei se ele não queria dar uma formação para o pessoal do Projeto na USP ou fora dela. Eu comecei a ‘viajar’ um pouco mais e a pensar ‘por que não fazer uma coisa aberta?’. O Jean se esquivou, ele não queria. Qual não foi a nossa surpresa quando, no dia seguinte, à meia-noite, o Jean liga lá em casa, falando para mim e para o Lucas:
- ‘O que vocês rezaram? Que novena vocês fizeram? O que aconteceu?’.
“A gente, sem entender nada:
- ‘Calma, o que aconteceu?’.
- ‘Não, eu quero saber o que vocês fizeram. Que força é essa? Que apelação! Imaginem o Guga’ – era a época em que o Guga era o número um – ‘Imaginem o Guga para o tênis. Pois é, o Guga da Filosofia da Educação e Pensamento Católico do mundo, que hoje é Alfonso López Quintás, me ligou e me mandou um e-mail falando que, no fim de setembro, vai estar na Argentina e queria passar pelo Brasil para dar uma aula e falar alguma coisa para os meus alunos. Vocês estão dormindo? Vamos para a pizzaria pensar nesse negócio’, contou entusiasmado o professor Jean.
“A gente foi para a pizzaria comer e tomar alguma coisa e, no guardanapo mesmo, a gente começou a rabiscar o primeiro seminário. Eu, o Lucas (estudante de jornalismo da USP) e o Jean. A gente pensou em nomes, temas, em várias coisas.
- ‘Vamos envolver artes, filosofia, educação’.
“Nasceu o I Seminário Internacional Cristianismo – Filosofia, Educação e Artes. O Jean foi falando, bolando as coisas, o negócio cresceu na cabeça e no coração do homem e envolveu a mim e ao Lucas. A gente tinha um planinho pequeno e acabou virando um negócio gigantesco. Na semana seguinte, já tinha cartaz, auditório reservado, programação, já tinha tudo”.
O I Seminário teve quatro conferências, em quatro dias. Foi um evento oficial do Projeto que envolveu o movimento da capital sobremaneira. Todos ajudaram como podiam: distribuíram panfletos de divulgação, colaboraram na organização e inscrições, foram os “Relações Públicas” de todo o evento. O último dia do seminário teve a participação do esperado e causador de toda a “confusão”, o Dr. López Quintás.
Aline Lacerda fala no I Seminário Internacional de Filosofia
“Esse seminário foi um marco na história do Projeto. Só foi ‘cair a ficha’ depois. A gente não percebeu de imediato, mas foi um marco. Cada dia, na mesa dos conferencistas, tinha alguém do Projeto para falar sobre o que é ser cristão na universidade. Tinha uma faixa gigante do Projeto lá em cima, foi filmado tudo. No total, o auditório tinha capacidade para 250 pessoas, mais ou menos. Ficou muita gente sentada no chão. Presenças assinadas foram mais de mil, talvez umas quinhentas pessoas tenham passado por esse seminário. No primeiro dia, foi a Elen Resende, coordenadora nacional, que apresentou o Projeto Universidades Renovadas”, conta a estudante de pedagogia.
A segunda edição do seminário, em abril de 2002, teve como tema “Ética e situações limites”. Seminário com traços fortes de fé. Houve, nesse evento, a presença marcante de membros de uma comunidade católica com identidade franciscana: os integrantes da Toca de Assis, que se dedicam ao trabalho com os “irmãos de rua”, como são chamados os que não têm onde morar, e por isso vivem nas ruas e vivem de doações. A abertura do II seminário foi realizada com a conferência “Ética e Solidariedade: o verdadeiro conceito da caridade cristã”, proferida pelo cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Cláudio Hummes. Outro fator que teve relevante importância nesse primeiro dia de seminário foi a presença do fundador do Projeto Universidades Renovadas, Fernando Galvani. Também no II seminário, estiveram presentes Padre Antonello, membro da comunidade Aliança da Misericórdia, que realiza um trabalho junto a pessoas mais carentes e necessitadas, e a coordenadora da pastoral carcerária de Campinas, Maria Cristina Castilho de Andrade. Além do trabalho na pastoral carcerária, Maria Cristina desenvolve um projeto de reabilitação e socialização de prostitutas. De acordo com informações dos organizadores do II Seminário, Maria Cristina já conseguiu reintegrar cerca de 2 mil prostitutas.
O encerramento do II Seminário promoveu um fato inusitado na capital paulista. Os organizadores fecharam a loja de uma rede de restaurantes de comida árabe, o Habib´s (como a loja permanece aberta 24 horas, o PUR em algumas realidades faz do restaurante ponto de encontro e reunião) para os “irmãos de rua”. Esse gesto de partilha com os mais necessitados marcou o encerramento do seminário “Ética e situações limites”.
Depois desse Seminário, aconteceu, já em junho de 2002, o III, quando o tema foram as virtudes cardeais. O ano de 2002 foi de intensa atividade: foram três seminários. O IV evento foi no segundo semestre do mesmo ano. Em 2003, o V seminário teve como o tema ensino religioso.
Dar o mesmo peso às “duas asas”, fé e razão, apesar de ser parte fundamental da identidade do PUR não é tão fácil como aparenta ser. O movimento deu passos importantes nesse sentido em dez anos de existência. Avanço que não passa, no entanto, de ensaio de vôo. Pelos resultados, parece que têm dado certo. Para o Padre Joãozinho, o equilíbrio entre fé e razão buscado pelo Ministério das Universidades Renovadas é fundamental para a realização do sonho de uma sociedade mais íntegra “porque você tem uma fé inteligente. Uma fé que passou pelo crivo da razão, que passou pela matemática, passou pela biologia, pela astronomia, enfim, por todas as ciências. O sujeito que passou pela filosofia e permanece rezando o terço, não o reza mais do mesmo jeito: ele amadureceu.”, avalia.
Dom Cláudio Hummes e Pe. Roberto da Toca no II Seminário Internacional de Filosofia
Irmãos de sonho
“Sinto-os todos dentro em mim mover-me,
E inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me” (Fernando Pessoa)
O tal encontro seria ali mesmo. O primeiro a chegar fica imaginando o jeito do outro. Aos poucos vão achegando-se mais jovens.
- Você é o Dalvi?
- Sim, sou eu. E você?
- Eu sou a Lidiane!
Pronto! Meia hora depois do primeiro contato, o grupo de universitários reunido em um lugar previamente combinado, em meio ao Encontro Nacional, já conversa como se conhecessem um ao outro há anos. Esse é só um exemplo do que acontece quando membros do PUR se encontram.
O lugar de onde se conhecem? Alguns de longos papos virtuais. Outros, de lugar nenhum. Identificam-se, entretanto. Basta visualizar uma camiseta com o símbolo do Projeto para se sentir que o outro é amigo, membro da família. Se a estudante de fono do Rio Grande do Sul precisa ir a um Congresso de Fonoaudiologia, em Bauru, e não tem onde ficar, se participa do GOU tudo fica mais fácil. Sempre haverá um “irmão de sonho” em qualquer canto do país, esperando pelo viajante com a camiseta do Projeto na rodoviária, no aeroporto, na estação ferroviária. Dois minutos de conversa são suficientes para iniciar uma amizade, como diriam os “luquinhas” – o jeito que os participantes do PUR se autodenominam de maneira carinhosa –, sobrenatural. Sobrenatural é a explicação que os integrantes do Ministério das Universidades Renovadas encontram para descrever o laço que os une. Esse sentimento de família está na base do PUR. Antes do encontro de carnaval, o Seara de 1994, os estudantes de Viçosa, que já viviam uma experiência comunitária na universidade, se consideravam assim. Quando alguém tinha dificuldades em Matemática Financeira, o amigo do GOU, craque na matéria, sentia-se quase na obrigação de dedicar-se ao que não tinha tanta facilidade. Os universitários organizavam-se e não era só para os estudos bíblicos, que se tornaram famosos na Universidade de Viçosa. Nasce daí, da fraternidade do grupo, o chamado a colocar a serviço, desde a graduação, os talentos de cada um. Não por pura consciência social, mas por amor fraterno. Pelo “amai-vos uns aos outros”.
Relações de amizade profundas
Já dizem os sociólogos que o homem é um ser social, que busca, desde a Idade da Pedra, relacionar-se com seus semelhantes. Às vezes, sem muito sucesso. Em outras, no entanto, tem até o trabalho de fundar associações apenas para sistematizar a convivência, as relações sociais. É o que acontece, em visão superficial, nos clubes de serviço, como Lions ou Rotary, por exemplo. Tais clubes têm, em seus regulamentos, a pretensão, entre outras, de estabelecer e fortalecer os laços entre seus membros.
“CRIAR e fomentar um espírito de compreensão entre os povos da Terra;
INCENTIVAR os princípios de bom governo e boa cidadania;
INTERESSAR-SE ativamente, pelo bem-estar cívico, cultural, social e moral da comunidade.
UNIR os clubes com laços de amizade, bom companheirismo e compreensão mútua.” (www.lions.org.br, acesso em junho de 2003).
Essas são regras básicas que os participantes de um clube como o Lions devem seguir. Assim como o princípio primeiro do Rotary é estabelecer laços, principalmente, de amizade. Os clubes de serviço como os citados partem do companherismo e das relações mais próximas entre seus membros para realizarem atividades de cunho social, incentivo à educação, cultura e assistência aos mais necessitados. Tudo de forma semelhante à que vivem os membros do PUR, não fosse o caráter sobrenatural, já citado, em que se desenvolvem tais relações nascidas dentro dos campi universitários por meio dos Grupos de Oração.
Na opinião de quem freqüenta um GOU, fator que também facilita a identificação entre os “sonhadores”, é a maneira como cada membro é valorizado. A pessoa é reconhecida no que tem de bom para dar. Desde a bela voz para cantar no GOU, até sua capacidade inacreditável para arrumar cadeiras. Sem sombra de dúvida, poderia ser considerada uma ótima técnica de marketing, mas é mais do que isso. O Zezinho chega ali no GOU com uma história de vida catastrófica. Desprezado por toda a sala, nunca teve nenhuma qualidade acentuada e só era procurado nas vésperas de provas, porque era o único da turma a tirar dez em todos os testes do professor mais chato de toda a cidade universitária. De repente, as pessoas que estão no GOU, com fama de doidas e fanáticas, começam a olhar para o Joãozinho e dão a ele crédito, confiança: “Joãozinho, na semana que vem, você poderia vir mais cedo para ajudar a colocar os recados na lousa?”. Ainda que simplório, tal exemplo ilustra um pouco da realidade das relações que podem ser observadas no Projeto. E isso não acontece somente nos dias de hoje. Tem raízes nas épocas que antecedem o Seara de 1994. Janice Cardoso Pereira é “vítima” dessa política de valorização estabelecida nas bases do PUR. “Eu conheci o Fernando em 1986, em um encontro de carnaval. Depois disso ele foi para Viçosa. Quando, em 1987, ele passou no vestibular, eu já estava lá. Um dia ele me convidou para participar do grupo de oração. Como ele sabia que eu gostava muito de trabalhar, de fazer, ele foi bem esperto: não me convidou para participar do grupo de oração, me convidou para ajudar. ‘Mas o que eu vou fazer lá? Não conheço nada’, ‘Ah, arruma os bancos da capela’. Como eu sempre fui disponível à ajuda, eu aceitei e fui. Comecei dessa forma a participar do grupo”, conta a, atualmente, mestranda em química, Janice, uma das pioneiras do Projeto, viveu toda a história antecedente ao Seara de 1994. Estudante de química, além de ficar no departamento ao lado da capela, o centro de todas as atividades dos universitários católicos da Federal de Viçosa, envolveu-se de maneira profunda, primeiramente, com o grupo de jovens católicos da universidade, depois com a RCC que ganhava forças na cidade mineira, por meio do trabalho de universitários católicos da Federal.
Devido à subjetividade da espiritualidade carismática, as pessoas que freqüentam grupos de oração tendem a abrirem-se àquelas que partilham realidades parecidas com a sua. Isso se torna mais forte na universidade, onde os estudantes ou até mesmo funcionários que professam uma fé, como a católica, por exemplo, são um tanto cercados por causa da história manchada da Instituição. Quando se fala de Igreja Católica no ambiente acadêmico é quase automático citar a Inquisição e, a partir dela, enumerar as inumeráveis falhas da religião cristã em seus dois mil anos de vida.
Não há erro em afirmar que existe até mesmo um certo tipo de preconceito contra aqueles que professam um credo. Assim como, mesmo que velado, existe contra homossexuais, ou contra os “bicho-grilos”. Se a pessoa sofre um tipo de “perseguição” e encontra outro “perseguido” com quem pode partilhar seus problemas e ver como o outro enfrenta uma realidade tão próxima à sua, irremediavelmente cria-se uma atmosfera de identificação.
Além disso, muitos que têm de mudar da cidade dos pais para estudar encontram no PUR um refúgio, uma verdadeira família. Os laços tornam-se tão fortes que um passa a cuidar do outro, a preocupar-se como quem tem grau de parentesco. Se isso já acontece em relações estabelecidas nas repúblicas universitárias em todo o país, torna-se ainda mais forte quando as pessoas têm ligações tão subjetivas e inexplicáveis como as espirituais. Tal identificação é relevante em todo o processo de surgimento e na história do Projeto. Com o estreitamento das relações e proximidade entre os componentes dos GOUs, corre-se, no entanto, um sério risco. Se um grupo de pessoas identifica-se, passa a viver de maneira muito próxima, compartilha a própria vida, pode virar simplesmente um grupo de amigos. O movimento, nessa comunidade, perde a razão, pois as pessoas convidadas a doar e dar de si, em prol da “civilização do amor”, ou da tão sonhada sociedade mais íntegra, fecharam-se, vivem bem em seu grupinho, em uma “panelinha”. Passam a “abafar” apenas em seu “mundinho fechado”, como já dizia um grupo musical mineiro. No entanto, um fato como esse, de uma comunidade do PUR fechar-se e encerrar-se em si mesmo, é um acontecimento muito pouco provável. Tal fato, porém, em escala menos drástica é totalmente possível de tornar-se realidade, observada a convivência dos membros do PUR.
Ser família
Sem contar os itens já abordados, o Projeto desperta em seus membros uma sensação de família também devido ao seu objetivo, pelo ideal compartilhado do sonho de viver em uma sociedade totalmente nova, sem injustiças sociais e repleta de amor. O sonho de Universidades Renovadas é como liga de cimento, como um rejunte. A procura pelo “bem comum para a edificação do homem todo e de todos os homens”, como descreve a cartilha elaborada pelos participantes do Ministério das Universidades Renovadas, gera identificação entre os membros. Quando um engajado no Projeto vê alguém com uma camiseta, com uma bolsa, um adesivo, um pequeno broche que seja, com o símbolo do PUR, enxerga no outro uma pessoa que compartilha dos mesmos ideais que ele, sofre as mesmas dores e dúvidas de evangelização no meio universitário, enfim, tem o mesmo sonho. Quando alguém do Projeto encontra outra pessoa que pensa como ele e, mais além, ama apaixonadamente o mesmo ideal, isso é o suficiente para considerar tal pessoa como parte dele mesmo. É assim que se relacionam os “sonhadores” do PUR. Um sulista que freqüenta o GOU da Univ. Federal do Rio Grande do Sul encontra, tranqüilamente, “casa e comida” em Manaus, na casa da coordenadora do GOU da Estadual do Amazonas, se precisar passar por lá algum tempo. Afinal de contas, é um membro da família PUR.
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Profa. Salette num encontro do PUR
O ser humano, desde que “se entende por gente” tem a necessidade do outro. De acordo com a professora de antropologia da UNESP Paulista, campus de Bauru, Salette Alberti, a pessoa já nasce dependente e aprendendo a partir de experiências com o outro. Segundo a professora, existe uma pulsão do ser humano para o outro, a sexualidade. Essa pulsão, no entanto, não se restringe somente à sexualidade. Há o desejo do sujeito de unir-se ao objeto, dessa maneira, o objeto torna-se o sujeito e vice-e-versa e ambos constroem-se. A rede de relações que o indivíduo estabeleceu durante toda a vida – como com a família, por exemplo – é que faz o sujeito que vai chegar na universidade, no Grupo de Oração Universitário. Segundo a professora de antropologia, se nas relações que a pessoa teve até o momento em que conheceu um movimento como o Projeto Universidades Renovadas, as experiências de construção de si e da sociedade que o rodeia foram boas, haverá a tentativa de manter as mesmas relações no movimento. Se, ao contrário, só houve experiências negativas nesse sentido, ao engajar-se no PUR e ser bem acolhida, ela terá a oportunidade de estabelecer essa relação de construção de si e do meio de maneira como nunca fez, por isso viverá esse momento histórico de maneira intensa, como família.
Outro elemento que une também os integrantes do PUR é a sensação de sentir-se parte de uma “tribo”. Tema tão em foco hoje, as tribos sociais. “As patricinhas”, os “clubbers”, praticantes de esportes radicais, “grafiteiros”, “góticos” e tantos outros grupos de pessoas que amam e se interessam pelas mesmas coisas. Classificar o PUR apenas como uma tribo, porém, é restringir demais as dimensões do movimento. Olhar uma comunidade do Ministério das Universidades Renovadas é ver Patricinhas e roqueiros, “clubbers” e “mauricinhos”, esportistas e sedentários, freqüentando o mesmo lugar, com suas particularidades próprias partilhando o mesmo ideal, que não é pequeno: uma sociedade totalmente renovada, onde não existam injustiças sociais; diferenças sim, mas só no campo das idéias, e não materiais ou sociais.
O sentimento de pertença, de serem todos da mesma família, é um apelo forte do Projeto. É fato que os membros do PUR identificam-se com as passagens bíblicas que descrevem as primeiras comunidades cristãs, no livro dos Atos dos Apóstolos: “Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (Atos 2, 42), “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum” (Atos 4, 32). O teor basal que a influência do sentimento de pertença tem nas origens do movimento é sensível nas palavras do fundador Mococa, quando fala sobre a realidade que os universitários de Viçosa viviam em meados de 1987: “Esse grupo tinha entre si um sentimento muito forte de família. Passávamos noites rezando, ministrando cura e as pessoas eram profundamente tocadas e curadas. E o grupo ia aumentando. Nas formaturas, até os evangélicos contratavam o nosso coro para falar para o formando ‘Jesus te ama’. Foi um fenômeno que chamou a atenção da universidade, o sentimento de família, tudo a gente fazia em comum, não era um grupinho tão pequeno. A gente sabia uns dos outros, das dificuldades, até mesmo nas matérias, daí começaram a se formar grupos de monitoria voluntários. Ficávamos sabendo dos que tinham dificuldades financeiras. No nosso coração nasceu o desejo de que todo mundo experimentasse o que a gente estava vivendo”, contou Fernando ao partilhar sua experiência com os participantes do VIII Enucc, em Goiânia.
Dizer que o se sentir família e parte de um mesmo ideal não é considerar os membros do movimento como uma massa facilmente manobrável, pronta a executar qualquer tipo de ordem. Alfonso López Quintás, um dos nomes mais expressivos da Filosofia da Educação, no mundo, no artigo “A Manipulação do homem através da Linguagem” diz que “quando, ainda em tempos recentes, introduzia-se um grupo numeroso de prisioneiros num vagão de trem como se fossem embrulhos, e os faziam viajar durante dias e noites, o que se pretendia não era tanto fazê-los sofrer, mas aviltá-los. Sendo tratados como meros objetos, em condições subumanas, acabavam considerando-se mutuamente seres abjetos e repelentes. Tal consideração os impedia de unirem-se e formar estruturas sólidas que poderiam gerar uma atitude de resistência”. Ao contrário do que era feito na época do holocausto, as pessoas no PUR são incentivadas a permanecerem juntas sim, no entanto, isso é feito no sentido de humanizar. Sentindo-se humano, único e cheio de valor, o indivíduo torna-se criativo, de acordo com Quintás. Criatividade geradora de discussões. Tais discussões, porém, não visam minar ou enfraquecer o movimento, mas sim torná-lo mais forte e maduro.
O grupo, no caso do Ministério das Universidades Renovadas, não é uma massa conformada, como defendem algumas linhas da psicologia. “A interação grupal diz respeito à influência que os elementos do grupo exercem entre si, conduzindo a uma semelhança de comportamentos, valores, atitudes...(exemplo: maneira de falar, idéias semelhantes etc.) e muitas vezes conduzem a comportamentos conformistas – quando o indivíduo modifica a sua opinião, comportamento – para se assemelhar ao grupo e obter maior aprovação social. Outras vezes, os indivíduos reagem de modo contrário à maioria, tendo comportamentos inconformistas” (http://www.esec-mouzinho-silveira.rcts.pt/Psicologia/U3 Grupo.htm, acesso em setembro de 2003). A questão vai além de adquirir a forma do movimento ou ser um rebelde no meio dele, aquele que discorda de tudo. É sentir-se parte de um todo que admite diferenças de conteúdo, acreditar no ideal desse todo tão diferenciado e sair do comodismo ao expor seu modo de pensar para o crescimento do todo e não apenas para ser o “revolucionário” da vez. Se é necessária uma revolução, que seja feita em conjunto. É isso que, aos poucos, os universitários que abraçam a causa Projeto Universidades Renovadas vão assimilando com os anos na faculdade.
O verso de Fernando Pessoa que abre o capítulo ilustra com sucesso a experiência comunitária dos que estão no Projeto Universidades Renovadas. Pelos fatos e experiências observadas, parece que “uns estão nos outros”, movem-se, incentivam-se. O indivíduo passa com todas as suas particularidades pelo movimento, marca-o com elas e adquire características dos que vivem o mesmo sonho, até “passar por todos e perder-se”.
Graduandos e profissionais
As cadeiras colocadas em círculo. Alguém sempre chega mais cedo para arrumar tudo. Os recados são escritos no quadro negro, para ninguém se esquecer de nada. A reunião fora devidamente preparada alguns dias antes. Em meio a trabalhos de fim de semestre ou semana de provas, um pequeno grupo de universitários arranja um tempinho para reunir-se, pelo menos uma hora por semana, para preparar o encontro que pode ser na biblioteca, em uma sala de aula, ou, no caso de alguns “privilegiados”, em lugar certo: uma capela.
O local não tem a mínima importância, poderia ser até mesmo na pracinha, no corredor, o importante, realmente, é acolher a todos os que irão aparecer com atenção e, até mais, dedicação. Sempre um pouco atrasada (quem disse que brasileiro é pontual?), a reunião começa. Normalmente, uma média de 20 pessoas. Ali, os universitários procuram uma experiência sensível de Deus. É o momento, em meio à correria da faculdade, aos relatórios de pesquisa, de parar. Escutar o inaudível, tocar o intocável, deixar, pelo menos um instante de tentar explicar o inexplicável. Geralmente, há um espaço para agradecer a Deus por tudo o que Ele dá a cada um, particularmente. Afinal de contas, naquela prova de Mecânica dos Fluídos, tirar cinco é verdadeiramente um milagre; a bolsa que, depois de muitos pedidos enviados, saiu; o desentendimento na república finalmente chegou ao fim; o fim de semana que se aproxima; por poder voltar para casa depois de um mês sem comer comida de mãe. Não pode faltar também uma oração pedindo o Espírito Santo, uma razão iluminada é tão válida quanto uma fé que sabe “pensar”. Um dos participantes mais antigos do Grupo faz uma explanação sobre alguma passagem bíblica, infelizmente, são universitários acostumados com as salas de aula, tem de ter a figura do professor, mas aqui o “professor” pode ser o colega de classe, aquele “doidinho” que vive com uma cruz no peito, sorrindo para o mundo. A experiência bíblica não pára aí, no entanto, todos são convidados a falar, mesmo aquele que só vê o Livro Sagrado uma vez por ano, quando vai visitar a avó e aquele livro enorme fica lá na estante, aberto no Salmo 90. O que se passa na universidade teria a mesma estrutura de um grupo de oração da RCC não fosse um detalhe: tudo isso se passa em 15 minutos. Além disso, tudo acontece de maneira a introduzir nos momentos a realidade universitária que os participantes vivem.
O Grupo de Oração Universitário, que tem suas raízes na RCC, acontece, nas universidades e instituições de ensino superior, mas pode expandir-se para os cursinhos, escolas de ensino médio, afinal de contas ali estão os vestibulandos ou “pré-universitários”. Em salas de aula, nas cantinas, bibliotecas, pracinhas de faculdades. Não importa o lugar, o que é relevante é a busca daqueles que procuram os GOUs: um encontro pessoal com Deus.
A Psicologia define grupo como um conjunto de indivíduos com papéis interdependentes e objetivos, normas, valores comuns, que interagem com alguma freqüência. Ela também diz que podem existir grupos de tipo primário, no qual as relações são afetivas, íntimas, espontâneas e o objetivo do grupo classificado como primário seria o grupo por si só. Além desse, aparece o grupo secundário, no qual as relações visam um fim que não o grupo, portanto, as relações seri