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Teatro Medieval: 4 Sketches

(Textos para sala de aula. Tradução, adaptação e notas introdutórias: Jean Lauand)

 

Jean Lauand
Prof. Titular FEUSP
jeanlaua@usp.br

 

O teatro e a cultura medieval

Desde que – há exatos vinte anos - comecei a lecionar História da Educação Medieval, para os alunos do primeiro ano da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, senti a necessidade de oferecer-lhes traduções de textos da época - das mais diversas áreas: da filosofia e da teologia à matemática e a retórica, passando pelo jogo de xadrez e por inscrições em relógios de sol etc.

Como não poderia deixar de ser, temos traduzido também diversas peças de teatro, pois o teatro é uma importante expressão da educação da época, além de prestar-se a ricas atividades em nossas salas de aula.

O teatro medieval - como a literatura e outras produções artísticas da época - comporta, tipicamente, um outro objetivo: o de instruir. Indissociável da Idade Média é, também, o elemento religioso: o teatro medieval surge - como que naturalmente - da liturgia, principalmente da liturgia da Páscoa.

Assim, em algumas abadias beneditinas, a liturgia passa também a representar episódios da vida de Cristo, sobretudo os da ressurreição (as antífonas são já uma plataforma de lançamento para o teatro). Um texto inglês do séc. IX [1] descreve o acompanhamento da leitura litúrgica do Evangelho:

ORDO

(Durante a terceira leitura, quatro irmãos mudam de veste. O primeiro, com trajes brancos, entra com ar de quem está preocupado com uma tarefa, penetra no sepulcro e senta-se em silêncio, segurando uma palma na mão. Depois, enquanto se recita o terceiro responsório, entram os outros três irmãos, revestidos com capas, trazendo nas mãos turíbulos com incenso e, lentamente, como quem procura algo, dirigem-se ao sepulcro. Com esta cena, representa-se o anjo sentado sobre o sepulcro e as mulheres que chegam com aromas para ungir o corpo de Jesus. Mal o irmão sentado vê aproximarem-se os outros três - com ar titubeante, de quem está procurando alguma coisa -, começa a cantar suavemente, a meia-voz:)

- Que buscais no sepulcro, ó cristãos?

(Ao que os três respondem, cantando em uníssono:)

- A Jesus Nazareno crucificado, ó habitante do Céu.

- Não está aqui, ressuscitou como tinha predito! Ide e anunciai que Ele superou a morte!

(Os três dirigem-se ao coro, cantando:)

- Aleluia, o Senhor ressuscitou, hoje o leão forte ressuscitou, o Cristo, Filho de Deus.

(Depois destas palavras, o irmão torna a se sentar e, como que chamando-os, entoa a antífona:)

- Ressuscitou do sepulcro o Senhor que, por nós, esteve na Cruz. Aleluia.

(Estendem o sudário sobre o altar. Terminada a antífona, o prior, para expressar a alegria pelo triunfo de nosso rei, ressuscitado depois de ter vencido a morte, incoa o Te Deum laudamus e todos os sinos tocam juntos.)

À "cena" do sepulcro, vão se juntando outras representações litúrgicas de teatro incipiente: os discípulos de Emaús, cenas de Natal etc. Pouco a pouco, o texto vai se emancipando e a literalidade da Escritura dá lugar a paráfrases, comentários líricos etc.

Um jeu medieval - O Mistério de Adão

O Mistério de Adão, que apresentamos a seguir, de autor anônimo, é um pioneiro do século XII dos jeux medievais que ligam o mistério da redenção ao pecado original. Seus personagens, como faz notar Pauphillet [2] , são seres humanos comuns (a peça não entra em maiores discussões sobre o alcance metafísico da Queda): Adão é, simplesmente, um servidor leal que tem um momento de fraqueza e Eva representa a fragilidade feminina.

A peça comporta três partes: 1) a desobediência de Adão e Eva, 2) a morte de Abel, e 3) um desfile de profetas anunciando a redenção de Cristo (esta parte chegou a nós mutilada).

O Mistério de Adão, explica Pauphillet, ao contrário das primeiras composições latinas - mais próximas da liturgia e representadas dentro da igreja - era encenado sobre um tablado assentado em frente ao templo. Não se ousa representar Deus, que é meramente sugerido pelo personagem da Figura (que está na igreja e, de lá, entra e sai do palco).

Apresentamos a tradução do "primeiro ato" (o episódio da maçã), um divertido documento sobre a arte e a pedagogia da época, seu senso de humor, suas concepções etc. Na tradução, procuramos manter as rimas e as estruturas de rimas do original [3] e harmonizar a fidelidade ao texto original com a devida adaptação: de tal modo que o leitor moderno tenha acesso também ao espírito que informa essas produções, escritas há quase mil anos...

Neste sentido, um referencial importante que nos guiou foi a possibilidade de ver estas peças encenadas pelos alunos do curso de História da Educação Medieval da FEUSP. Assim, a fidelidade ao espírito da real encenação levou-nos ao atrevimento de não abandonar, na tradução, a forma original de versos e rimas.

Videtur 22    http://www.hottopos.com/           IJI – Univ. do Porto - 2003

 

 

O MISTÉRIO DE ADÃO

Peça de teatro de autor Anônimo do século XII

(Tradução: Jean Lauand)

ORDO: O Paraíso deve estar um pouco elevado no palco, rodeado de cortinas e telas de seda, de modo que os personagens fiquem visíveis apenas dos ombros para cima. No Paraíso deve haver flores perfumadas, folhagens e diversas árvores carregadas de frutas, com aspecto de lugar muito agradável. O Salvador (a Figura) deve entrar vestido com capa dalmática e diante dele situem-se Adão e Eva. Adão usa uma túnica vermelha; Eva, vestes femininas brancas e um manto de seda branco. Os dois postados diante da Figura, mas Adão mais perto. Adão está com um rosto sereno e Eva com um ar um pouco mais humilde. O Adão deve saber bem o momento de suas falas para não ser nem muito rápido nem muito lento. E não só ele, mas todos os personagens devem ser instruídos para falar adequadamente; para fazer os gestos apropriados à fala; para não acrescentar nem suprimir sequer uma sílaba do texto e proferi-lo na ordem prevista. Sempre que alguém mencione o Paraíso deve dirigir a ele o olhar e apontá-lo com o dedo. Começa a leitura: "In principio creavit Deus caelum et terram, et fecit in ea hominem, ad imaginem et similitudinem suam" [4] . Terminada a leitura, o Coro canta: "Formavit igitur Dominus hominem de limo terrae, et inspiravit in faciem eius spiraculum vitae, et factus est homo in animam viventem" [5] . Após o canto:

A FIGURA (DEUS)

Adão!

ADÃO

Senhor!

A FIGURA

Do barro da terra, eu te formei.

ADÃO

Senhor, eu bem sei...

A FIGURA

E te formei à minha semelhança,

À minha imagem te fiz de terra,

Não deves jamais mover-me guerra.

ADÃO

Por certo não o farei,

Ao Criador obedecerei.

A FIGURA

E te dei uma boa acompanhante,

É tua mulher, tua semelhante,

É tua mulher, Eva chamada,

Que te ama e é por ti amada.

Um ao outro deveis fidelidade

E ambos fiéis à minha vontade.

Não te é estranha, de ti nascida,

De tua costela foi ela formada,

Nada de fora de ti utilizei.

Foi de teu corpo que Eu a plasmei,

Tu, governa-a por meio da razão

E não haja entre vós dissensão,

Mas grande amor e um só sentimento:

Esta é que é a lei do casamento.

A FIGURA (dirige-se a Eva:)

E tu, Eva, grava em teu coração,

O que te digo não seja em vão:

Se fizeres minha vontade,

Guardarás em teu peito a bondade.