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Gabriel Perissé
Doutorando em Educação pela FEUSP
perisse@uol.com.br

 

Escrever é tomar a decisão de descobrir o meu método pessoal para forjar o meu eu em forma de texto.

Clarice Lispector confidenciava: “Tive que descobrir meu método sozinha. [...] Me ocorriam idéias e eu sempre dizia: ‘Tá bem. Amanhã de manhã eu escrevo.’ Sem perceber que, em mim, fundo e forma é uma coisa só. Já vem a frase feita. Enquanto eu deixava ‘para amanhã’, continuava o desespero toda a manhã diante do papel em branco. E a idéia? Não tinha mais. Então resolvi tomar nota de tudo que me ocorria.”

Escrever é assim. Clarice tomou a decisão de tomar nota. Isso se chama trabalho. Trabalho que se traduz em rasgar muito papel, em reescrever muito, em recomeçar várias vezes. Só a ambição de estender aos outros a nossa ponte, a palavra, e através dessa ponte acompanhar os outros na sua solidão e na sua esperança, só esta ambição justifica e intensifica a concentração, a realização de tais e tais tarefas, a leitura sistemática, a consulta ao dicionário, o estudo da gramática, o desenvolvimento de idéias latentes, de imagens, sonhos, frases...

Em Assim falava Zaratustra, escrevia Nietzsche: “Como é agradável ouvir palavras e sons! Não serão as palavras e os sons os arco-íris e as pontes ilusórias entre as coisas eternamente separadas?” — e podemos nós, ousadamente, argumentar que são as palavras o que há de menos ilusório, são os verdadeiros arco-íris e as autênticas pontes impedindo a separação eterna entre as coisas e as pessoas.

E as palavras somos nós, preenchendo esses abismos.

Por mais prosaico que seja o texto que precisamos escrever, por mais objetiva que seja a necessidade de uma carta ou um e-mail, temos de levantar essas pontes com nossas palavras, com nossa personalidade, e fazer delas um caminho vivo para a comunicação interpessoal.

E essa comunicação precisa ser original.

Originalidade é o que se faz novo aos nossos olhos, com novas coerências, novo atrativo. Uma pessoa original é aquela que está sempre nos surpreendendo pelo fato de ser uma pessoa. Uma pessoa original é aquela que traz a marca da evolução contínua, da insatisfação consigo mesma, e da busca de maneiras novas de dizer o que todos já sabiam.

Mas o paradoxal nessa história toda (e até o absurdo, à primeira vista) é que a arte de ser original, e, concretamente, de escrever de maneira original, consiste na capacidade de repetir o que alguém já disse, de renovar o que alguém já pensou, já expressou, e fazê-lo de uma forma reconhecidamente inédita.

Carlos Drummond de Andrade ensinava, ironicamente, que o desenvolvimento da originalidade possui algumas etapas, a primeira das quais é imitar os modelos clássicos, e a última... imitar-se a si mesmo até a morte!

A solução para este aparente beco sem saída é entrar nele, corajosamente, acender uma luz o mais rápido possível, e compreender que, sim, existem saídas — podemos imitar de forma criativa. Podemos ser originais sem a necessidade de apelar para a extravagância. Podemos utilizar o que é alheio com a liberdade de quem tem esse algo como coisa própria.

Antes mesmo de pensar nos modelos clássicos, voltemo-nos para as frases mais corriqueiras, como “a união faz a força”, “estou com a faca e o queijo na mão”, “desisti de dar murro em ponta de faca”, “o tiro saiu pela culatra”, e outras centenas de preciosidades que, bem aquilatadas, são inspiradoras de nossa originalidade.

Não precisamos excluir do nosso horizonte esses clichês, essas expressões comuns, mas temos de apropriarmo-nos deles e reaproveitá-los em outros contextos, em muitos casos apenas alterando uma letra ou uma palavra, para descortinar percepções mais criativas da realidade.

Outro dia, uma menina de 3 anos de idade disse, sem perceber a beleza do que dizia, enquanto pedia ao pai que a ajudasse a abrir uma garrafa: “Pai, vamos misturar nossas forças?!” Mais do que unir, misturar! Ela estava aprofundando e renovando a idéia da união.

Ou se eu digo, por exemplo: alegria de pobre dura muito, estou relativizando o fatalismo de uma vida miserável e ressaltando que a pobreza — entendida num contexto positivo, de desapego das realidades materiais — não precisa identificar-se necessariamente com a infelicidade. Ao contrário! A pobreza pode é ajudar uma pessoa a entender o essencial da vida.

Quando Nelson Rodrigues diz que “o pior cego é aquele que não quer ouvir”, está levando nosso olhar para outros aspectos da questão. A pessoa que não quer ver é o pior cego, como ensina o dito popular, mas é ironicamente verdadeiro também que o cego pior é aquele que, além de cego, recusa-se a ouvir as orientações dos outros!

Mas ainda não entramos em cheio no problema do plágio.

O conceito de plágio é um conceito relativamente novo. Na Idade Média, as “leis da imitação” permitiam e estimulavam a busca de um exemplum, de um modelo do passado que servisse de base para fazer algo de novo com o antigo, mesmo que depois todos pudessem perceber ali, na obra realizada, mais o antigo do que o novo.

Talvez estivesse no bojo dessa mentalidade a idéia da imitatio Christi, que não era simples cópia do comportamento de Cristo, mas uma ascese que implicava na assimilação e na imitação pessoal do modelo da santidade cristã.

O medievalista Jacques le Goff menciona sempre o fato de que, naquela época (cujas trevas são mais nossas do que dela...), os professores e artistas usavam as fontes cristãs e greco-latinas com a liberdade de quem realmente podia apropriar-se, sem falsos escrúpulos, do que lhes parecia inspirador.

Não era, portanto, imitação pura e simples, mas plágio criativo. No século XII, por exemplo, John of Salisbury ensinava explicitamente aos seus alunos que o segredo da filosofia e do escrever bem estava em ler os grandes mestres do passado e redigir como se os estivessem encarnando num novo contexto histórico.

Mais do que meramente copiar, o escritor prestava uma homenagem ao imitado, dizendo, nas entrelinhas, que só o imitava porque nele encontrara um valor... inimitável.

O poeta Décio Valente publicou em 1986 um livro intitulado O plágio, em que faz uma arguta, e por vezes paranóica... identificação de cópias conscientes ou inconscientes, voluntárias ou involuntárias, mal feitas ou magistrais, de pensamentos, versos, poemas inteiros, cópias realizadas por autores conhecidos ou desconhecidos, geniais ou medíocres.

Identifica, por exemplo, uma “semelhança” entre o poema Mãe Preta, de Augusto Linhares, publicado em livro em 1948, e o poema bem mais conhecido de Manuel Bandeira, Irene no céu, escrito provavelmente no final da década de 1920:

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Mãe Preta

Quando Dodora ao Céu chegar, é minha crença,
e ao Chaveiro disser: — Dá licença, meu Santo?
São Pedro, vendo-a, lhe dirá com certo espanto:
Você, Dodora, não precisa de licença!...

E a porta lhe abrirá paternalmente. E ela,
para de todo ser feliz numa tal hora,
seu cachimbinho acende. Acende-o numa estrela;
mas São Pedro lhe diz: — Não, aqui não, Dodora...

 

A semelhança foi procurada, e, mais ainda, o segundo poeta quis dialogar com o poema de Bandeira, trazendo, com uma ponta de ironia, o desfecho em que o branco volta a cercear a mãe preta, e lhe rouba o prazerzinho de fumar seu cachimbo.

Em outro momento, Décio Valente cita a si mesmo, mostrando que um pensamento de um livro seu — “As amizades são como porcelanas: para que durem muito, pouco nos devemos servir delas” — teria surgido dez anos depois numa quadrinha de Mário Quintana:

Olha! É como um vaso
de porcelana rara o teu amigo.
Nunca te sirvas dele... Que perigo!
Quebrar-se-ia, acaso...

Há semelhança, sem dúvida, mas não parece tão incomum assim comparar a amizade à porcelana. Se Quintana leu o livro de Décio e ficou-lhe gravada a imagem, ou se concebeu esta metáfora devido a outras razões e devido a outras influências, temos de admitir que o poeta gaúcho apropriou-se da idéia original com seu estilo inconfundível e até melhorou a forma de expressá-la!

Na verdade, o escritor que procura, desesperadamente, dizer o que antes jamais se disse não conseguirá atingir esse objetivo, mesmo que se isole do mundo, e não leia mais nada, e não converse com mais ninguém. Desconhecer o que já foi feito será a única forma de iludir-se, de pensar que é totalmente original, que nada deve ao passado e... ao presente. Contudo, não conseguirá evitar, afinal, que em seu texto sejam identificáveis o pouco que leu ou ouviu em sua vida e, sem querer querendo, acabou imitando.

Se você quiser ofender um escritor com essa obsessão pela originalidade, diga-lhe que é um plagiador, que aquela passagem no seu texto é muito parecida com o que você leu em outro autor. Estamos às vezes de tal forma obcecados pela idéia de que a originalidade consiste em fazer coisas absolutamente novas, que mal nos damos conta de que também não é nem um pouco original pensar assim, na medida em que muitos pessoas “originais” vivem pensando que são originais!

Eu defendo, porém, o plágio criativo, com o qual “roubamos” da seara alheia (de autores conhecidos ou não) algo que pode tornar o nosso trabalho mais fértil e promissor. Mais ainda: devemos ser tão bons ladrões que ninguém perceba que fizemos com o alheio algo melhor. O plágio criativo perfeito é quando o roubo é seguido de assassinato, e nem precisamos citar a vítima, cuja alma absorvemos e cujo corpo escondemos dentro do nosso próprio texto.

O plágio criativo é uma imitação inteligente de versos e metáforas, de idéias e frases, de resultados e conclusões de outros autores, e, devo esclarecer, esse processo criativo é utilizadíssimo pelos grandes escritores, que são ao mesmo tempo grandes leitores e descobriram o óbvio: nada existe de novo sob o sol... frase que o autor do Eclesiastes deve ter copiado de algum outro escritor.

Mário de Andrade “confessou” ter roubado inúmeras idéias de vários autores (e alguns trechos desses autores, textualmente) ao escrever Macunaíma, uma vez que toda a escrita, para ele, se construía como uma apropriação sem reservas do patrimônio cultural disponível.

T.S. Eliot retomava expressões e versos inteiros de outros escritores, inserindo-os em sua obra, e com eles criou uma poesia das mais originais do século XX e de todos os tempos.

Gilberto Mendonça Telles tem um livro muito interessante sobre como há na produção literária brasileira muitos trechos da (ou alusões à) obra de Camões, consciente ou inconscientemente assimilada pela leitura.

Podemos, claro, falar que tudo isso é reelaboração, paráfrase, (re)invenção e outros procedimentos do que se convencionou chamar “intertextualidade”. Mas eu gosto mesmo é da expressão plágio criativo. Expressão que roubei de alguém... cujo nome esqueci.

Portanto, para sermos originais, façamos o trabalho dos plagiadores! Conheçamos a fundo aquilo que lemos, ou aquilo que já imitamos sem pensar. Roubemos o que é de todos! Ou o que parece ser de um só. Mas dando a esse “roubo” um toque pessoal.

E podemos ir ainda mais longe, sistematizando-nos. Leiamos textos criados pelos profissionais do jornalismo, da crônica, do ensaio, da poesia, do teatro. Colecionemos frases, repitamos mentalmente essas frases, a tal ponto que não saibamos ao certo se são nossas ou de outros. Usemos o que existe de melhor em cada um dos autores que lemos, acrescentando a esse material a nossa personalidade e produzindo algo original... até para nós mesmos.

Estamos, na verdade, falando de administração de influências. E influência é o que flui para dentro de nós, e de nossa fala, e de nossos textos.

Administrar bem as influências exige três atitudes: aceitar as influências inevitáveis, provocar novas influências e selecionar influências especiais.

Aceitar as influências inevitáveis é conseguir olhar com bom-humor aquilo que, vamos dizer assim, inocularam em nós, aquilo que bebemos no leite materno. Aceitar como um fato. Certa vez, perguntaram a João Cabral de Melo Neto se ele tinha medo da morte. Ele respondeu que sim, e que esse medo estava associado às idéias de céu, inferno e purgatório que os irmãos maristas lhe tinham transmitido no tempo do colégio. O entrevistador insistiu: “Não acha tudo isso uma grande ingenuidade?” E o poeta, já naquela altura totalmente cego, respondeu, com um sorriso: “O que é que eu posso fazer? Foi uma influência que recebi na minha infância e que não superei até hoje.”

Não superou e não tinha por que superar. Porque não podemos superar o que é a base das nossas possíveis superações. Há em nós algo de imóvel e de fundamental que recebemos nos primeiros anos de vida. É o chão, o básico, sobre o qual poderemos construir nossa vida, mas do qual não podemos nos separar. Podemos criticar, podemos amaldiçoar, mas aí está, é a nossa influência fundamental, que permaneceu em nós como que “grudada” ao nosso ser, aos nossos genes, à nossa alma.

Nós não começamos do zero. Há uma estrutura inicial que recebemos e com a qual precisamos lidar. Quando olhei para mim, encontrei alguém que já estava ali! Alguém que, antes de mais nada, recebeu um corpo, ou melhor, que é um corpo; alguém que descobre em si mesmo uma série de inclinações temperamentais, e que logo, desde os primeiros meses, recebeu uma formação inicial, proveniente do ambiente familiar.

Esse alguém sou eu, e com esse eu... tenho que começar a conviver conscientemente, construtivamente.

As primeiras pessoas com quem nos relacionamos foram as primeiras a nos influenciar, e essa influência já representa um forte “ingrediente” a atuar em nossa vida. Mas há outros! A casa ou as casas em que morávamos, e a vizinhança, e a classe social em que nossa família foi incluída pelos economistas e especialistas em estatísticas; a região geográfica em que nascemos, em que aprendemos a andar, e, de modo extremamente relevante para nós, a língua com que tivemos o primeiro contato e na qual nossa mente encontrou, encontra, encontrará sempre os elementos (e os “alimentos”) necessários para desenvolver-se semanticamente, sintaticamente, com todas as limitações e alcances que cada idioma possui.

O idioma materno — não à toa utilizamos esse adjetivo — gera o nosso modo de falar, gera o nosso modo de entender o mundo e falar de nós mesmos, e entender a nós mesmos. Nele estão nossas raízes. Dele nos alimentamos. O poeta espanhol Juan Ramón Jiménez referia-se não apenas ao idioma materno, mas ao “español de mi madre”, porque  aprendemos a ler e escrever desde o berço, desde os primeiros diálogos com a mãe, com o pai, com os parentes mais próximos.

Por mais idiomas que uma pessoa domine, nunca deixará de ter uma única língua, a língua que lhe foi ensinada pelos primeiros professores, os pais; língua que lhe permite aprender as outras! A língua materna, cujos sons, pele e perfumes são únicos e intraduzíveis, são a referência, eis a primeira grande influência que recebemos. Um idioma não apenas diz o que diz... mas é a melhor forma com que eu posso dizer o que sinto, o que sei, o que sou. Ou, como brincava Nelson Rodrigues — “eu sou monogâmico: só sei a minha língua.” Na realidade, só podemos saber a fundo, para valer, uma única língua. A nossa. E só nos sabemos nós mesmos mediante essa língua, mergulhando nessa língua.

Na língua materna estamos livres e presos. São as nossas asas, das quais não podemos nos livrar e só com as quais podemos voar. Na língua materna as palavras têm os sons que nos fazem entender mais profundamente o que está sendo dito. Sonhamos no idioma materno. Amamos no idioma materno. Morremos no idioma materno.

O filósofo Martin Heidegger, atentíssimo à questão da linguagem, explicava que o idioma é o ser, a casa do ser, e que, para ele, as coisas respondiam ao nosso chamado, como se fossem animais ou pessoas reconhecendo o uso do nome certo. Por isso a necessidade de mergulharmos em nosso idioma para podermos reconhecer a realidade circundante, e, assim, poder estudar uma ciência, escrever um poema e, prosaicamente, pedir, por exemplo, à mesa, que alguém nos aproxime uma travessa de salada ou a jarra de vinho.

O idioma é a carteira de identidade de uma pessoa. E quem escreve precisa tomar consciência de que nós somos aquilo que falamos-lemos-escrevemos e que toda a nossa vida consiste em aprender o nosso idioma, apaixonar-se por ele, respeitá-lo, ter com ele intimidade autêntica, para, nele, enxergar a realidade com mais clareza, comunicarmo-nos com os outros, expressar nossas idéias e perplexidades, nossas alegrias e dores, “morar” e “viajar” neste mundo com pleno direito.

Neste ponto, é inevitável referirmo-nos ao dicionário, aquisição necessária para quem vive de palavras, para quem lida com palavras, para quem ama as palavras.

O dicionário é pai dos inteligentes, daqueles que sabem que cada palavra tem a sua abrangência, o seu matiz, a sua personalidade. Uma porta aberta não é a mesma porta que está escancarada. Um homem hirsuto não é exatamente um homem zangado. Até aquela flor que denominamos bem-me-quer diferencia-se de si mesma quando a chamamos, também legitimamente, de malmequer...

O dicionário é fonte de inspiração, reflexão e ampliação da nossa consciência dentro desse “país” lingüístico, cujas fronteiras estão nas almas mais do que nos mapas.

O pensador Ralph Emerson afirmava que nenhum dicionário é ruim. Todos trazem a matéria-prima dos poemas e histórias que serão escritos. Nesse reino democrático das palavras (a única hierarquia é a ordem alfabética), mergulhamos como sedentos pescadores de conceitos e sentimentos que foram designados em nossa língua materna.

Em nossa língua, como em cada língua em particular, vamos perceber novas possibilidades bem próprias de exprimir-nos, como o curioso uso elogioso do palavrão filho-da-puta, uma recente conquista que muitos de nós já incorporarmos. Pois é. Em alguns casos, filho-da-puta é um elogio, verdadeiro paradoxo que faz pensar: “O filho-da-puta não estudou o ano inteiro e mesmo assim passou no Vestibular!”

Conhecer o nosso idioma é uma responsabilidade. Um ato de verdadeira cidadania. E de crescimento cultural e pessoal. Temos a responsabilidade de aceitar, aceitar é pouco — temos a responsabilidade de tocar e degustar o idioma em que surgimos a fim de criar um “idioma pessoal”, toque e degustação que se materializam em colocar “a mão na massa” para vencer a distância entre o que devemos ou queremos escrever (a carta, o romance, a redação, o diário, o testamento, a crônica, o relatório, a monografia, o relato de uma viagem, a autobiografia etc.) e o próprio idioma nacional.

Pôr a mão na massa consiste em familiarizar-se com a linguagem, com as palavras, com os significados e sentidos das palavras. A “massa” do escultor é o mármore, o bronze, o barro. A “massa” do pintor são as cores. A “massa” de um músico são os sons do seu instrumento. A “massa” do dançarino é o seu próprio corpo. A “massa” de quem escreve é a linguagem, as muitas palavras que estão no dicionário, e as que não estão ainda, ou dele deixaram de constar por algum motivo.

A palavra não cria as coisas do nada. Mas retira, sim, as coisas da sombra, do esquecimento, do exílio, ou do passado, ou do futuro. As palavras são embaixadoras da realidade. Trazem todo o universo para sentar-se ao nosso lado. Trazem reinos, aves exóticas, peixes monstruosos, estrelas do céu, flores de aromas impensáveis, anjos, demônios. Falamos a palavra, e o universo responde ao chamado, e os mortos ressuscitam, e nós nos iluminamos.

Devemos aceitar e abraçar o nosso idioma como um náufrago se abraça a um pedaço de madeira salvadora... Não, a imagem é ruim. Poderia parecer que o idioma é uma simples tábua de salvação, que abandonaremos tão logo apareça coisa melhor e mais segura, de preferência um belo navio em direção às ilhas gregas!

Devemos abraçar nosso idioma como a uma realidade pessoal e transpessoal, em que estão “arquivadas” as experiências e concepções de nossos antepassados. Em que estão nossos próprios antepassados. Pois são eles que nos influenciam. Pois foram eles que criaram coletivamente o idioma em que aprendi a falar “mamãe”, “agora”, “não quero”. Nós somos o que disseram antes de nós, o que está “gravado”, coletivamente memorizado nos provérbios, nas frases cheias de sabedoria, nos contos populares, no folclore, na literatura, nos textos todos, jurídicos, religiosos, burocráticos, científicos, históricos etc. Aí estão as nossas verdades... e as mentiras nossas.

Uma vez que o idioma é uma realidade inevitável em nós, pois dele precisamos e nele, desde os primeiros momentos de vida, começamos a forjar nossa maneira de dizer e desdizer tudo, cabe-nos a tarefa de incorporá-lo livremente. Ou seremos exilados em nossa própria terra!

Mas à medida que vamos tomando consciência de nossa realidade, descobrimos de imediato uma lei da vida, que o filósofo espanhol Julián Marías expressa da maneira mais simples e objetiva possível: “A vida faz-se para frente.”

Isto significa que estamos instalados no tempo, numa realidade que flui. De repente, o chão se torna trampolim. Eu posso projetar-me para o futuro. Provocar novas influências, permitindo-me experiências que vão enriquecer (ou não) minha maneira de ser.

Para quem escreve, a experiência por excelência é a da leitura.

Sim, sem dúvida, quem sou eu para negar que a experiência da vida é que é fundamental? Primeiro viver, depois ler! Mas na leitura meditada é possível realizar descobertas que a vida, em sua fluidez, nem sempre nos permite experimentar. Na leitura é possível enriquecer nossa bagagem intelectual e moral com uma prática reflexiva, com um atinado conhecimento do mundo, de nós mesmos e dos outros que nem sempre encontra suficiente espaço e tempo em nosso dia-a-dia concreto.

Devemos observar, porém, que esse diálogo com bons livros e bons autores, que poderia restringir-se a uma experiência solitária, particular e passageira, que poderia restringir-se a uma experiência fechada num “mundo de papel”, como diz o crítico de arte Benedito Nunes, amplia-se quando “voltamos”, renovando nossa visão do mundo real, ajudando-nos a redescobri-lo, a senti-lo e pensá-lo de uma forma menos rotineira e ilusória. A “mentira” do papel transfigura a verdade do mundo, tornando-a mais verdadeira.

Borges, um apaixonado incondicional da leitura, disse numa conferência, em 1978: “Se lemos um livro antigo é como se estivéssemos lendo durante todo o tempo que passou desde o dia em que esse livro foi escrito até o nosso momento presente.” Uma longa e intensa experiência! Ler, neste caso, é ganhar tempo, ganhar séculos de experiência, de vivência, de sabedoria. Um século se lemos Tolstoi, quatro séculos se lemos Shakespeare, vinte e um séculos se lemos Platão, e tudo isso em alguns meses.

Uma experiência intensa em virtude da qualidade dos textos, da sua relevância incontestável.

A leitura é, portanto, um tipo de influência que podemos (e devemos) provocar em nossa vida. Uma influência que recebemos de modo “seguro”, uma influência que recebemos na privacidade de quatro paredes, no silêncio de uma biblioteca, provavelmente sentados, sem derramamento de sangue, sem gastos econômicos excessivos. Mas, afinal, uma influência decisiva para o nosso aperfeiçoamento como pessoas, como seres pensantes, e como produtores eficazes de textos. Experiência perigosíssima... para a nossa mediocridade. Perigosíssima... para a nossa imaturidade existencial.

E vale a pena correr esse risco, para crescer, para tornar-se uma pessoa culturalmente, humanamente representativa.

Trata-se de uma influência que se recebe de modo voluntário e inesquecível.

O escritor Carlos Heitor Cony, por exemplo, tem um estilo agradável, tem uma conversa agradável, tem uma forma de ver o mundo agradável (mesmo que emita opiniões com as quais você ou eu não concordemos) porque leu grandes autores: Flaubert, Eça de Queirós, Balzac, Zola, Lima Barreto... Porque se predispôs a receber as palavras desses mestres, a conviver com eles, a receber de peito aberto influências deles, a dialogar com eles, a reutilizar suas palavras. Cony disse numa entrevista: “Condenei-me à leitura desde cedo, e o primeiro livro que me impressionou, que me deu vontade de tê-lo escrito, foi Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. Releio sempre, e sempre com prazer. Minha obra está toda marcada por ele.”

O plágio criativo, uma realidade literária. Uma necessidade, acrescentaria eu.

É extremamente conhecida aquela passagem inicial do primeiro poema do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade: “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Passagem que marcou e inspirou pelo menos outros três poetas.

O poeta Torquato Neto: “Quando eu nasci / um anjo louco muito louco / veio ler a minha mão / não era um anjo barroco / era um anjo muito louco, torto / com asas de avião / eis que esse anjo me disse  / apertando a minha mão / com um sorriso entre dentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes / vai bicho desafinar / o coro dos contentes.”

O poeta Chico Buarque de Holanda: “Quando nasci veio um anjo safado / O chato dum querubim  / E decretou que eu tava predestinado / A ser errado assim / Já de saída a minha estrada entortou  / Mas vou até o fim.”

E a poeta Adélia Prado, no primeiro poema do seu primeiro livro: “Quando nasci um anjo esbelto, / Desses que tocam trombeta, anunciou: / Vai carregar bandeira. / Cargo muito pesado pra mulher, / Esta espécie ainda envergonhada.”

E o que há de comum em todos eles, incluindo Drummond?

Que, sabendo ou não (ou sabendo com maior ou menor consciência), estão todos plagiando criativamente (inquirindo, transgredindo, relendo) a Anunciação descrita no início do Evangelho de São Lucas — um anjo, um arcanjo, desses que vivem na luz, disse a Maria: “Ave, gratia plena!” —, com a boa notícia da Redenção, uma cena que, por incrível que pareça, é também ela mais um plágio criativo, uma recriação (e uma contestação) da anunciação tentadora do anjo-serpente (desses que vivem rastejando...). No início dos tempos, este anjo de falsa luz procurou a primeira mulher, Eva, a mãe de todos os viventes, e lhe sussurrou: “Salve, Eva... E como és bela, cheia de graça! Porém mais bela e graciosa serás quando teus olhos enfim se abrirem! Tu serás como Deus... caso tenhas a coragem de desobedecer ao Deus invejoso, ao Deus que não quer que evoluas!” Interpretação que os antigos teólogos corroboram, afirmando que “Ave fit ex Eva”, ou seja, que a saudação latina Ave provém do nome Eva, deliberada inversão de letras para provar que a história da humanidade recomeçava naquele segundo momento, na pequena cidade de Nazaré.

A cultura literária é uma das melhores influências que podemos provocar em nós mesmos, e praticamente a única se quisermos escrever com mais segurança, com mais agudeza. Cultura é cultivo, é cultivar-nos, é receber de bom grado e desenvolver em nós o que outras pessoas já pensaram, já disseram, já escreveram. A formação cultural é a condição para desenvolvermos nossos talentos adormecidos, nossas inclinações ainda mal conhecidas, nossos raciocínios ainda esboçados, nossa criatividade talvez um pouco tímida, nossa originalidade necessitando crescer em intensidade.

Cultura é conhecer os cardápios e repertórios disponíveis no horizonte das produções musicais, pictóricas, cinematográficas etc. Um ouvido educado sabe apreciar os sons que instrumentos diferentes produzem, e distingui-los dentro de uma composição musical: o som de um oboé, de um trompete, de um clarinete. E um olfato educado sabe avaliar múltiplos perfumes, e um paladar educado está preparado para saborear os mais bizarros gostos, e uma visão educada sabe discernir diversos estilos da pintura, enfim, são todas essas conquistas sensoriais verdadeiras conquistas culturais de quem se deixa influenciar por bons perfumes, bons pratos, bons quadros, e, indo mais além, procura pessoas que lhe abram novas trilhas intelectuais, ensinando-lhe sobre temas tão díspares como a arquitetura judaica e o golfe, sobre o cinema indiano e a história dos persas.

Um leitor treinado, cujos olhos foram educados para ler o que há de melhor, forma seu senso crítico, sua capacidade de pensar o mundo, e, sobretudo, em termos práticos, qualifica-se para escrever melhor, para escrever textos que valham a pena ser lidos do ponto de vista da forma e do conteúdo, e que dêem, afinal, a necessária continuidade à tradição cultural de que se beneficiou.

De que se beneficiou e que agora constituirá fonte de elementos para o jogo do estilo, em que as citações ocultas, as referências cruzadas e o reaproveitamento inteligente são regras aceitas com toda a naturalidade.

As regras do plágio criativo. Que estão muito claras para os grandes escritores, todos eles cientes e conscientes daquele dogma que o crítico norte-americano Harold Bloom soube consignar numa frase contundente: “A grande escrita é sempre reescrita”, e que podemos colocar ao lado de outra frase, da autoria de Salvador Dalí: “De quien no quiere imitar a nadie, no sale nada.”

Neste ponto vale a pena recordar um exercício literário aberto de plágio criativo que o já falecido Osman Lins propôs, entre 1960 e 1970, a outros importantes nomes da nossa literatura. Tratava-se de escrever novas versões ao conto Missa do Galo, de Machado de Assis. O desafio foi lançado e o livro, publicado. Escreveram, entusiasmados pela proposta, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Autran Dourado, Antonio Callado, Julieta de Godoy Ladeira, e o próprio Osman Lins, que explicou no prefácio a gênese de tudo:

Em 1964, eu Julieta de Godoy Ladeira combinamos escrever, cada um a seu modo, novas versões de um conto de Machado de Assis, considerado por todos autêntica obra-prima e cuja poesia, com o passar dos anos, parece intensificar-se: Missa do Galo. Havia exemplos semelhantes na pintura e na música: artistas retomando um tema já realizado por antecessores e desenvolvendo-o a seu modo. Também em literatura, são conhecidas, por exemplo, as inúmeras versões dos dramas gregos que, inspirados em Homero, chegam até os nossos dias, espelhando, sem perda da identidade, a visão e o modo de operar de escritores muito distanciados entre si no espaço e no tempo. Mas o que eu planejava era algo diferente. Imaginava um certo número de ficcionistas, cada um deles aceitando o desafio de refazer, com maior ou menor aproximação, o texto machadiano, que sabíamos insuperável.

(*)

Este é o plágio criativo explícito, que nas mãos de artistas da palavra gerou outras pequenas seis obras-primas, todas devedoras ao original, talvez um pouco ansiosas, mas ao mesmo tempo gratas ao texto mais forte, o de Machado. Devedoras (quase escrevi... devoradoras) como todos os textos o são, mas que nem sempre pagam ao modelo, ou aos modelos, o mesmo tributo. Em outras palavras, todos dependemos daquilo que foi escrito (especialmente do que foi bem escrito) e todos, mal ou bem, copiamos e recopiamos o que outros, mais brilhantes do que nós, ou mais lúcidos do que nós, ou mais engenhosos do que nós, já escreveram.

Mas nada de sentimentos de inferioridade! A diferença fundamental entre o que se fez e o que fazemos reside no resultado final. Se há no que escrevemos talento ou não, investimento pessoal nosso ou não.

E, só para arrematar melhor a idéia do tributo, quando plagiamos um grande escritor... não o estamos roubando mas pagando o justo preço da homenagem, porque o grande escritor sempre será grande, e o máximo que pode acontecer é que sejamos maiores do que, originariamente, estávamos destinados a ser antes de imitar um mestre.

Esta é, portanto, uma segunda maneira de administrar influências: provocarmos novas experiências, notadamente de caráter literário, impulsionados pela curiosidade intelectual, dialogando com o que já se escreveu, espelhando-nos nas descobertas verbais alheias, reutilizando-as com maior ou menor maestria, tendo insights que vão dos simples trocadilhos à criação de frases dignas de constar de um livro de citações.

Mas ainda há um terceiro tipo de influências a serem administradas, influências que poderíamos designar como influências-limite, e que extrapolam as naturais e culturais. São influências pelas quais optamos e que modificam radicalmente o rumo de nossas vidas. Influências decisivas, que “abalam” nosso modo de ser, e que só podemos chamar influências na medida em que as abraçamos com a plena liberdade de quem redescobriu seu destino. Influências pelas quais optamos, ainda que num quadro de fatalidades, ainda que sofrendo experiências involuntárias ou até indesejáveis.

Uma influência-limite é aquela que se dá no plano religioso, como a conversão arrebatadora de um Paul Claudel, que determinou sua produção poética numa linha católica transcendentalista; é aquela que se dá numa situação de grande risco, como a dramática passagem pelo campo de concentração de um Viktor Frankl, que, a partir do que sofreu e das pessoas que viu sofrendo e buscando um sentido para a vida, redefiniu sua maneira de encarar a psicologia, fundando a Logoterapia; é aquela que se dá numa circunstância de humilhação pública, como a prisão e os trabalhos forçados com que foi punido um Oscar Wilde, situação-limite que o fez escrever as páginas maravilhosas do De Profundis, reavaliando todo o seu comportamento anterior... em suma, estou me referindo a experiências que, assumidas com o peito aberto, promovem uma revolução interior e se refletem estilisticamente numa igualmente radical configuração da linguagem, no que diz respeito ao tom das descrições, da argumentação, da narração, no que diz respeito ao nível de compreensão do real, à escolha de palavras, aos pressupostos que dominam essa escolha, às intenções que orientam essa escolha.

Um outro tipo de experiência-limite — a que viveu Emil Cioran quando passou a morar na França e adotou o idioma francês para produzir sua obra. Cioran recusava-se a escrever em romeno, mesmo quando algum amigo se predispunha a traduzi-lo. Estava, desse modo, optando por uma quase que diria violenta influência. Embora confessasse sentir nostalgia dos sons da língua materna, respondia de maneira enigmática quando perguntavam de novo se não gostaria de escrever em romeno: “Non. J'ai besoin du français. Cette langue est pour moi une camisole de force” — ele tinha necessidade do francês como se precisasse de uma camisa de força! Para não enlouquecer... talvez?

Numa entrevista, dizia Cioran que, para ele, a língua francesa era uma disciplina mental imposta de fora, e que dela se utilizava para obter efeitos positivos de estilo. O idioma estrangeiro salvou o estrangeiro do delírio e da loucura: “É verdade que esta língua não condiz com a minha natureza, mas me ajudou no plano psicológico. O idioma francês tornou-se uma língua terapêutica.” Esforçando-se para pensar em francês, teve que ser exigente consigo mesmo, teve de reescrever seus livros muitas vezes, desconfiar de si mesmo a cada palavra, a cada frase, a cada aforismo, e consultar o dicionário, e pedir ajuda a outras pessoas, sem poder contar com a “facilidade” que o idioma natal poderia conceder-lhe. E assim acabou por se tornar um escritor francês, “roubando” o título de outros muitos franceses que, talvez, precisassem aprender romeno (ou alemão, ou chinês...) para serem mais coerentes consigo mesmos, e menos estrangeiros no seu próprio idioma!

Essa experiência-limite é de todas a mais pessoal, e intransferível.

Trata-se aqui do tipo de influência que decorre de um exílio, de um contato próximo com a morte, com a doença, com a dor, influência decisiva que decorre de um encontro amoroso, que decorre de um encontro vivo com algo que atua nas entranhas, espada afiadíssima que corta em nós (definitivamente, quem dera!) pedaços inteiros de mediocridade.

José Ingenieres, no seu incômodo O homem medíocre, alude às pessoas que renascem dessas experiências, e se transformam, e conseguem resistir à tirania das engrenagens niveladores, resistir às coações, aos servilismos, à massificação, à despersonalização. Ou, dizendo de um modo positivo: a pessoa submetida a uma experiência determinante, sabendo extrair dela, mais do que uma simples lição, um modo mais lúcido de ver e viver, ganha em coragem, essa coragem que, no pensamento do poeta francês Lamartine, “é a primeira das eloqüências, é a eloqüência do caráter.”

Há dois livros de que gosto muito e trazem títulos muito parecidos: A coragem de ser, de Paul Tillich, e A coragem de criar, de Rollo May. Não são parecidos por acaso. Rollo May, psicanalista norte-americano, revela no prefácio que o título lhe foi sugerido “pelo livro de Paul Tillich [...], e é com prazer que lhe confiro esse crédito”. Mas, referindo-se ainda à coragem de ser, Rollo May explica também que é impraticável ser no vazio, e que ser criativo é o modo essencial de ser, o modo essencialmente humano, essencialmente nosso.

O problema é que, para sermos humanos, para sermos criativos, é exigida de nós a virtude da coragem.

Mais concretamente, falando dos artistas (puxando aqui a citação para o artista da palavra), esses dois livros me fizeram entender que escrever é um ato de coragem.

Coragem para criar e autocriar-se eloqüentemente, com palavras e nas palavras.

Uma autocriação que parte dos elementos vitais que somos chamados a aceitar. Elementos de três tipos. Os que praticamente temos de aceitar (como a cor dos olhos, a altura, a duração média da vida, as determinações genéticas, as circunstâncias físicas do lugar em que nascemos etc.). Os que podemos procurar (elementos disseminados e potenciados no panorama cultural disponível). E aqueles que vêm ao nosso encontro, estranhamente desejados por algo que em nós, silenciosamente, pede radicalidade, pede conversão, pede transformação profunda...

A partir desses elementos temos de cultivar a coragem de criar-nos e, simultaneamente,  criar a nossa comunicação escrita. O que temos de aceitar, o que podemos procurar e o que vem ao nosso encontro são as realidades reais, são o texto da nossa vida que temos de transformar na vida dos nossos textos! Escrever corajosamente é construir um método pessoal para afirmar (sem vaidade, sem megalomanias) o nosso eu em forma de palavras.

Essa coragem não se fundamenta na força física, mas na convicção. A convicção é a melhor inspiração. Lembrando um diálogo que Sócrates manteve com dois generais, Nícias e Laques, a coragem, mais do que na guerra, é uma virtude importante na nossa luta interior, a que travamos todos os dias: a luta para vencer nosso medo de ser nós mesmos, de descobrir quem somos, de investigar o que podemos ser, e o que estamos convocados a ser.

Muitas pessoas desejam escrever, ameaçam escrever, sonham em escrever, juram de pés juntos que gostariam de escrever, avisam que num glorioso dia irão escrever... mas não escrevem.

O livro só vale se for escrito. E no livro só vale o que estiver escrito. Se um escritor precisa explicar o que disse, por que o disse, ou por que não disse o que pensou dizer... é porque o livro não se sustenta sozinho. Não passou de um esboço. De uma tentativa. Faltou aquela coragem existencial que transformar o desejo vago em realidade. Escrever é concretizar o potencial de quem escreve. Escrever não é vontade etérea mas fruto da dedicação de quem vai ao extremo de si mesmo.

Ebner, um pensador austríaco, dizia que o problema da filosofia moderna é que as pessoas sonham com a verdade, em lugar de procurá-la efetivamente, ilusão causadora desses terríveis divórcios entre cultura e ética, entre beleza e bondade, e que levavam, por exemplo, um oficial nazista a ouvir, embevecido, belas sinfonias depois de um dia de intenso “trabalho”...

Analogamente, há escritores que imaginam o seu texto mas não se comprometem com a realidade das palavras. Há escritores que vivem no talvez, no quem sabe, no possivelmente, paralisados pelo perfeccionismo, atitude mental inimiga da perfeição. Há quase-escritores que não compreendem o mais elementar dos princípios: para escrever é preciso escrever, sair de si mesmo e lançar-se no deserto do papel.

Escrever para valer é um ato de entrega.

Escrever com coragem é escrever com tudo, mesmo que tudo seja muito pouco, ou quase um nada.

Esse tudo e esse nada estão aí, são o campo à espera de nossa colheita criativa.

O escritor deve imitar todos os grandes contadores de história. A arte de contar exige a consciência de que cada palavra é importante. De que uma palavra fora do lugar pode estragar tudo. De que é preciso manter a palavra numa tensão perfeita, de modo que, no final, o sorriso (ou o riso... ou o choro) de quem ouviu a história seja o aplauso implícito, a evidente aprovação.

O escritor, como um pássaro oculto entre as folhas de uma árvore, observa o mundo e conta a sua história...

Era uma vez um macaco que resolveu tornar-se escritor.

Leu muito durante muitos meses, mas rapidamente percebeu que para ser um bom escritor precisava conhecer as pessoas. Por isso, começou a visitar todo mundo. Como era muito simpático, foi convidado para inúmeras festas e eventos, sendo sempre bem acolhido. Todos gostavam de ouvir sua conversa. E nunca lhe faltava assunto. Política internacional, nacional ou municipal. Arte clássica, moderna ou pós-vanguardista. Filosofia antiga, medieval ou contemporânea. Mostrava-se invariavelmente elegante, inteligente, brilhante. Sempre, é claro, com o intuito secreto de investigar a natureza humana e retratá-la em seus futuros livros.

Até o dia em que o macaco sentiu-se apto a escrever.

E resolveu fazer um romance em que haveria ladrões espertos, capazes de enganar o mais experiente detetive. Ao escrever, usava os detalhes do comportamento que registrara nas raposas, o modo como, sorrateiras, entravam nos galinheiros e levavam, em silêncio, o almoço seu e dos filhotes. No entanto, a uma certa altura, o macaco lembrou-se que as raposas da selva poderiam um dia ler o seu romance e, em especial, uma das raposas que sempre lhe servia maravilhosas canjas nos dias mais frios.

Resolveu interromper o romance.

Dias depois, no entanto, ocorreu-lhe outra história. Escreveria um conto cujos personagens seriam oportunistas e aduladores, seres repugnantes que tudo obtêm com aquele comportamento que ele observara tantas vezes em suas conversas com as serpentes da selva. O texto ia de vento em popa quando, subitamente, deu-se conta de que o conto, publicado, poderia cair nas mãos daquelas mesmas adoráveis serpentes que continuamente elogiavam as suas piruetas verbais, os seus brilhantes comentários...

O macaco resolveu abandonar este conto envenenado.

Semanas mais tarde, uma nova inspiração. E se escrevesse um poema satirizando as relações amorosas? Quantas e quantas vezes percebera que machos e fêmeas se uniam e logo que os filhotes estavam um pouco maiores se esqueciam um do outro em busca de outros enlaces conjugais passageiros... Como eram superficiais e levianos em seu amor! Começou a escrever o genial poema. Quase no final, porém, tomou consciência de que, divulgado este poema satírico, poderia revoltar mais da metade dos habitantes da selva e atrair-lhe o ódio de todos os que sempre o trataram com tanto carinho nas festas de casamento.

Desistiu do poema. E de muitas outras obras que ainda projetou escrever: um ensaio sobre o ativismo das abelhas, uma crônica que explorasse a obtusidade das toupeiras, uma peça de teatro que retratasse o indisfarçável mau humor das hienas... Contudo, sempre recordava, no melhor do texto, que os seus leitores poderiam reconhecer-se e sentir-se ofendidos, fechando-lhe para sempre as portas.

Num belo dia, o macaco quase renunciou a tornar-se escritor. Salvou-lhe a derradeira idéia. Escreveria sobre a arte de escrever, aconselhando outros macacos romancistas, poetas ou ensaístas a jamais deixarem de escrever uma linha do que tivessem concebido criar, ainda que sentissem medo da reação desfavorável dos futuros leitores.