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Um Diálogo Pedagógico
do século VIII*
Jean Lauand
Fac. de Educ. da USP
jeanlaua@usp.br
O diálogo, cuja tradução apresentamos a seguir, é a Disputatio (discussão) entre o mestre Alcuíno e o segundo filho de Carlos Magno, o jovem Pepino.
Quando Alcuíno em 781 - a pedido de Carlos Magno -, encarrega-se da Escola Palatina, tem já cinqüenta anos de idade, enquanto Pepino, apenas cinco.
Pelo próprio texto da Disputatio, pode-se supor que Alcuíno fosse oficialmente o preceptor de Pepino [1] , o que teria ocorrido durante a primeira estada de Alcuíno junto a Carlos Magno (781-790). Trata-se, portanto, de um diálogo em que um garoto de doze ou treze anos, faz perguntas ao mestre ancião a respeito de tudo: do homem e do mundo; da vida e da morte.
Nas respostas de Alcuíno, encontramos toda uma visão de mundo da época, "une sorte de digest d'une grandeur étonnante", mais preocupado com a verdade do que com a forma literária [2] . E, por isso, belo! Comovente! Um testemunho - datado de 1200 anos - da profunda identidade do homem de todos os tempos, pois no século VIII, como hoje e sempre: "a esperança é sonhar acordado (falas 159-160); a amizade, a igualdade das almas (164); a fé, a certeza das coisas que não vemos (166); os olhos, os indicadores da alma (44) e o homem..., uma candeia ao vento (20)". E a terra continua sendo a mãe de todos (e a que a todos devora... (108)); o homem, um caminhante passageiro, sempre hóspede, onde quer que se encontre (16) e a liberdade do homem, a sua inocência (32).
Na formulação dessas verdades permanentes, esconde-se qualquer coisa de encantador, talvez pelo fato de serem dirigidas a uma criança, e há doze séculos; ou talvez pela concisão das respostas que vão direto ao essencial [3] .
Mas, obviamente, nem tudo é identidade e permanência. Igualmente maravilhoso é o contato com as diferenças, sobretudo com a imaginação que colore de magia o realismo medieval. Vale - mutatis mutandis - para as sentenças de Alcuíno, o que diz Pieper a respeito de Alberto Magno. Depois de descrever o realismo científico de Alberto, Pieper observa: "Quão pouco tal sentido realista tem que ver com um trivial cientificismo, evidencia-se numa frase sobre as formas elementares das flores, em que Alberto enlaça a precisa observação com a pura poesia. As flores têm - é o que ele diz no Livro das Plantas - três tipos de formas: pássaro, sino e estrela" [4] . E Alcuíno nos dirá que os dentes são moinho de morder (54); o navio, um viajante que não deixa rastro (148) etc.
De especial interesse no texto, são as adivinhas (no total, 22) que se insinuam nas falas 155-160 e, explicitamente, são propostas de 168 até o fim. São enigmas do mesmo tipo dos que, ainda hoje, divertem crianças e adultos. Na Primeira Idade Média - que tanto cultivou essas brincadeiras -, as adivinhas tinham, além do caráter jocoso, uma função pedagógica: aguçar a inteligência dos jovens [5] . As duas coisas andavam juntas: deve-se ensinar divertindo, diz Alcuíno a Carlos Magno [6] .
Das adivinhas propostas, algumas têm solução explícita no próprio texto. São elas:
Fala em que proposta Solução da adivinha
155 fome
157 lucro
159 esperança
168 imagem na água
174 sonho
176 galhos-fogo
180 sílex
206 nada
210 carta
A solução de algumas outras, obtivemos nas Collectiones Aenigmatum - CCL 133 e 133A. Esses volumes recolhem enigmas da era merovíngia e alguns deles são retomados por Alcuíno:
Falas Solução
184 piolhos, caçar piolhos (Cf. CCL 133A, p. 651)
186 o ovo [7]
188 o eco [8]
190 o peixe no rio (Cf. CCL 133A, p. 633)
192 o sonho (o que se vê no sonho) (Cf. CCL 133A, p. 720)
202 a flecha (Cf. CCL 133A, p. 686)
A adivinha proposta em 178 tem por solução: pergaminho (o pergaminho só fica bem se a pele de ovelha for preparada em varal). E em 182, a isca (morto) com seu riso (anzol) atrai o vivo (peixe) para a morte. Já para a adivinha que se propõe em 198, tivemos de recorrer aos Ioca Monachorum, publicados em PLS 4. A solução é: Adão, homônimo da terra, não nasceu e morreu uma única vez [9] . A sua inicial A é a letra nº 1 do alfabeto. Elias - homônimo de Deus - nasceu, mas não morreu (cf. II Sam 2) e sua inicial E é a letra nº 5. E Lázaro, ressuscitado por Cristo, morreu duas vezes (Cf. PLS 4, 931), e é homônimo do mendigo da parábola. Sua letra L é a de nº. 12. O enigma proposto em 196 é um trocadilho com a palavra latina caput (cabeça ou cabeceira da cama). Finalmente, para se entender o que se propõe em 194, é preciso lembrar que se cultivava muito, na época, a loquela digitorum, a representação de números pela flexão dos dedos. O dedo mínimo é o que faz o 7; o anular, o 6; ambos, o 8. De tal modo que, se do 8 tirarmos 7 (isto é, o dedo que faz o 7) fica 6 [10] .
Não quero concluir esta apresentação, sem fazer notar que o último enigma que Alcuíno propõe ao jovem (o do mensageiro mudo) complementa-se com um outro, enviado pelo mestre a Carlos Magno: "Queres saber, ó viandante, como pode o poeta viver após a morte? Nisto que tu lês, sou eu que falo; tua voz, neste momento, é a minha" (PL 101, 802B).
E que a última fala que nos traz o mudo mensageiro da disputatio, aplique-se também ao leitor: Lege feliciter!
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Alcuíno
Pippini Regalis et Nobilissimi Juvenis Disputatio
cum Albino Scholastico (PL 101, 975-980)MONITUM PRAEVIUM. Cl. Quercetanus Disputationem quae sequitur edidit juxta exemplar impressum Hamburgi anno 1615. In codice ms. Salisburgensi 900 annorum eadem Disputatio exstat media inter epistolas et carmina Alcuini, absque tamen auctoris nomine; e quo lectiones variantes adnotavimus.
Pippinus. Quid est littera?—Albinus. Custos historiae.
P. Quid est verbum?—A. Proditor animi.
P. Quis generat verbum?—A. Lingua.
P. Quid est lingua?—A. Flagellum aeris.
P. Quid est aer?—A. Custodia vitae.
P. Quid est vita?—A. Beatorum laetitia, miserorum moestitia, exspectatio mortis.
P. Quid est mors?—A. Inevitabilis eventus, incerta [0975D] peregrinatio, lacrymae viventium, testamenti firmamentum, latro hominis.
P. Quid est homo?—A. Mancipium mortis, transiens viator, loci hospes.
P. Cui similis est homo?—A. Pomo.
P. Quomodo positus est homo?—A. Ut lucerna in vento.
P. Ubi est positus?—A. Intra sex parietes.
P. Quos?—A. Supra, subtus; ante, retro; dextra laevaque.
353 P. Quot modis variabilis est?—A. Sex.
P. Quibus?—A. Esurie et saturitate; requie et labore; vigiliis et somno.
[0976C] P. Quid est somnus?—A. Mortis imago.
P. Quid est libertas hominis?—A. Innocentia.
P. Quid est caput?—A. Culmen corporis.
P. Quid est corpus?—A. Domicilium animae.
P. Quid sunt comae?—A. Vestes capitis.
P. Quid est barba?—A. Sexus discretio, honor aetatis.
P. Quid est cerebrum?—A. Servator memoriae.
P. Quid sunt oculi?—A. Duces corporis, vasa luminis, animi indices.
P. Quid sunt nares?—A. Adductio odorum.
P. Quid sunt aures?—A. Collatores sonorum.
P. Quid est frons?—A. Imago animi.
P. Quid est os?—A. Nutritor corporis.
P. Quid sunt dentes?—A. Mola [Ms., Molae] [0976D] morsorum.
P. Quid sunt labia?—A. Valvae oris.
P. Quid est gula?—A. Devorator cibi.
P. Quid manus?—A. Operarii corporis.
P. Quid sunt digiti?—A. Chordarum plectra.
P. Quid est pulmo?—A. Servator aeris.
P. Quid est cor?—A. Receptaculum vitae.
P. Quid est jecur?—A. Custodia caloris.
P. Quid est fel?—A. Suscitatio iracundiae.
P. Quid est splenis?—A. Risus et laetitiae capax.
P. Quid est stomachus?—A. Ciborum coctor [Ms., coquator].
P. Quid est venter?—A. Custos fragilium.
[0977A] P. Quid sunt ossa?—A. Fortitudo corporis.
P. Quid sunt coxae?—A. Epistylia columnarum.
P. Quid sunt crura?—A. Columnae corporis.
P. Quid sunt pedes?—A. Mobile fundamentum.
P. Quid est sanguis?—A. Humor venarum, vitae alimentum.
P. Quid sunt venae?—A. Fontes carnis.
P. Quid est coelum?—A. Sphaera volubilis, [culmen immensum].
P. Quid est lux?—A. Facies omnium rerum.
P. Quid est dies!—A. Incitamentum laboris.
P. Quid est sol?—A. Splendor orbis, coeli pulchritudo, naturae gratia, honor diei, horarum distributor.
P. Quid est luna?—A. Oculus noctis, roris larga, [0977B] praesaga tempestatum.
P. Quid sunt stellae?—A. Pictura culminis, nautarum gubernatores, noctis decor.
P. Quid est pluvia?—A. Conceptio terrae, frugum genitrix.
P. Quid est nebula?—A. Nox in die, labor oculorum.
P. Quid est ventus?—A. Aeris perturbatio, mobilitas aquarum, siccitas terrae.
P. Quid est terra?—A. Mater crescentium, nutrix viventium, cellarium vitae, devoratrix omnium.
P. Quid est mare?—A. Audaciae via [Ms., audacia vitae], limes terrae, divisor regionum, hospitium fluviorum, fons imbrium, refugium in periculis, gratia in voluptatibus.
[0977C] P. Quid sunt flumina?—A. Cursus indeficiens, refectio solis, irrigatio terrae.
P. Quid est aqua?—A. Subsidium vitae, ablutio sordium.
P. Quid est ignis?—A. Calor nimius, fotus nascentium, maturitas frugum.
P. Quid est frigus?—A. Febricitas membrorum.
P. Quid est gelu?—A. Persecutio herbarum, perditio [Ms., persecutor. . . perditor] foliorum, vinculum terrae, fons aquarum.
P. Quid est nix?—A. Aqua sicca.
P. Quid est hiems?—A. Aestatis exsul.
P. Quid est ver?—A. Pictor terrae.
P. Quid est aestas?—A. Revestio terrae, maturitio [0977D] frugum.
P. Quid est autumnus?—A. Horreum anni.
P. Quid est annus?—A. Quadriga mundi.
P. Quis ducit [eam?]—A. Nox et dies, frigus et calor.
P. Quis est auriga ejus?—A. Sol et luna.
P. Quot habet palatia?—A. Duodecim.
P. Qui sunt praetores palatiorum?—A. Aries, Taurus, Gemini, Cancer, Leo, Virgo, Libra, Scorpius, Arcitenens [Ms., Sagittarius], Capricornus, Aquarius, Pisces.
P. Quot dies habitat [Ms., habitant] in unoquoque palatio?—A. Sol XXX [dies et decem semis] horas [a [0977D] Vid. epist. Alcuini 83.] . [0978A] Luna duos dies et octo horas, et bisse unius horae.
P. Magister, timeo altum ire.—A. Quis te duxit in altum.
P. Curiositas.—A. Si times, descendam [Ms., descendamus]. Sequar quocunque ieris.
P. Si scirem quid esset navis, praepararem tibi, ut venires ad me.—A. Navis est domus erratica, ubilibet hospitium, viator sine vestigiis, vicina [Ms., vicinus] arenae.
P. Quid est arena?—A. Murus terrae.
P. Quid est herba?—A. Vestis terrae.
P. Quid sunt olera?—A. Amici medicorum, laus coquorum.
P. Quid est, quod amara dulcia facit?—A. Fames.
[0978B] P. Quid est, quod hominem non lassum facit?—A. Lucrum.
354 P. Quid est vigilanti somnus?—A. Spes.
P. Quid est spes?—A. Refrigerium laboris, [dubius eventus].
P. Quid est amicitia?—A. Aequalitas amicorum [Ms., animorum].
P. Quid est fides!—A. Ignotae rei et mirandae certitudo.
P. Quid est mirum?—A. Nuper vidi hominem stantem, mortuum ambulantem [Ms., molientem ambulantem], qui nunquam fuit.
P. Quomodo potest esse, pande mihi?—A. Imago in aqua.
[0978C] P. Cur hoc non intellexi per me, dum toties vidi [hunc ipsum hominem]?—A. Quia bonae indolis es juvenis et naturalis ingenii, proponam tibi quaedam alia mira; tenta, si per teipsum possis conjicere illa.
P. Faciam [Ms., faciemus]; tamen ita, si secus, quam est, dicam, corrigas me.—A. Faciam, ut vis. Quidam ignotus mecum sine lingua et voce locutus est, qui nunquam ante fuit, nec postea erit; et quem non audiebam, nec novi.
P. Somnium te [forte] fatigavit magister?—A. Etiam, fili. Audi et aliud: Vidi mortuos generare vivum, et aura vivi consumpti sunt mortui.
P. De fricatione arborum ignis natus est, consumens [arbores].—A. Verum est. Audivi mortuos [0978D] multa loquentes.
P. Nunquam bene, nisi suspendantur in aere.—A. Vere. Vidi ignem inexstinctum pausare in aqua.
P. Silicem [in aqua significare vis, reor].—A. Ut reris, sic est. Vidi mortuum sedentem super vivum, et in risu mortui mortuus est vivus [Ms., moritur vivus].
P. Hoc coci [Ms., coqui] nostri norunt.—A. [norunt]. Sed pone digitum super os, ne pueri hoc audiant, quid sit. Fui in venatione cum aliis, in qua si quid cepimus, nihil nobiscum portavimus; quem non potuimus capere, domum portavimus nobiscum.
[0979A] P. Rusticorum est haec venatio.—A. est. Vidi quemdam natum, antequam esset conceptus.
P. Vidisti, et forte manducasti.—A. Manducavi. Quid [Ms., Quis] est, qui non est, et nomen habet et responsum dat sonanti?
P. Biblos in silva [Ms., Bilos in silvis] interroga.—A. Vidi hospitem currentem cum domo sua; et ille tacebat, et domus sonabat.
P. Para mihi rete, et pandam tibi.—A. Quis est, quem videre non potes [qui. . . potest], nisi clausis oculis?
P. Qui stertit, tibi ostendit illum.—A. Vidi hominem octo in manu tenentem, et de octonis [subito] rapuit septem, et remanserunt sex.
P. Pueri in scholis hoc sciunt.—A. Quis est, [0979B] cui, si caput abstuleris, altior surgit?
P. Vide [Ms., Vade] ad lectum tuum et ibi invenies.—A. Tres fuere; unus nusquam [Ms., nunquam] natus et semel mortuus. [Alter semel natus, [0980A] nunquam mortuus]. Tertius semel natus et bis mortuus [a [0979] Confer Symposii Aenigma 94, et Bonav. Vulcanii pag. 294.] .
P. Primus aequivocus terrae [Ms., meae]; secundus Deo meo; tertius homini pauperi.—A. Dic tamen primas litteras [nominum].
P. I. V. [Ms. IIII,] 12 XXX.—A. Vidi feminam volantem, rostrum habentem ferreum, et corpus ligneum et caudam pennatam, mortem portantem.
P. Socia militum.—A. Quid est miles?
P. Murus imperii, timor hostium, gloriosum servitium.—A. Quid est quod est et non est?
P. Nihil.—A. Quomodo potest esse et non est [Ms., esse]?
P. Nomine est, et re non est.—A. Quid [Ms., Quis] est tacitus nuncius?
[0980B] P. Quem manu teneo.—A. Quid tenes manu?
P. Epistolam meam [Ms., tuam].—A. Lege feliciter, fili.
Diálogo Entre Pepino e Alcuíno
Alcuíno de York
(tradução e notas: Jean Lauand)
P.: O que é a escrita?
A.: O guarda da história.
P.: O que é a palavra?
A.: A delatora dos segredos da alma.
5 P.: Quem gera a palavra?
A.: A língua.
P.: O que é a língua?
A.: O chicote do ar.
P.: O que é o ar?
10 A.: O guarda da vida.
P.: O que é a vida?
A.: A alegria dos ditosos, aflição dos miseráveis, espera da morte.
P.: O que é a morte?
A.: Um fato inevitável, uma incerta peregrinação, lágrimas dos vivos, confirmação dos testamentos, ladrão do homem [11] .
15 P.: Que é o homem?
A.: Servo da morte, caminhante passageiro, sempre um hóspede em qualquer lugar.
P.: A que é semelhante o homem?
A.: A um fruto [12] .
P.: Qual a condição humana?
20 A.: A de uma candeia ao vento.
P.: Como está ele situado?
A.: Dentro de seis paredes.
P.: Quais?
A.: Acima, abaixo; diante, detrás; direita e esquerda.
25 P.: De quantos modos ele é variável?
A.: De seis modos.
P.: Quais?
A.: Pela fome e saciedade; pelo repouso e trabalho; pela vigília e sono.
P.: O que é o sono?
30 A.: Imagem da morte.
P.: O que é a liberdade do homem?
A.: A sua inocência.
P.: O que é a cabeça?
A.: O cimo do corpo.
35 P.: O que é o corpo?
A.: A morada da alma.
P.: O que é a cabeleira?
A.: A veste da cabeça.
P.: O que é a barba?
40 A.: Distinção do sexo, honra da idade.
P.: O que é o cérebro?
A.: O conservador da memória.
P.: O que são os olhos?
A.: Os guias do corpo, recipientes de luz, indicadores da alma.
45 P.: O que são as narinas?
A.: Os condutos dos aromas.
P.: O que são os ouvidos?
A.: Captadores de sons.
P.: O que é a fisionomia?
50 A.: A imagem da alma.
P.: O que é a boca?
A.: A alimentadora do corpo.
P.: O que são os dentes?
A.: Moinho de morder.
55 P.: O que são os lábios?
A.: As portas da boca.
P.: O que é a garganta?
A.: A devoradora da comida.
P.: O que são as mãos?
60 A.: Os operários do corpo.
P.: O que são os dedos?
A.: Plectro das cordas.
P.: O que é o pulmão?
A.: Depósito de ar.
65 P.: O que é o coração?
A.: Receptáculo da vida.
P.: O que é o fígado?
A.: O guarda do calor.
P.: O que é a bílis?
70 A.: A que suscita a irritação.
P.: O que é o baço?
A.: O que produz a alegria e o riso.
P.: O que é o estômago?
A.: O cozinheiro dos alimentos.
75 P.: O que é o ventre?
A.: O guarda das coisas frágeis.
P.: O que são os ossos?
A.: A fortaleza do corpo.
P.: O que são as coxas?
80 A.: Epistílios das colunas.
P.: O que são as pernas?
A.: As colunas do corpo.
P.: O que são os pés?
A.: Alicerce móvel.
85 P.: O que é o sangue?
A.: Humor das veias, alimento da vida.
P.: O que são as veias?
A.: As fontes da carne.
P.: O que é o céu?
90 A.: Uma esfera que roda sobre si mesma, um imenso teto.
P.: O que é a luz?
A.: A face de todas as coisas.
P.: O que é o dia?
A.: Estímulo ao trabalho.
95 P.: O que é o sol?
A.: O esplendor da terra, a beleza do céu, graça da natureza, a glória do dia, o distribuidor das horas.
P.: O que é a lua?
A.: O olho da noite, doadora de orvalho, aquela que anuncia as tempestades.
P.: O que são as estrelas?
100 A.: A pintura que adorna o céu, piloto dos navegantes, o encanto da noite.
P.: O que é a chuva?
A.: A fecundação da terra, a mãe dos frutos.
P.: O que é a neblina?
A.: Noite do dia, trabalho para os olhos.
105 P.: O que é o vento?
A.: Perturbação do ar, mobilidade das águas, secura da terra.
P.: O que é a terra?
A.: A mãe de tudo o que cresce, a que alimenta os viventes, o celeiro da vida, a devoradora de todos.
P.: O que é o mar?
110 A.: O caminho da coragem, a fronteira da terra, o que separa as regiões, o hospedeiro dos rios, a fonte das chuvas, refúgio nos perigos, encantadores prazeres.
P.: O que são os rios?
A.: Curso que não acaba, refeição do sol, irrigação da terra.
P.: O que é a água?
A.: Sustentáculo da vida, limpeza das sujeiras.
115 P.: O que é o fogo?
A.: Calor excessivo, aquecimento para os que nascem, sazonamento do que germina.
P.: O que é o frio?
A.: O febricitar dos membros [13] .
P.: O que é o gelo?
120 A.: A perseguição das plantas, a perdição das folhas, a prisão da terra, a fonte das águas.
P.: O que é a neve?
A.: Água seca.
P.: O que é o inverno?
A.: O exílio do verão.
125 P.: O que é a primavera?
A.: A pintora da terra.
P.: O que é o verão?
A.: O revestir da terra, o sazonamento do que germina.
P.: O que é o outono?
130 A.: O celeiro do ano.
P.: O que é o ano?
A.: A quadriga do mundo.
P.: E quem a conduz?
A.: A noite e o dia, o frio e o calor.
135 P.: E quem dirige as rédeas?
A.: O sol e a lua.
P.: Quantos são seus palácios?
A.: Doze.
P.: Quem são os governantes dos palácios?
140 A: Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Sagitário , Capricórnio, Aquário e Peixes.
P.: Quantos dias ficam morando em cada palácio?
A.: O sol, 30 dias e 10 horas e meia; a lua, 2 dias, 8 horas e 2/3 de hora.
P.: Mestre, tenho medo de ir ao alto!
A.: Quem te trouxe para o alto?
145 P.: A curiosidade.
A.: Se tens medo, descerei. Eu te seguirei aonde quer que vás.
P.: Se eu soubesse o que é um navio, prepararia um para ti, para que viesses a mim.
A.: Um navio é uma casa errante, é hospedaria em qualquer parte, um viajante que não deixa pegadas, um vizinho da areia.
P.: O que é a areia?
150 A.: O muro da terra.
P.: O que são as ervas?
A.: A veste da terra.
P.: O que são os legumes?
A.: Os amigos dos médicos, o louvor dos cozinheiros.
155 P.: O que é que faz doce o amargo?
A.: A fome.
P.: O que é que faz com que o homem não se canse?
A.: O lucro.
P.: O que é o sonho dos acordados? [14]
160 A.: A esperança.
P.: O que é a esperança?
A.: Refrigério nos trabalhos; evento incerto.
P.: O que é a amizade?
A.: A igualdade das almas; a igualdade dos amigos.
165 P.: O que é a fé?
A.: A certeza das coisas não sabidas e admiráveis.
P.: O que é admirável? [15]
A.: Agora há pouco, vi um homem, em pé, que nunca existiu, um morto andando.
P.: Desvenda-me como pode ser isso.
170 A.: A imagem refletida na água.
P.: Como é que eu, tendo tantas vezes visto isso, não o entendi por mim mesmo?
A.: Já que és um bom rapaz e dotado de natural engenhosidade, vou te propor mais algumas "admiráveis"; provarás se, por ti mesmo, podes adivinhá-las.
P.: Sim e se eu errar, tu me corrigirás.
A.: Farei como desejas. Um desconhecido, sem língua e sem voz, falou comigo; ele nunca existiu, nem existirá. É alguém que não conheço e nem ouviria.
175 P.: Acaso um sonho te importunou, mestre?
A.: Sim, filho, acertaste. Ouve esta agora: vi mortos gerarem um vivo e o hálito do vivo consumiu os mortos.
P.: Esfregando-se galhos secos, nasce o fogo que consome os galhos.
A.: Acertaste. Ouvi mortos falando muitas coisas.
P.: Nunca falaram bem, a não ser quando suspensos no ar.
180 A.: É, é verdade. E eu vi o fogo não apagado repousar na água.
P.: Tu te referes ao sílex, parece-me.
A.: É, é isso mesmo! Vi um morto sentado sobre um vivo e no riso do morto, morreu o vivo.
P.: Isto sabem nossos cozinheiros.
A.: Mas, psst!, põe teu dedo sobre a boca; não aconteça que os meninos ouçam o que é. Fui eu com outros a uma caçada, na qual o que apanhamos não trouxemos conosco e o que não pudemos caçar, sim, trouxemos conosco.
185 P.: É a caçada dos camponeses, não é?
A.: É. Vi o que nasceu, antes de ser concebido.
P.: Viste e talvez comeste.
A.: Comi. O que é o que não é e tem nome e responde a quem faz barulho?
P.: Pergunta aos papiros na floresta.
190 A.: Vi um morador correndo junto com sua casa; ele calava, mas ela fazia barulho.
P.: Prepara-me uma rede e eu to mostrarei.
A.: Quem é o que não podes ver, senão de olhos fechados?
P.: O que dorme profundamente indicar-te-á.
A.: Vi um homem com oito na mão; de oito, tirou sete e ficou com seis.
195 P.: As crianças, na escola, sabem isso.
A.: O que é que sem cabeça fica maior?
P.: Vai a tua cama e descobrirás.
A.: Eram três: um, nunca nasceu e morreu uma vez; outro, nasceu uma vez e nunca morreu; o terceiro, nasceu uma vez e duas vezes morreu.
P.: O primeiro é homônimo da terra; o segundo, do meu Deus; o terceiro, do homem pobre.
200 A.: Dize as iniciais dos nomes.
P.: 1, 5 e 12 [16] .
A.: Vi uma mulher voando, ela tem o bico de ferro, o corpo de madeira, a cauda emplumada e é portadora da morte.
P.: É a companheira dos soldados.
A.: Que é o soldado?
205 P.: A muralha do Império, o pavor do inimigo, um serviço glorioso.
A.: O que é que é e que não é?
P.: O nada.
A.: E como pode ser e não ser?
P.: É enquanto palavra; não é, enquanto realidade.
210 A.: Quem é o mensageiro mudo?
P.: O que tenho aqui comigo.
A.: O que tens aí contigo?
P.: Uma carta tua.
A.: Que a leias com proveito, filho.
(*) Pippini regalis et nobilissimi juvenis disputatio cum Albino scholastico, PL 101, 975-980.
(1) Cf. D. Andreae Quercetani Praefatio ad Beatum Alcuinum; PL 100, 116, B.
(2) SABATIER, R. "Un dialogue sous Charlemagne" La Table Ronde, 112, abr. 1957, p. 66.
( 3) O leitor saberá avaliar melhor a grandiosidade do texto, se experimentar dar - também ele -, em breves palavras, respostas às questões fundamentais sobre o homem e o mundo, que são propostas na Disputatio.
(4) PIEPER, J. Scholastik. 2ª ed., München, DTV, 1981, p. 104.
(5) Do próprio Alcuíno é uma coletânea de divertidos problemas "para aguçar a inteligência dos jovens". Além do mais, as adivinhas serviam de modelo para o claro-escuro da fé.
(6) Epístola 101, in PL 100, 314, C.
(7) O ovo "nasce" e só então "gera" o pintinho. Cf. CCL 133A, p. 554 ("Eu [o ovo] sou a mãe que não posso conceber (o pintinho) a não ser que permaneça virgem" etc.); CCL 133, p. 248 e CCL 133A, p. 635 (De ovo, De pullo e Pullus in ovo).
(8) Cf. CCL 133A, p. 719. A resposta de Pepino é mais enigmática que a pergunta.(9) Nos antiquíssimos Ioca Monachorum encontram-se as raízes desta e de outras adivinhas que subsistem até hoje. Na nossa poesia tradicional sertaneja, aparece algo semelhante: "Um homem houve no mundo (Abel - nota nossa) / Que sem ter culpa morreu / Nasceu primeiro que o pai (Adão não nasceu - nota nossa) /Sua mãe nunca nasceu / Sua avó esteve virgem (A terra, da qual Adão foi feito - nota nossa) / Até que o neto morreu" (apud CÂMARA CASCUDO, Luís Vaqueiros e Cantadores, Rio de Janeiro, Ed. de Ouro, 1968, p. 165). E reaparece ainda, na tradicionalíssima História da Donzela Teodora (CÂMARA CASCUDO, pp. 165 e 31). E explica o folclorista: "A avó é a terra que foi violada pela primeira sepultura (a de Abel)". Ora, nos Ioca Monachorum, lemos: "Quem morreu e não nasceu? - Adão" "Quem deflorou a própria avó? - Abel" (PLS 4, 928).
(10) Para uma ilustração da loquela digitorum, ver QUACQUARELLI, A. "Al margine dell'actio: la loquela digitorum" Vetera Christianorum, ano 7, 1970, fasc. 1.(13) Frigorificus é o que tem febre (cf., por exemplo, Gregório de Tours in PL 71, 711C ou 325A ou 771B. Devo esta observação, e a seguinte, ao saudoso D. João Mehlmann O.S.B.
(14) "Louvo aquele que disse que as esperanças são os sonhos dos acordados", diz também ANTONIUS MELISSA PG 136, 788C. A formulação é atribuída a Aristóteles (DIÓGENES LAÉRCIO, De vitis phil., 1.5, I, 11,18).(15) Mirum, admirável, designa também adivinha.
(16) O original, provavelmente enganado, diz 1, 4 e 12.