Rosvita e o Restabelecimento
do Teatro no Ocidente(trad. e introdução L.J. Lauand)
O teatro medieval - como também a Idade Média em geral - continua pouco conhecido. Conhece-se, sim, o teatro grego, o latino e o moderno; o medieval, não. Quem, por exemplo - apesar de sua extrema importância histórica - já ouviu falar da peça Sabedoria e de sua autora, a monja Rosvita de Gandersheim [1] , do século X?
No entanto, quem superar a ignorância do preconceito e, com um pouco de abertura, fizer o esforço de compreensão para vencer a barreira de mil anos de distância, deparará um mundo diferente e inesperado, em que reina o popular, com seus nítidos contrastes; assistirá a uma aula de matemática do século X, encontrará mulheres cultas e esclarecidas, um delicioso senso de humor e uma encantadora simplicidade...
Rosvita é figura de extraordinária importância para a história do teatro: trata-se de nada menos do que a autora do restabelecimento da composição teatral no Ocidente! Pois, desde os primeiros séculos, os espetáculos em geral e o teatro em particular (dado o modo como se realizava o teatro romano...), eram vistos por muitos cristãos com desconfiança [2] .
Sendo o referencial de teatro, a "escabrosa" comédia latina de Plauto e Terêncio, compreende-se que seja surpreendente que, em pleno século X, o teatro seja reassumido pelos cristãos, por uma mulher, e mais, por uma monja que se propõe imitar Terêncio!
Imitar para inverter! Começa Rosvita o prefácio a suas peças, registrando o fato de que há muitos cristãos que, pela beleza formal, lêem Terêncio e assim se mancham com o conteúdo vão e imoral dessas peças. E que, por isso, ela ("eu, a voz forte da abadia de Gandersheim") não se furtará ao trabalho de compor um teatro novo: calcado em Terêncio, mas apresentando valores cristãos.
Trata-se - diz o grande medievalista Étienne Gilson - do começo do teatro cristão [3] . Schneiderhan afirma que devemos a Rosvita, os primeiros dramas compostos na Alemanha [4] , no que é complementado pelo crítico Jacques de Ricaumont: as peças de Rosvita "são o mais antigo monumento de todo o teatro europeu" [5] .
A "voz forte de Gandersheim" soube perceber que o teatro em si não é mau, soube reconhecer o talento genial de Terêncio; simplesmente propõe correções quanto ao rumo do teatro latino: "non recusavi illum imitari dictando"; soube imitá-lo, substituindo o triunfo do lúbrico por uma visão cristã [6] .
Como diz Jacques de Ricaumont, não possuímos, sobre essa ilustre mulher, outros dados senão os que ela mesma nos legou em seus prefácios e cartas: que entrou para o mosteiro de Gandersheim com 23 anos e, muito cedo, começou a escrever. Nasceu por volta do ano 935 e morreu pouco depois do ano 1000. Foi aluna de sábias monjas, como Ricarda e Gerbirga.
Escreveu oito poemas e seis peças de teatro, todos de cunho religioso, além das Gestas de Otão I e de Crônicas de Gandersheim. Sua obra obteve os mais altos elogios dos homens mais eminentes de seu tempo.
Sobre o enredo de "Sabedoria"
É a história de Santa Sabedoria (Santa Sofia) e de suas três filhas chamadas Fé (Pístis, em grego), Esperança (Elpís) e Caridade (Ágape), que são denunciadas por Antíoco ao Imperador Adriano, acusadas de praticar a religião cristã. As meninas (de doze, dez e oito anos, respectivamente) são interrogadas e, pela persistência na fé, são sucessivamente martirizadas [7] . Por fim, Cristo atende às preces da mãe e leva-a também para o Céu.
Essa história não foi inventada por Rosvita; ela simplesmente adaptou para o teatro, algo que já existia de há muito. Aliás, no séc. X, celebrava-se liturgicamente a festa das Santas Sabedoria, Fé, Esperança e Caridade. O mais famoso relato do martírio dessas santas - festa do dia 1º de agosto - procede do célebre contemporâneo de Rosvita, Simeão Metafraste, que é "une sorte d'abbé Migne de l'époque (séc. X)" [8] .
Quanto ao problema da existência histórica das quatro santas, Mario Girardi faz notar a sua ausência nos calendários e martirológios mais antigos, o que, junto com outras razões, "dificilmente deixa de levar à conclusão de estarmos diante de uma personificação da Sabedoria divina e das três virtudes teologais" [9] .
Em relação às outras versões da história de Santa Sofia, a de Rosvita apresenta alguns pontos originais, como o estabelecimento das idades das meninas em doze, dez e oito anos (doze, dez e nove nos demais relatos). Pois, com os números 12, 10 e 8, pode Rosvita desenvolver a "aula" de matemática em III, 30-50, que é também algo especificamente rosvitiano.
Ao contrário da versão metafrástica [10] , Rosvita dá às suas heroínas certos traços de monjas (embora a ação se passe no século II e, portanto, anterior às instituições monásticas!) [11] .
Como indicávamos, a história de Santa Sabedoria e suas filhas é alegórica, "una leggenda" [12] : uma alegoria da Divina Sabedoria e das virtudes teologais. O caráter alegórico é, aliás, típico de toda estética medieval. Assim, a Sabedoria não premedita o que vai dizer ante os inimigos de Cristo (III, 2). É o que se lê em Lc 21, 14-15: "... não premediteis ... eu vos darei boca e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir etc.".
E a Fé precede a Esperança e a Caridade, tanto na ordem das virtudes, quanto, como personagens, no desenrolar da peça. Esperança - tanto a personagem como a virtude alegorizada - tem seus olhos fixos no futuro e no prêmio (IV, 4; IV, 10; V, 104; etc.). Sabedoria é bela, brilhante (III, 7; III, 22 - Sab 6, 12) e destemida (II,4 - Prov 3, 25-26). A Fé sabe que a idolatria é ridícula insensatez (V, 23 - e, p. ex. , Sab. 15, 14 e ss.)
O leitor familiarizado com a Bíblia, encontrará no texto da peça muitas outras passagens da Sagrada Escritura, alegorizadas ou não.
Outros aspectos da peça
Genuinamente medieval é o caráter popular [13] , que transparece em Rosvita! Atente-se, por exemplo, para as provocações com que as meninas, fazendo careta, desafiam o Imperador (por exemplo, V, 15-25, etc.). E, como sempre se dá no popular, oscila-se do cômico ao trágico e do trágico ao cômico; com enredo simples e emoções vivas. Pode-se supor - tal como se dá, ainda hoje, entre a gente simples do povo - que o público participaria animando e aplaudindo as heroínas e manifestando ruidosamente seu desagrado ante a conduta dos vilões. Nessa mesma linha, afirma Geisenheymer que o teatro medieval não se importava muito com o que chamaríamos hoje de "efeitos especiais" (como, por exemplo, a "explosão" em VI, 6) e sim, com o realismo dos objetos e cenas do quotidiano: pão, peixe, leite [14] .
O teatro de Rosvita volta-se para a educação. Como se sabe, o ensino, numa primeira fase da Idade Média, era ministrado quase que exclusivamente nos mosteiros. O currículo era basicamente constituído pelas sete artes liberais (III, 49), entre elas a Aritmética que, como tudo na época, é diretamente referida ao Criador (III, 49). Um momento da peça, especialmente importante para a História da Educação, ocorre quando, com claros propósitos didáticos, Rosvita brinda-nos com uma aula de Matemática em III, 31 e ss. Quando o Imperador pergunta a idade das meninas, Sabedoria aproveita para desenvolver conceitos - fundamentais para a época -, extraídos do De Arithmetica de Boécio (PL 63, 1085-1089):
número parmente par - são as nossas potências de 2.
parmente ímpar - o dobro de um número ímpar.
imparmente par - produto de um ímpar por um parmente par.
denominação e quantidade - são os fatores de um produto.
número perfeito - é um número n, tal que a soma de seus divisores (a menos do próprio n) dá n. Se essa soma for maior do que n, o número diz-se excedente; se menor, deficiente.
Rosvita sabe - o que pode surpreender os que ignoram a história da matemática medieval - que 6, 28, 496 e 8128 são perfeitos. E conhece o critério para a geração de números perfeitos:
p = (2n - 1). 2n-1 será perfeito, se (2n - 1) for primo.
Quanto à encenação da peça, a autora tem a preocupação de que as crianças (e havia meninas de oito, dez e doze anos nos mosteiros...) tenham poucas falas, curtas e fáceis de decorar. Assim, enquanto Sabedoria (e demais personagens adultas) fala muito e muitas vezes, as falas infantis são literalmente proporcionais à idade: Fé: doze anos, 24 falas; Esperança: dez anos, 20 falas; Caridade: oito anos, 16 falas.
Note-se, também, que Rosvita é uma espécie de feminista avant la lettre. Não é por acaso, que ela apresenta suas personagens femininas como belas, fortes e cultas, enquanto os homens são rudes e ignorantes. Na peça, as referências masculinas à fraqueza das mulheres ("E acaso a chegada de umas pequeninas mulherzinhas pode causar algum detrimento ao Estado?" I, 10; ou "a fragilidade do sexo feminino..." III, 10; etc.) só fazem ressaltar o fato de que, para a autora, a mulher em nada fica atrás do homem [15] .
Rosvita conhece toda a cultura secular de seu tempo e também a Teologia: a prece final da Cena IX é todo um compêndio teológico (incluindo a célebre fórmula do Símbolo de Atanásio, "perfectus Deus, perfectus homo" e o famoso qüiproquó (no caso, quiproquod, "qui em vez de quod") cristológico: "a Ti que não sendo o mesmo que o Pai - assim reza Sabedoria - és igual ao Pai" (non ipse qui Pater, sed idem es quod Pater). Já em Sedúlio aparece essa controvérsia: "Non quia qui summus Pater est, et Filius hic est sed quia quod summus Pater est et Filius hoc est" [16] ).
Observe-se, finalmente, a contribuição cristã (em III, 19), quando Santa Sabedoria afirma que a nobreza do sangue é de pouca importância para os cristãos (cfr. Col 3, 11).
SABEDORIA
Rosvita de Gandersheim
Enredo da peça: Paixão das santas virgens Fé, Esperança e Caridade. Foram levadas à morte pelos diversos suplícios, a que as submeteu o Imperador Adriano em presença da sua santa mãe, Sabedoria, que, com seus maternos conselhos, as exortou a suportar os sofrimentos. Consumado o martírio, sua santa mãe, Sabedoria, tomou de seus corpos e, ungindo-os com bálsamo, deu-lhes sepultura de honra a três milhas de Roma. Ela, por sua vez, no quarto dia, após a oração sacra, enviou também seu espírito ao céu [17] .
PERSONAGENS: Antíoco, Adriano, Sabedoria, Fé, Esperança, Caridade e Matronas.
CENA I
ANT.: Desejando vivamente que tenhais, ó Imperador Adriano, grande poder, florescendo em próspero sucesso e que possais imperar sem perturbações e triunfante, anseio por que seja erradicado e, o quanto antes, completamente despedaçado, tudo quanto julgo que possa abalar o Estado ou ferir a tranqüilidade do espírito.
ADR.: E com razão o fazes, pois nossa prosperidade é também a tua felicidade, já que continuamente temos te honrado com os mais altos graus de dignidade.
ANT.: Regozijo-me com vossa benignidade. E se sei que se levanta algo que possa se opor a vosso poder, não o oculto, mas, sem demora, o declaro.
ADR.: E com razão o fazes. Não se dê o caso de seres acusado de crime de lesa-majestade, por ocultar o que não deve ser ocultado.
05 ANT.: Nunca fui culpado desse tipo de falta.
ADR.: Bem sei! Mas, apresenta o que tens de novo.
ANT.: Trata-se de certa mulher estrangeira que chegou recentemente a esta cidade, acompanhada de suas três criancinhas.
ADR.: De que sexo são as crianças?
ANT.: Todas são do sexo feminino.
10 ADR.: E acaso a chegada de umas pequeninas mulherzinhas pode causar algum detrimento ao Estado?
ANT.: E dos grandes, majestade.
ADR.: Qual?
ANT.: O fim da ordem.
ADR.: Como assim?
15 ANT.: O que é que pode perturbar mais a concórdia do povo que a divergência de culto?
ADR.: Nada pior, nada mais grave - como o atesta o orbe Romano - que, quase em toda parte, é infestado pela imundície da peste cristã.
ANT.: Pois esta mulher de que falo, anda exortando a abandonar os ritos de nossos maiores e induz à prática da religião cristã.
ADR.: Não bastará admoestá-la?
ANT.: E veementemente. Pois nossas esposas, desdenhando-nos, nos desprezam a tal ponto, que não se dignam a comer conosco e, menos ainda, a dormir conosco.
20 ADR.: De fato, é caso perigoso!
ANT.: Convém que vos previnais.
ADR.: De acordo. Que ela seja chamada à nossa presença e verificaremos se ela não quer ceder e voltar atrás em suas posições.
ANT.: Devo chamá-la?
ADR.: Claro que sim!
CENA II
ANT.: Como te chamas, ó estrangeira?
SAB.: Sabedoria.
ANT.: O Imperador Adriano ordena que compareças ao palácio em sua presença.
SAB.: Não tenho receio de, na nobre companhia de minhas filhas, ir o palácio e não tremo ante a ameaça de defrontar-me, cara a cara, com o Imperador.
05 ANT.: A odiosa raça dos cristãos sempre está pronta a resistir às autoridades.
SAB.: Aquele que governa todas as coisas, Aquele que não conhece derrota, não permite que os seus sejam vencidos pelo inimigo.
ANT.: Modera teu palavreado e dirige-te ao palácio.
SAB.: Vai na frente, mostrando o caminho: nós te seguiremos a passo rápido.
CENA III
ANT.: Este que vês no trono, é o Imperador. Pensa bem no que vais falar.
SAB.: Isto nos é proibido pela palavra do Senhor que nos prometeu os insuperáveis dons da Sabedoria.
ADR.: Então, estás aqui Antíoco!
ANT.: Às vossas ordens, senhor!
05 ADR.: Acaso são estas, as mulherzinhas que denunciavas por causa da religião cristã?
ANT.: Exatamente, são elas!
ADR.: Estou estupefato diante da beleza de cada uma delas, e não sou capaz de deixar de admirar seu porte pleno de dignidade.
ANT.: Deixai de admirar, meu senhor, e obrigai-as a adorar os deuses.
ADR.: Que tal se antes nos dirigirmos a elas com palavras brandas? Talvez elas queiram ceder.
10 ANT.: É melhor. Pois a fragilidade do sexo feminino mais facilmente amolece com palavras suaves.
ADR.: Ilustre matrona, com bons modos convido-te a dar culto aos deuses, para que possas gozar de nosso favor.
SAB.: Não pretendo de modo algum prestar culto a teus deuses, nem morro de vontade de ganhar o teu favor.
ADR.: Até aqui, refreei minha ira, e não me movi de indignação contra ti. Antes, pelo teu bem e o de tuas filhas, adoto uma conduta de amor paterno.
SAB.: (sussurrando) Não vos deixeis, minhas filhas, enganar pelas seduções ardilosas desse Satanás; antes, fazei como eu: rejeitai-as.
15 FÉ: Rejeitamos e, valorosamente, desprezamos essas coisas frívolas.
ADR.: Que é que tu estás cochichando?
SAB.: Falava um pouco a minhas filhas.
ADR.: Pareces ser de alta estirpe, mas quero saber com mais exatidão sobre tua pátria, tua família e teu nome.
SAB.: Embora a nobreza do sangue seja, entre nós, de pouca importância, no entanto, não nego ter uma origem ilustre.
20 ADR.: O que não me surpreende.
SAB.: Pois, de fato, foram meus pais os mais eminentes gregos e meu nome é Sabedoria.
ADR.: A nobreza refulge em teu rosto e a sabedoria do nome brilha na face.
SAB.: Em vão bajulas, não nos dobramos a tuas falas persuasivas.
ADR.: Dize, que vieste fazer entre nós?
25 SAB.: Nenhuma outra coisa a não ser conhecer a doutrina da verdade, para o aprendizado mais pleno da fé que combateis e para consagrar minhas filhas a Cristo.
ADR.: Dize os nomes delas.
SAB.: A primeira se chama Fé; a segunda, Esperança; a terceira, Caridade.
ADR.: Quantos anos têm?
SAB.: (sussurrando) Agrada-vos, ó filhas que perturbe com um problema aritmético a este tolo?
30 FÉ: Claro, mamãe. porque nós também ouviremos de bom grado.
SAB.: Ó Imperador, se tu perguntas a idade das meninas: Caridade tem por idade um número deficiente que é parmente par; Esperança, também um número deficiente, mas parmente ímpar; e Fé, um número excedente mas imparmente par.
ADR.: Tal resposta me deixou na mesma: não sei que números são!
SAB.: Não admira, pois, tal como respondi, podem ser diversos números e não há uma única resposta.
ADR.: Explica de modo mais claro, senão não entendo.
35 SAB.: Caridade já completou 2 olimpíadas; Esperança; 2 lustros; Fé, 3 olimpíadas.
ADR.: E por que o número 8, que é 2 olimpíadas, e o 10, que é 2 lustros são números deficientes? E por que o 12, que perfaz 3 olimpíadas, se diz número excedente?
SAB.: Porque todo número, cuja soma de suas partes (isto é, seus divisores) dá menor do que esse número, chama-se deficiente, como é o caso de 8. Pois os divisores de 8 são: sua metade - 4, sua quarta parte - 2 e sua oitava parte - 1, que, somados, dão 7. Assim também o 10, cuja metade é 5, sua quinta parte é 2 e sua décima parte, 1. A soma das partes do 10 é portanto, 8, que é menor do que 10. Já, no caso contrário, o número diz-se excedente, como é o caso do 12. Pois sua metade é 6, sua terça parte, 4, sua quarta parte, 3, sua sexta parte, 2 e sua duodécima parte, 1. Somadas as partes, temos 16. Quando, porém, o número não é excedido nem inferado pela soma de suas diversas partes, então esse número é chamado número perfeito. É o caso do 6, cujas partes - 3, 2, e 1 - somadas, dão o próprio 6. Do mesmo modo, o 28, 496 e 8128 também são chamados números perfeitos.
ADR.: E quanto aos outros números?
SAB.: São todos excedentes ou deficientes.
40 ADR.: E o que é um número parmente par?
SAB.: É o que se pode dividir em duas partes iguais e essas partes em duas iguais, e assim por diante, até que não se possa mais dividir por 2, porque se atingiu o 1 indivisível. Por exemplo, 8 e 16 e todos que se obtenham a partir da multiplicação por 2, são parmente pares.
ADR.: E o que é parmente ímpar?
SAB.: É o que se pode dividir em partes iguais, mas essas partes já não admitem divisão (por 2). É o caso do 10 e de todos os que se obtêm, multiplicando um número ímpar por 2. Difere, pois, do tipo de número anterior, porque naquele caso, o termo menor da divisão é também divisível; neste, só o termo maior é apto para a divisão.
No caso anterior, tanto a denominação, como a quantidade, são parmente pares; já aqui, se a denominação for par, a quantidade será ímpar; se a quantidade for par, a denominação será ímpar.
ADR.: Não sei o que é isto de denominação e quantidade.
45 SAB.: Quando os números estão em "boa ordem", o primeiro se diz menor e o último, maior. Quando, porém, se trata da divisão, a denominação é quantas vezes o número se der. Já o que constitui cada parte é o que chamamos quantidade.
ADR.: E o que é imparmente par?
SAB.: É o que - tal como o parmente par - pode ser dividido não só uma vez, mas duas e, por vezes, até mais. No entanto, atinge a indivisibilidade (por 2) sem chegar ao 1.
ADR.: Oh! que minuciosa e complicada questão surgiu a partir da idade destas menininhas!
SAB.: Nisto deve-se louvar a supereminente sabedoria do Criador e a Ciência admirável do Artífice do mundo: pois, não só no princípio criou o mundo do nada, dispondo tudo com número, peso e medida, como também nos deu a capacidade de poder dispor de admirável conhecimento das artes liberais, até mesmo sobre o suceder do tempo e das idades dos homens.
50 ADR.: Muito agüentei a tua "calculeira" para fazer com que me obedeças.
SAB.: Em que?
ADR.: No culto aos deuses.
SAB.: Nisto, certamente não consinto.
ADR.: Se teimares, sofrerás torturas.
55 SAB.: O corpo sim, podes fustigar com suplícios; mas a alma, não conseguirás forçar a ceder.
ANT.: O dia já se finda e vem a noite; não é tempo de querelas pois já é hora de cear.
ADR.: Ponham-nas sob guarda ao lado do palácio e sejam-lhes dados três dias de trégua para pensar no assunto.
ANT.: Vigiai-as, ó soldados, com toda solicitude: não lhes deis nenhuma ocasião de escapar.
CENA IV
SAB.: Ó doces crianças, filhinhas queridas, não vos entristeçais com as angústias do cárcere, nem vos aterrorizeis com a iminência de sofrimentos ameaçadores.
FÉ: Ainda que nossos pequenos corpos tremam de medo, a alma anseia pelo prêmio.
SAB.: Vencei com a fortaleza do senso de maturidade, o que os vossos tenros anos não vos dão.
ESP.: É teu papel ajudar-nos com tuas preces, para que possamos triunfar.
05 SAB.: Isto é o que continuamente rogo a Deus: que persevereis na fé que, já desde o tempo em que brincáveis com chocalhos, vos tenho instilado na inteligência.
CAR.: Não esqueceremos o que aprendemos desde o tempo em que mamávamos nos nossos bercinhos.
SAB.: Para isto, dei-vos o leite materno, com tanto carinho vos nutri: para vos dar ao Esposo celestial, não terreno; para que, por vós, seja eu digna de ser sogra do eterno Rei.
FÉ: Por Seu amor, estamos prontas a enfrentar a morte.
SAB.: Quanto me delicia, mais que o doce sabor do néctar, ouvir-vos.
10 ESP.: Leva-nos diante do juiz e verás quanto o amor dEle nos dá coragem.
SAB.: Isto eu desejo: que pela vossa virgindade seja eu coroada; pelo vosso martírio, seja eu glorificada.
CAR.: Unindo nossas palmas, vamos desconcertar o tirano.
SAB.: Esperai até que se cumpra nossa hora.
FÉ: Aborrece-nos a demora: mas se temos de esperar, esperemos.
CENA V
ADR.: Antíoco, traz aquelas greguinhas prisioneiras.
ANT.: Anda, Sabedoria, apresenta-te com tuas filhas ao Imperador.
SAB.: Vinde comigo, filhas, sede fortes e perseverai unânimes na fé, para que possais, com êxito, receber a palma.
ESP.: Vamos, Aquele, por cujo amor somos conduzidas à morte, vai conosco.
05 ADR.: Três dias de trégua, por minha benevolência, vos foram concedidos. Se pensastes, pois, com senso, submetei-vos a nossas ordens.
SAB.: Estivemos considerando sobre o que nos é de suma importância: não vamos ceder.
ANT.: Como Vossa Majestade se digna conversar com essa mulher contumaz, que vos aborrece?
ADR.: Devo deixá-la impune?
ANT.: De modo algum.
10 ADR.: E então?
ANT.: Exortai as menininhas e, se teimarem, não as poupeis por serem crianças, mas leve-as à morte. E assim, matando as filhas, mais amargamente torturareis a mãe rebelde.
ADR.: Farei o que aconselhas.
ANT.: Assim estará por certo a salvo a autoridade.
ADR.: Fé, olha para aquela venerável imagem de Diana e oferece libações à deusa, para que possas valer-te da graça que ela dispensa.
15 FÉ: Ó tola ordem do Imperador, é digna de todo o desprezo!
ADR.: Que é isto que murmuras zombando? De quem troças com essas caretas, menina?
FÉ: Zombo de tua estupidez. Faço troça da tua burrice.
ADR.: Zombas de mim?!?!
FÉ: É! De ti!
20 ADR.: De mim, o Imperador?
FÉ: O próprio.
ANT.: Ó sacrilégio!!
FÉ: Que, então, seria mais tolo; que mais insensato pode haver do que nos exortar a desprezar o Criador do Universo e a adorar metal?
ANT.: Olha que é suma loucura dizer que o que o Imperador falou é estúpido e tolo.
25 FÉ: Disse e digo e direi, enquanto viver.
ANT.: Olha que vais viver pouco tempo, hein?! Logo receberás a morte.
FÉ: Morrer em Cristo é a minha determinação.
ADR.: Que doze centuriões se revezem, rasgando-lhe as carnes com chicote.
ANT.: Assim é justo!
30 ADR.: Ó valentes centuriões, vinde fazer justiça a essa injúria.
ANT.: É justo!
ADR.: Interroga-a, Antíoco, vê se ela quer ceder.
ANT.: Queres ainda, Fé, como é próprio de petulantes, ultrajar a proposta do Imperador?
FÉ: E por que não?
35 ANT.: Para evitar os açoites.
FÉ: Os açoites não me obrigam a calar porque não me impressiona a dor.
ANT.: Ó desgraçada teimosia, ó audácia contumaz!
ADR.: O corpo fende-se com suplícios e a alma dela incha-se de arrogância.
FÉ: Erras, Adriano, se julgas dobrar-me com suplícios. Não serei eu, mas os pobres torturadores que desfalecerão e jorrará o seu suor de tanto cansaço.
40 ADR.: Antíoco, que se lhe sejam cortados os bicos dos seios; que, ao menos, seja ela coibida pelo rubor.
ANT.: Talvez assim consigamos coagi-la a ceder.
ADR.: É, talvez assim a forcemos a ceder.
FÉ: Feriste meu inviolado peito, mas não me atingiste: eis que em vez de fonte de sangue, brota o leite.
ADR.: Que seja posta na grelha, sobre o fogo. Que morra pela força das chamas!
45 FÉ: Tudo o que preparas para atormentar, torna-se, para mim, sereno repouso; por isso, tranqüilamente, vou para a caldeira como se fosse uma plácida barquinha.
ADR.: Que se ponha sobre o fogo, um tacho cheio de pixe e cera ardentes e nesse líqüido fervente lançai a rebelde!
FÉ: Pode deixar que eu pulo sozinha.
ADR.: Muito bem, de acordo.
50 FÉ: Onde estão tuas ameaças? Eis que, ilesa, brinco, nadando no meio deste líqüido fervente e, em lugar de calor escaldante, sinto como que um refrescante orvalho da manhã.
ADR.: Antíoco, o que faremos com ela?
ANT.: Não podeis tolerar que escape assim sem mais.
ADR.: Seja-lhe cortada a cabeça.
ANT.: É o único jeito.
55 FÉ: Agora sim, alegro-me; agora, em Deus, exulto!
SAB.: Cristo, que triunfaste sobre o demônio, dá forças à minha filha Fé.
FÉ: Ó mãe venerável! Saúda pela última vez tua filha, oferece teu beijo à tua primogênita. Que não haja sombra de tristeza em teu coração, pois vou para o prêmio da eternidade.
SAB.: Ó filha, filha, não me desfaço, nem me entristeço, mas, exultante, digo-te adeus e beijo-te a boca e os olhos e, de júbilo, oro chorando. Que no golpe com que te ferirão, guardes intacto o mistério de teu nome.
FÉ: Ó irmãs, oferecei-me o ósculo da paz e preparai-vos para suportar, também vós, estas batalhas.
60 ESP.: Ajuda-nos com tuas preces, para que sejamos dignas de seguir teus passos.
FÉ: Guardai os conselhos de nossa santa mãe, quando nos exortava a desprezar as coisas presentes para merecer as eternas.
CAR.: De bom grado, seguiremos os conselhos de mamãe para gozarmos da felicidade eterna.
FÉ: Carrasco, vem e cumpre teu ofício, matando-me.
SAB.: Abraçada à cabeça de minha filha morta e, repetidas vezes beijando-lhe os lábios, agradeço-te, Cristo, por concederes o triunfo a uma criança tão pequena.
65 ADR.: Esperança, cede às exortações que, com afeto de pai te proponho.
ESP.: O que é que me aconselhas, o que é que me propões?
ADR.: Que evites a teimosia de imitar a tua irmã, não vás querer as mesmas penas que ela sofreu.
ESP.: Oxalá fosse eu digna de imitá-la sofrendo, para assim imitá-la também no prêmio.
ADR.: Renuncia à cabeça dura e curva-te, incensando a grande Diana e eu te tomarei como minha própria filha, educando-te com todo o amor.
70 ESP.: Que eu ceda?! Falsa esperança! Não tenho o menor interesse nos benefícios que me possas dar e, menos ainda, em ter-te por pai.
ADR.: Fala menos! Olha que eu me irrito!
ESP.: Podes irritar-te, não me incomodo.
ANT.: Eu me admiro, ó Augusto, como podeis suportar que esta vil menininha, durante tanto tempo, vos insulte. Eu, de minha parte, arrebento-me de furor ao vê-la latir contra Vossa Majestade assim, tão temerariamente.
ADR.: Até aqui, poupava-a por ser criança; mas, agora, não a pouparei; dar-lhe-ei o castigo merecido.
75 ANT.: Assim é que se fala, Majestade!
ADR.: Vinde, ó litores, e surrai esta rebelde com duros chicotes até à morte.
ANT.: É bom que sinta a severidade de vosso furor, porque despreza a brandura de vossa piedade, senhor!
ESP.: Quero esta brandura; é esta piedade que espero.
ADR.: Ó Sabedoria! Que é que estás aí sussurrando de olhos elevados ao céu, junto ao cadáver de tua filha morta?
80 SAB.: Peço ao Criador que não deixe de dar a Esperança as mesmas forças que deu a Fé.
ESP.: Ó mamãe, mamãe, quão eficazes, quão ouvidas sinto que foram tuas preces. Eis que, orando tu, os demônios torturadores me desferem golpes, mas eu já não sinto as dores.
ADR.: Se fazes pouco dos flagelos, serás submetida a penas mais duras.
ESP.: Dá-me tudo que de cruel maquinas, pois quanto mais crueldade, tanto mais ficarás desconcertado em tua derrota.
ADR.: Que seja dilacerada com ganchos e suspendei-a no ar até que lhe jorrem as vísceras e, com os ossos expostos, desfaleça e seus membros se rachem.
85 ANT.: Assim deve ser feito: é a ordem do Imperador e deve ser plenamente cumprida.
ESP.: Falas com a manha de uma raposa e adulas, ó Antíoco, com dissimulada astúcia.
ANT.: Cala a boca, desgraçada! Teu falatório vai acabar já, já.
ESP.: Não ocorrerá como esperas, mas haverá desconcerto para ti e para teu Imperador.
ADR.: Que é este doce aroma? Que magnífica suavidade é esta que sinto?
90 ESP.: Os golpes que embalde caíram no meu dilacerado corpo, produzem este aroma de fragrância paradisíaca, com o que, embora sem querer, és obrigado a confessar que não posso ser atingida pelos tormentos.
ADR.: Antíoco, que devo fazer?
ANT.: Aplicai-lhe mais torturas, Majestade.
ADR.: Lançai-a, amarrada, num vaso de cobre cheio de óleo, gordura, cera e breu e ponde-o sobre o fogo.
ANT.: Entregue ao direito de Vulcano, não achará jeito de escapar.
95 ESP.: Este poder em Cristo não é incomum: que o fogo transforme sua natureza e se torne suave.
ADR.: Que é isto, Antíoco? Ouço um som como de inundação.
ANT.: Ai, ai, ai, senhor!
ADR.: Que é que aconteceu?
ANT.: O calor da ebulição quebrou o vaso e queimou os nossos servidores, enquanto aquela maléfica menina ficou ilesa.
100 ADR.: Reconheço que estamos vencidos.
ANT.: Completamente.
ADR.: Seja-lhe cortada a cabeça.
ANT.: Não há outro modo de destruí-la.
ESP.: Ó, querida Caridade, minha incomparável irmã! Não temas as ameaças do tirano, nem tremas diante dos sofrimentos. Empenha-te, forte na fé, por chegar ao palácio celestial, a exemplo de tuas irmãs.
105 CAR.: Aborrece-me esta vida presente; aborrece-me a habitação terrena; pelo menos, é por pouco tempo que estarei separada de vós.
ESP.: Não olhes para o aborrecimento, mas para o prêmio. Dentro em pouco, estaremos juntas no Céu.
CAR.: Assim seja! Assim seja!
ESP.: Muito bem, mamãe! Alegra-te: não te deixes afligir de dor maternal pela minha paixão, mas antepõe a esperança à dor, ao ver que é por Cristo que morro.
SAB.: Agora, certamente, já me alegro. Mas, quando tiver enviado ao céu tua irmãzinha, morta de igual maneira, e seguir, eu também, por último, aí, então, exultarei de alegria transbordante.
110 ESP.: A Santíssima Trindade te dará a eternidade em companhia de todas as tuas filhas.
SAB.: Sê forte, filha: o agressor vem a nós com a espada desembainhada.
ESP.: De bom grado, recebo a espada. Tu, Cristo, recebe esta alma que, por confessar o teu nome, é arrancada à sua habitação corporal.
SAB.: Ó Caridade, excelsa esperança de meu ventre, ilustre filha minha, não defraudes a esperança de tua mãe de que combatas bem. Desdenha as ofertas do Imperador e assim, atingirás a alegria sem fim: a refulgente coroa da virgindade sem mancha que tuas irmãs conquistaram.
CAR.: Sustenta-me, mamãe, com tuas orações, até que eu mereça juntar-me à glória delas.
115 SAB.: Rezo muito para que sejas consolidada na fé até o fim; estou certa de que, também a ti, será outorgada a eterna alegria.
ADR.: Caridade, já estou farto dos insultos que me lançaram tuas irmãs e extremamente exasperado pelo falatório delas. Por isso, contigo não vou discutir: ou obedeces a meus desejos e serás cumulada de bens, ou resistes e sofrerás os males.
CAR.: Eu, de coração, amo o bem e detesto o mal com todas as minhas forças.
ADR.: A minha benevolente piedade leva-me a propor-te algo muito simples, uma coisinha de nada; para mim, tolerável e, para ti, essencial para que te salves.
CAR.: Que é?
120 ADR.: Basta que digas: "Grande é Diana!", nem te obrigarei a sacrifícios.
CAR.: Ah não! Não digo.
ADR.: E por quê?
CAR.: Porque não quero mentir. Eu e minhas irmãs temos os mesmos pais, os mesmos sacramentos, a mesma força na fé. Por isso, decididamente, única é nossa vontade, nosso sentir, nosso saber, nosso ser. E eu, em nada me afasto delas.
ADR.: Ó injúria! Que eu seja desprezado por uma pirralhinha tão pequenininha!
125 CAR.: Ainda que de tenra idade, vê-se, no entanto, que te desconcertei com meus argumentos.
ADR.: Toma-a, ó Antíoco, e faz com que, pendurada no cavalete, seja atrozmente chicoteada.
ANT.: Temo que não adiantará...
ADR.: Se não adiantar, manda que, continuamente, por três dias e três noites, se aqueça o forno e lança-a entre as chamas furiosas.
CAR.: Ó juiz impotente, que temes enfrentar uma criança de oito anos sem a arma do fogo.
130 ADR.: Vai, Antíoco, e faz como foi mandado.
CAR.: Tuas torturas certamente estão bem preparadas, mas não me causarão mal, pois nem os chicotes podem rasgar meu corpo, nem as chamas queimar meus membros ou vestes.
ADR.: É o que veremos.
CAR.: Veremos!
CENA VI
ADR.: Antíoco, o que te aflige? Por que razão voltas mais triste que de costume?
ANT.: Quando souber Vossa Majestade a causa da tristeza, não vos afligireis menos.
ADR.: Fala, não escondas.
ANT.: Aquela zombeteira daquela menina que me entregastes para que fosse atormentada, foi chicoteada na minha presença, mas sua fina pele nem sequer de leve se cortou. Depois, lancei-a na fornalha, que estava já da cor do fogo, por causa do extremo calor.
05 ADR.: Por que não contas logo como tudo acabou?
ANT.: A chama transbordou violentamente e queimou cinco mil homens.
ADR.: E o que aconteceu a ela?
ANT.: À Caridade?
ADR.: É, a ela.
10 ANT.: Andava brincando entre os vapores que vomitavam chamas e cantava louvores a seu Deus. E mais: quem olhasse atentamente, veria três jovens radiosos de claridade que a acompanhavam [18] .
ADR.: Tenho vergonha de encará-la, pois não consigo feri-la.
ANT.: Só nos resta matá-la à espada.
ADR.: Que se faça isto sem demora.
CENA VII
ANT.: Descobre tua cabecinha dura, ó Caridade, para receber o golpe da espada.
CAR.: A esta tua ordem, sim, de bom grado, obedeço.
SAB.: Agora, agora, filha, dá graças; agora rejubila em Cristo. Já não me inquieto, porque tua vitória é certa.
CAR.: Dá-me um beijo forte, mamãe, e encomenda meu espírito que vai para Cristo.
05 SAB.: Que Aquele que no meu ventre te deu vida, receba a alma que do Céu foi insuflada.
CAR.: Glória a Ti, ó Cristo, que me chamas a Ti com a palma do martírio.
SAB.: Adeus, ó dulcíssima filhinha, e quando estiveres com Cristo no Céu, lembra-te da mamãe, já exaurida por te gerar para a Vida.
CENA VIII
SAB.: Vinde, ilustres senhoras, e, aos corpos de minhas filhas, demos sepultura.
MATR.: Embalsamamos seus pequenos corpos com aromas e celebramos funerais solenes.
SAB.: Sois de grande bondade e de admirável piedade comigo e com meus mortos.
MATR.: Em que pudermos ajudar-te, fá-lo-emos devotamente.
05 SAB.: Bem o sei.
MATR.: Onde queres sepultá-las?
SAB.: A três milhas de Roma, se não vos desagrada lugar tão longínquo.
MATR.: Não nos desagrada, pelo contrário, agrada-nos seguir tão nobre funeral.
CENA IX
SAB.: Eis o lugar!
MATR.: Certamente é lugar apto para guardar os restos mortais.
SAB.: A teus cuidados, ó terra, confio as florzinhas de meu ventre, para que as acaricies em teu seio até que refloresçam na glória maior da ressurreição. E tu, Cristo, até então, dá-lhes, com a plenitude de esplendor às almas, sereno repouso aos ossos.
MATR.: Amém.
05 SAB.: Agradeço à vossa piedade pelo conforto que trouxestes à dor da separação de minhas filhas.
MATR.: Não queres que fiquemos aqui contigo?
SAB.: Não.
MATR.: Por que não?
SAB.: Não seja o meu consolo, o vosso incômodo. Já basta que três noites tenhais permanecido comigo. Ide em paz e passai bem.
10 MATR.: Não vais conosco?
SAB.: Não.
MATR.: E que pensas fazer?
SAB.: Ficar aqui, para o caso de que ocorra o que peço e se cumpra o que desejo.
MATR.: Que pedes? Que desejas?
15 SAB.: Unicamente isto: que, completando minhas orações, seja eu levada por Cristo.
MATR.: Então, convém que esperemos para dar-te sepultura.
SAB.: Como queirais. Senhor Jesus, que, antes de todos os séculos, foste gerado pelo Pai e, no tempo, gerado pela Virgem Mãe; que, de duas naturezas admiravelmente consistes num único Cristo, sem que a diversidade de naturezas divida a unidade da pessoa, nem a unidade de pessoa confunda a diversidade de naturezas; a Ti, dêem glória toda a corte de anjos e a doce harmonia das estrelas. A Ti, também louve a ciência de tudo o que é cognoscível e tudo que é formado da matéria dos elementos, porque Tu, que com o Pai e o Espírito Santo sois espírito e não matéria, pela vontade do Pai e cooperação do Espírito Santo, não desdenhaste fazer-te homem, com humanidade passível, sem quebra da divina impassibilidade. E, para que nenhum dos que crêem em Ti se perdesse e todos os fiéis vivessem eternamente, não dedignaste experimentar a nossa morte e destruí-la com Tua ressurreição.
Recordo-me, ó perfeito Deus e perfeito homem, da promessa que fizeste (a todos que pela veneração de Teu nome, abandonassem o uso e a posse das coisas terrenas, ou pospusessem o afeto carnal dos parentes), de que receberiam, em troca, o cêntuplo de recompensa e seriam agraciados com o troféu de vitória de vida eterna. Animada, pois, pela esperança dessa promessa, fiz o que ordenaste: de livre vontade, entreguei-te as filhas que gerei.
Por isso, ó Piedoso, não te demores em cumprir as promessas, mas faze com que eu, livre, o mais depressa possível, dos vínculos do corpo, me alegre com o encontro das filhas, que não tardei em entregar para serem mortas por Tua causa, a fim de que, seguindo elas a Ti, o Cordeiro da Virgem, e entoando elas um cântico novo, possa eu regozijar-me, ouvindo-as, e alegrar-me com sua glória. E, ainda que não possa entoar o canto da virgindade, mereça eu, todavia, louvar com elas, pela eternidade, a Ti que, não sendo o mesmo que o Pai, és igual ao Pai, com o qual e com o Espírito Santo, como único Senhor do universo, único dominador absoluto das causas últimas, médias e próximas, reinas e imperas pelos séculos intermináveis da eternidade.
MATR.: Recebe-a, Senhor. Amém.
( [1] ) O original, Sapientia, encontra-se em PL 137, 1045-1062. Autores diversos grafam de modos variados o nome Rosvita: Rosvita, Hrotsvitha, Hrotsvita, Roswitha etc. Ao longo deste estudo, citaremos a peça, indicando em romano a cena e em arábico a fala. Assim, p. ex., III, 17 é a 17ª fala da Cena III.
( [2] ) Isso reflete-se, por exemplo, no De spectaculis de Tertuliano, escrito pelos começos do século III: "O teatro é, sem tirar nem pôr, o santuário de Vênus. Daí golfou a impureza por esse mundo além... O que é mais próprio e peculiar da cena, a malícia do gesto e dos requebros corporais - disso fazem oferenda a Baco e Vênus: à deusa, pelo desbragamento sexual e a Baco, pelas copiosas libações. Cumpre-te ter em asco, ó cristão, as coisas cujos autores não podes deixar de odiar etc." (TERTULIANO Os Espetáculos, Lisboa-São Paulo, Verbo, 1974, pp. 99-100). Não se trata somente de rigorismos de um Tertuliano, mas de opinião bastante generalizada: S. Isidoro de Sevilha, por exemplo, refere-se ao teatro como prostíbulo e lupanar (Etym., XVIII, 42, 2; PL 82, 657C)..
(4) SCHNEIDERHAN, Joh. Roswita von Gandersheim - die erste deutsche Dichterin. Paderborn, Bonifatius-Druckerei, 1912, p. 87.
( [7] ) Note-se que as meninas da peça - como é freqüente nos mártires - só morrem pela espada, e não por outros meios. Vieira, em sermão sobre Xavier, destaca uma razão para esse fato: Deus não quer violar os foros do arbítrio (próprio do homem, e não de bestas ou elementos como o fogo e a água: a espada aparece, assim, como uma extensão do homem).
( [9] ) GIRARDI, M. "Le fonti scritturistiche delle prime recensiones greche della passio di S. Sofia e loro influsso sulla redazione metafrastica". Vetera Christianorum 20, 1983, p. 47-48.
( [11] ) Assim, à pergunta do Imperador: "Dize, que vieste fazer entre nós?" (III, 24), Sabedoria responde que veio consagrar as filhas a Cristo; já segundo Simeão Metafraste (e os relatos pré-metafrásticos), era o martírio que ela buscava (Ibidem, 499 D. Cfr. também p. 47 do, já citado artigo de Girardi. Sobre a monastização do enredo, veja-se também V, 113 e a prece final, na cena IX). Digno de nota, ainda, é o apelo proselitista que Rosvita faz às mães para que encaminhem suas filhas ao mosteiro, pondo na boca da heroína-mãe, as seguintes palavras: "Para isto, dei-vos o leite materno, com tanto carinho vos nutri: para vos dar ao Esposo celestial, não terreno; para que, por vós, seja eu digna de ser sogra do eterno Rei" (IV, 7). Utilizando a curiosa expressão "sogra de Deus", Rosvita dá curso à formulação de São Jerônimo, que também visava, e expressamente, animar as mães a fomentar a vocação monástica das filhas: a tradicional idéia de matrimônio espiritual com Cristo, pela virgindade consagrada, é estendida - o gosto é muito discutível - para o parentesco indireto. Referindo-se à vocação das filhas, diz Jerônimo às mães: "Ó mãe, achas ruim que tua filha queira desposar um rei, em vez de um soldado? Ela assim (consagrando-se em virgindade a Cristo) presta-te um grande serviço: tu te tornas sogra de Deus!" (S. JÉROME, Lettres Choisies, vol. I, ed. bil., Paris, Garnier, s.d., carta XI, p. 79. Ou PL 22, ep. 22.). Contra tal abuso de linguagem, levantou-se Rufino: pode-se dizer da virgem consagrada que é esposa de Cristo. Mas, a partir daí, chamar a mãe carnal de sogra de Deus, é ímpio: "Só te falta agora, ó Jerônimo, chamar de sogro de Deus, o pai da moça; de cunhadas de Deus, suas irmãs; e de nora de Deus Pai, a própria moça" (RUFINO Apologiae Liber Secundus, PL 21, 593. A controvérsia patrística sobre este tema foi-me indicada pelo saudoso D. João Mehlmann.
( [13] ) Só quem ignora as fontes, pode ainda imaginar essa época como carrancuda; é, pelo contrário, popular com tudo o que o caracteriza: é a época das charadas e adivinhas, das trovas, do teatro bem a gosto do povo. Cfr. nosso artigo "Aspectos do lúdico na Pedagogia Medieval" Revista da Faculdade de Educação da USP, vol.17, No. 1/2, pp. 35-64.
(15) Concepção, aliás, explícita em Rosvita: "Há um passo da epístola que encima suas Comédias e que foi dirigida `aos sábios críticos de sua obra' que não pode ser esquecido. Diz aí Rosvita que reconhece os talentos que Deus lhe deu e não os esconde por falsa modéstia, esperando que através de sua obra, sejam reconhecidos, e que tanto mais ela merece louvor `quanto mulieribus sensus tardior esse creditur', ou seja: quanto se acredita que as mulheres sejam intelectualmente inferiores aos homens" (NUNES, Ruy "A Dramaturga Rosvita" O Estado de S. Paulo, 24-10-70). Não nos devemos deixar enganar, quando, em seu "Prefácio" ela aparentemente endossa expressões como "feminea fragilitas", "virile robur", ou "mei opusculum vilis mulierculae" (PL 137, 973), pois só os mais ingênuos dentre os homens, caem nesse conto.
(16): SEDÚLIO. Paschalis Carminis. Livro I, v. 319-320; PL 19, 586. Também esta nota devo a D. João Mehlmann.