Home | Novidades | Revistas | Nossos Livros | Links Amigos
QUOTIDIANOS
TOMADA DE POSSE
Vou tomar posse da minha varanda
E deixar o olhar comprimido estes anos todos
Espreguiçar-se pelos longes até ao mar
Que em vão tem esperado por mim
Espreitando por uma nesga lá no horizonte.
Agora vou tomar posse da minha varanda
Sem ler compromisso de lealdade
Sem limpar a voz pigarreando em falso
Nem ensaiar com a caneta uma voluta
Para me sair melhor a assinatura.
Não vai ficar notícia em livro de tombo
Nem será efeméride notada
Mas agora a minha vida vai ter mais espaço
Vou tomar posse da minha varanda.
PROPÓSITO
Um belo dia da minha vida
Vou mudar de vida.
E já não será um dia da minha vida
Mas de uma nova e outra vida.
Um belo dia da minha nova vida
Vou mudar de caligrafia
Ou inventar uma caligrafia nova
Para a minha nova vida.
E nessa vida nova
Vou poder mudar assim de assinatura
Ou vou ter uma assinatura nova
Porque serei novo
E a assinatura é o prolongamento da alma.
Alma nova, que terei então.
Mas há mais:
Nessa vida nova, com caligrafia nova
E alma nova
Os meus textos parecerão, por isso, de outro
Pois. Mas só se eu então
Em tudo tão novo
Ainda tiver paciência
Para escrever.
PATCHWORK
Inspirado em um postal de Natal da UNICEF
A vida é uma mantinha de retalho;
Sozinho, cada qual quase não presta.
Mas eis qu’em vereda, beco, atalho
Descobres o que vales e o que valho,
Encontras sol luzindo em cada fresta.
Deixa o astro brilhar, sendo de pano:
À sua luz o arco-íris ri,
E um coração emerge do arcano,
Irrompe do tecido e não faz dano:
Entre anjos se quer, te quer a ti.
QUARTO DE BRINQUEDOS
Para Maria Mar
Queria ter uma fitinha vermelhinha
Vermelha ou rosa, mas assim real
Para atar o Sonho no corcel que tinha
Tudo o que há de bem, e não de mal...
Com uma fitinha vermelhinha
Faria a uma coruja um laçarote
E com um Pégaso voaria a trote
Levando-nos a nós e à Princesinha.
Voando o mocho na garupa alada
Do Cavalo branco da mitologia
Sei que à menininha teria por fada
E a mim, coitado, sem sabedoria,
Por mago poderoso me teria.
Eis como mudar um pequenino nada
Já do Mundo altera a engenharia.
REFLEXO CONDICIONADO
Do mesmo modo
Que glândulas treinadas
Pavlovianas
Salivam ante a presa
Ou que o doce engalanado
Em montra tentadora
faz babar literalmente
A ávida criança
Assim também
Ante a promessa suculenta
De horas de eterno deleite
Trazida aos olhos
Por lombadas sugestivas
Me antecipa êxtases
E me humidifica os lábios.
ELOGIO DE MORFEU
O sono, para mim,
É alta Metafísica
Transporta-nos a confins
E é real, pois o sentimos
(o sonhamos)
Importa lá Metafísica para além do sonho?!
Não. Toda está nele.
Mas é precisa (e muita)
Contra os monstros da razão
Filhos do sono
Sem sonho
Da pequena alma
Dos filósofos chãos.
Se a Metafísica é sonho
Deixai-nos sonhar
Homens de pouca fé.
PARADOXO
Só o silêncio
Só o silêncio...
E se só o silêncio,
Porquê dizer o silêncio?
Porque calar o silêncio
É o estrépito
De silenciar o silêncio.
Cantemos o silêncio
Acariciemos o silêncio
Saibamos que o silêncio
É a única cor da verdade.
Sentido único da redenção
QUIMERA
Ilusão de ilusão, espelho num espelho
Sonho de sombra, duma sombra sonho
Verdade sem verdade, novo velho
Luz em sorriso de hábito tristonho
Miragem sem imagem, eco ao longe
Imagem exaltada, mas ausente
Como pode um coração doente
Amar tanto um hábito sem monge?
A brisa fere como de seta o gume
De cruel frecheiro impiedoso
E a vítima enlevada sobe ao cume
Da mais feliz ventura e eterno gozo.
Quando deveras só cabe ao desditoso
Sonho, ilusão, desilusão, ciúme.
VIDA MODERNA
Vives na caixa fósforos
Andas em lata apertada
Respiras fumo na estrada
E são de nada teus foros.
Moras em casa de amianto
Choras cloreto de sódio
Falta água a esse teu pranto
Cobre-te o manto do ódio.
O céu de cinza é coberto
E a chuva azeda está
Avança lesto o deserto
Arde a floresta já.
Numa janela estreitinha
Corroendo o teu olhar
Vês o mundo da salinha
Mini-salinha de estar.
De borracha te alimentas
Ao ruído chamas som
Vestes segundo as ementas
Dessa moda que é frisson
Trabalhas muito, demais
Dás dinheiro ao verbo ter
Perdes a vida no cais
Sem embarcar p’ra viver.
Abre janela do ser
Sai da varanda da barra
Larga as velas do Bandarra
Deixa a Vida amanhecer.
PARA FORA CÁ DENTRO
Holidays, Urlaub, Vacances,
As férias dos estrangeiros
Têm cá outra ambiance…
Esqui, palmares e cruzeiros…
Cá pra mim, com férias só,
Não darei a volta ao mundo
Nem os pés sujo de pó:
Esse o mistério profundo.
Porque férias, são cá dentro.
Cá dentro, mas dentro à séria:
De si mesmo ser o centro.
Sem precisar de fugir
(Mesmo na negra miséria):
Férias são não mais fingir.
TECNOLOGIAS
SÍMBOLO
Quem tão só se vê ao espelho
Em sua casa ou na praça
Devolve-se-lhe uma imagem
Idêntica, mas ténue e baça.
Sentir primeiro é o melhor
Sentir e só depois ver
Sabem eles lá de que cor
É o sabor do dizer?
E depois, em frente olhando,
No lago do teu olhar
(com sorriso a dar o tom),
Não há nada que enganar:
Junta-se imagem com som
Eis tudo pronto a ligar.
DON’T GET A LIFE
Deixa-te estar entre explosões de luz
Deixa os neurónios reais fundir-se em sentimento
Com as linhas electrónicas do espaço.
Deixa os teus cabelos espalhando perfume
Se acantonarem num ficheiro amarelo
Enquanto o dourado novo da Walt Disney
Não é adaptado pela Microsoft
Deixa o mar profundo do teu olhar
Que move até as lágrimas de dor e de alegria
Deixa-o aquietar-se nas profundezas dum disco duro
E a tua voz de diva,
Que fique gravada, no gravador da placa de som
Que tem a qualidade roufenha do fungagá de feira.
Que toda tu sejas um pic,
Nada mais que um pic que se troca
Ou nem sequer se troca
Que se dá,
Ou nem mesmo se dá.
Quero pensar-te como um ser do aquário
Que é o PC, o micro, o computador.
Há pessoas demasiadas pra viver no mundo real
Please, don’t get a life.
CARTA DE MAREAR
Que olhar certeiro perscruta as linhas
E nas manchas sobre as cartas
Divisa elevações e depressões?
Que sorriso seguro se esconde
Sob o perfil enigmático?
Que cor têm os olhos?
Que névoas pairam sobre os relevos?
Que brisas acariciam as lagunas?
Olha-se ao espelho no computador
Olha-se ao espelho mirando o mapa
E tem no coração a rosa-dos-ventos.
INSUBMISSÕES
HETERODOXIA: AVESSO OU SIMETRIA?
Do outro lado da vida
Do outro lado da sina
Do outro lado do mundo
Do outro lado profundo
Do outro lado do espelho
Do outro lado da esquina
Do outro lado da ida
Do outro lado do velho
Do outro lado: aconselho.
SUPLÍCIO
Ter sido livre um dia
E ao cárcere volver.
Ser rei, mesmo sem querer,
Depois penar.
Ah como eu queria
A dita ter
D’esse instante só cristalizar.
LIBERDADE
Quem me dera ser invisível
E colado à própria sombra
Se isso de ter sombra ainda é liberdade.
Quem me dera passear pelas manhãs
Sem levantar pó pelos caminhos
E regressar a casa sem recordar
As veredes que percorri
Nem os atalhos que tive de inventar.
Quem me dera respirar ar puro
E ser capaz de olhar os outros
Bem nos olhos
Sem que eles os pusessem no chão
Pois não me veriam.
Quem dera, ai quem dera, essa frescura
De não ler jornais, nem um,
E pela manhã
Levarem-me à cama sumo de limão
E não laranja
Com as Fábulas do La Fontaine.
Ai quem me dera, quem me dera
Que a corte toda, só por não a ler,
desaparecesse
E que o serralho inteiro, de o não conhecer,
se eclipsasse...
Ah mandarins, ah escreventes,
Ah gente ignara e faladora
Ah folhas cheias de palavras de tinta
Pintadas de todos os escárnios e
de todos os escândalos.
Ah ventos e rumores e boatos
Ah facadas nas costas em todas as
Costas:
Talvez amanhã eu não apareça no emprego
Talvez amanhã não tome o pequeno-almoço
Talvez amanhã não compre o jornal
Porque talvez amanhã a Liberdade
Saia do papel amarelecido das constituições
E se digne afixar-se na minha vida
Tornando-me invisível,
Única forma de passar a ser palpável.
SERIAL KILLERS
Tanto barulho...Tanto barulho...
Tanto barulho...
Há espíritos que não são:
Reagem
Saltam como molas
Automáticos
Protestam
Emergem
Rugem
Tanto barulho...
E se parassem?E se pensassem?
Sentir sentem:
Reflexos condicionados.
Eu próprio me amordaçoPara lhes não responder
Para quê mais barulho?
Mas sofro com a injustiça
E essa automática mania
De logo apontar o dedo
Aos suspeitos do costume,
Aos eternos maus da fita
Os tais do lado de lá...
Não vale a pena pedir
Não vale a pena gritar:
Porque só vós tendes razão,
Homens de tanta fé?
Nunca ela está no outro lado
Qualquer que seja?
Ah, eu não vos dizia?
Ele afinal é dos deles
Eu sempre me pareceu
Que alguma coisa escondia
Naquelas barbas de breu
(Agora já meio alvas).
Cada migalha de tempo
Cada poalha de sendo
Cada agitar da colmeia
Tudo é pretexto
Ah, paciência
Não posso com tanta ciência.
Almas fúteis, agitadas
Por vezes de sonhos grandes
Mas almas atormentadas
Por serem de si distantes.
Vestem o fato do grupo
Mesmo quando julgam tê-lo no cabide
E com uniforme vestido na cabeça
cantam o hino, cantam o hino,
Mesmo quando a música se apagou.
Tristes figurantes da peça dos outrosFieis títeres que gesticulam sem fios
Guiões virtuais que repetem
Proverbialmente
A farsa das ideias de pronto-a-vestir
Não, não vos responderei.Não, não vos contestarei.
Não, se vos vir na rua
passarei discretamente para o outro passeio.
RODINHA DOS ELEITOS
Ele é génio Eu génio sou Tu o dizes E eu digo Tu é lindo Eu lindo sou Eu
o vejo E tu o vês. Um dois três Outra vez Tu és lúcido Eu o sou Porque o
digo Porque o dizes Eu sei tudo Tu o sabes Porque amigo Meu tu és Um
dois três Amanhã se nos zangarmos Tudo roda e assim diremos: Tu és
besta Mas eu não Eu to digo Não mo diga Mas 'inda hoje Assim dizemos
'inda amigos que nós somos: Somos bons somos os puros ou os maus mas
isso é bom Eles são bestas são obscuros Nós que sim Eles que não Outra
vez: Eles cretinos Eles estúpidos Ai que seca Não são chiques Não são
dos nossos Dos sem tiques Eles burros E nós bons. Mas se um dia O vento
muda Um dos deles A nós vem. Ele afinal não é mau Andou em más
companhias Ele bom, com qualidades É dos nossos Sim senhor. E vira a
roda
LEITURA
Linhas tão tortas, céus,
Tão tortas são
Veredas tortas, Deus,
Estradas não.
Linhas estreitas,
linhas apertadas
Linhas sinuosas
Linhas marginadas
Linhas monstruosas
Escreve Deus
por essas linhas bem
Calígrafo cifrado
E os olhos meus
Perseguem esse além
Olhos nos céus
Tentando ler o fado.
Linhas tortas sinuosas
Ai, porém já vemos
Como erradas
as lemos.
Pois tortuosas
Sinuosas
Monstruosas
São nossas glosas
Os olhos que temos.
NEGAÇÃO DA INOCÊNCIA
"Não pode haver inocente
Onde quer que haja culpado"
Pode parecer indecente,
Mas é parecer de letrado.
De letrado e cardeal
Que do pecar é doutor
Conhecendo bem o mal:
Richelieu é o autor.
A culpa opõe-se à inocência
Mas vendo as coisas de perto
Há na culpa uma desculpa
e de inocência há deserto...
Nosso velho pai Adão
E Eva e maila serpente
do mal deixaram semente
na mente e no coração
desta humana condição.
Mesmo livre arbítrio tendo
somos por força levados
à culpa, sendo inocentes,
e se inocentes, culpados:
Não é um ser, é um sendo...
Estamos pois encadeados
sempre um tanto descontentes
E se às vezes animados
Pelas ilusões presentes
Pairam a culpa e os malvados.
Os deuses não dão presentes...
PASTICHES
CONSTANTINOPLA
A Cidade caiu. A turba ignara
Aos pés o sacro calca em turbilhão.
Jazem agora monges, virgens, rola a tiara
Pelas lajes sujas, frias, de um salão.
Arde de novo a nossa Alexandria
E já não há quem chore o que perdemos.
Exílio não há mais, onde podia
Esconder-se agora o que sabemos?
Ah, não se abrirem todas as paredes
Da Sabedoria Santa e nos tragarem!
Mas se na Providência ainda credes
Deixai-lhes benignamente o que levarem:
Poema, Amor, Saber - tudo o que vedes,
Tudo lhes abandonai, se o encontrarem.
RESSURGIMENTO
Antigamente, ao pôr-do-sol, drapejantes,
Coroadas de louréis, em gazes purpurinas,
Etéreas fadas, varinhas de brilhantes,
Se despediam cantando, adamantinas.
Antigamente, sim, que tão sutis frescuras,
Tais tardes em palmares, miragens de oasis,
Tais virgens cândidas, de pálidas doçuras,
Já se exilaram esquivas dos sonhos primaveris.
Onde se acolhem seus suspiros puros?
Onde recolhem seus modos tão sutis?
Onde se elevam ainda os altos muros
De monstros vãos, seus medos infantis?
Volvei a nós, Musas de tempos idos!
Voltai pr'a nós em vossa etérea graça!
Em virtude afogais nossos sentidos
Que decadência volve em má desgraça.
Canto-vos, Musas, vinde, não tardeis:
Vinde ditar de novo vossas leis.
MAGIA
Conjura arcano mago em seu covil
Espíritos acólitos fantasmas
Invoca potências e miasmas
Liga oscura do sombrio e vil
Em mansão d'oiro num trono nacarado
Bom alquimista a obra branca opera
Etéreos gazes e alvos filtros gera
Num fervente cadinho coagulado
De redor do primeiro um demónio é sob'rano
De torno do segundo algum anjo menor
Deseja aquele do enleio fazer dano
Almej 'este mutar alma em melhor.
Aos dois porém espera o Desengano
Desta magia resta o Fumo e a Dor.
TROVAS AO FUTURO
Saudades - só do futuro
Desfraldar bandeiras já!
As lamentações do muro
Ficam pró lado de lá...
Caravelas, são tão belas!Internautas, Inventores
Gestores e Computadores
Operários e Autores
Camponeses Professores
São Pintores e Pescadores
Colhendo em redes e telas
'Ilha Nova dos Amores.
Ah Império que partiste
Ah Império que voltaste
E aquilo que descobriste
Nunca aqui o preservaste
Mas isso mesmo persiste
Com tudo o que semeaste.
Ah Douro, Ah Tejo, ah Mondego
Sangue nosso que já estua
Nesse oceano em sossego
Que para o Mundo é a rua.
Há sempre nova maréHá sempre surfada boa
Basta ao nauta ter a fé
E largar desta Lisboa
Vinde comigo, cantemosVinde já, ‘inda esperais?
Temos barco e temos remos
Só falta sair do cais.
ESPERANÇA
Rufam tambores e os clarins
Entoam hinos doirados
Veludos, sedas, brocados
Bandeiras rubras carmins
Em coro as vozes levitam
Num som que nos faz planar
Neste espírito crepitam
Vontades de Sol e Mar
Há chama nesta vontade
Alma há nesta canção
Venham ver a nossa Idade
Feita de Força e Verdade.
No fulgor da Liberdade
Se fará Libertação
RITUAIS
EXORCISMO
No papel desenhar
Mais que simples vício
Será exercício
Será sacrifício
E seu simbolismo
Fará exorcismo?
E se estas letras pequenas
Alinhadas com sentido
São capazes de ruído
Próprio para espantar penas?
DESENHO RIGOROSO
Hostinato rigore
Divisa de Leonardo Da Vinci
Tem de ficar tudo direitinho
Como minha letrinha de escolar
Toda a flor em seu canteirinho
Toda a hora em seu certo rodar
Tem de ficar tudo direitinho
Rotineiro, monótono e igual
Como se separa água do vinho
E s’apartava outrora bem do mal.
A linha recta seja nosso tema
Régua e esquadro a metodologia
Proclamemos sempre como lema
O tratado só da geometria.
Tudo o mais são puras impurezas
Nossas riquezas e belezas todas
Entelequialmente disfrutamos
D’Arte recusamos as proezas.
CÓDIGO DEONTOLÓGICO
Se todas as laudas que se escrevem
Fossem de coisas importantes mesmo
Fossem ditas e escritas
Numa preocupação de paz
De mente lavada e límpida
Se todas as laudas fossem
Não pedia já poesia
Mas prosa enxuta
Sem a ambiguidade cortesã
Sem a miséria e o ódio
Sem a maçada intrínseca
Dos que vivem de crucificar os outros
Ou de os torturar com a tortura
Paciente do papel e do selo
Ah se a revolta começasse nos papéis
Se os papéis se negassem ao registo
Do que não merece nota
Então cairiam os castelos das cartas
Marcadas dos burocratas
E as bibliotecas respirariam a pulmões plenos
Correntes de ar de liberdade e espaço
Os livros não são para queimar
Os papéis são para voar, e bem longe
Se não interessam
Livros em papagaios de papel
E impressos feitos barquinhos de todas as cores
E aviõezinhos de todos os tamanhos
Doravante o escritor tem de ser avaro
Não escrever nunca
Para a respeitabilidade da lombada
Mas com sua concisão e lhaneza
Participar na grande revolução
Da Ecologia do Espírito.
PAISAGENS
PAZ
Grandes planuras
como lençóis coloridos
tons desmaiados uns, sonhadores outros;
E árvores de brinquedo, de Bonsai
Céu... — e o céu?
O céu (grande suspiro), esse…
Desceu para acompanhar
Tocando melodias de azul-céu.
CCB
Eleva-se
Do areal imaginário
Um Alcazar branco e impenetrável
E pelo teu olhar de água
É um oásis
No nosso deserto ancestral
TORRE DE BELÉM
Uma pérola
de escuma
do Oceano
Cristaliza
em renda
de pedra
Do engano
MONTINHO DA URCA
Fiquei no Monte da Urca
Coragem não tive não
De subir ao Pão de Açúcar
Pois se ali era tão bom…
Montinho lindo da Urca
Ai balancé de bondinho
Montinho doce da Urca
P’ro Pão de Açúcar caminho
Ali, naquele intermédio,
Entre as águas e os céus,
Eu recolhi o remédio
P’ra todos os males meus.
Montinho lindo da Urca
Ai balancé de bondinho
Montinho doce da Urca
P’ro Pão de Açúcar caminho
SAINDO DE LISBOA
O Tejo pastoreado por sua nova ponte
Um Tejo prateado ao sol, dir-se-ia d’ouro
E ponte nova, cujo nome ignoro
E melhor é assim.
Ágil camelo lento
Ondula nas dunas do caudal atento
E erguem-se em torno cúpulas jasmim
De saudade sem fim.
AVAREZA
Não te canto a ti
Porto cidade
Porque de ti nasci
E te guardo avaramente n’Alma.
DIÁLOGO I
Sei até fico vaidoso
Que as palavras que te digo
De um som grave e caloroso
Como ao gato preguiçoso
Que o sol banha no postigo
Parapeito silencioso
Da janela e do abrigo
A ti te banham também.
Isso me faz muito bem.
E o teu cantante sorriso
Devolve um doce perfume
Cheio de graça e com siso
Que apazigua o ciúme
Que do felino provém.
DIÁLOGO II
As minhas palavras
Banham-te como o sol
Acaricia o gato na janela
E o teu sorriso abrindo
Devolve-me em quente sabor
Esse afago ronronante.
SÃO PAULO
“São Paulo apressado
Cheirando a café”
Que bela cidade
Que bela ela é.
São Paulo que nome
Que nome bonito
Que cidade enorme
Que febre, que agito.
São Paulo, Paulista
Avenida praia
Já não sou turista
Onde quer que saia
São Paulo Tietê
Rio só poema
É meu Ipiranga
É divisa e lema.
São Paulo, São Paulo
Duas marginais
São conversas longas
Mas longas demais.
São Paulo se vive
São Paulo se sente
E o melhor da urbe
É mesmo essa gente.