Home | Novidades Revistas Nossos Livros  Links Amigos

Notandum Libro

                                                                       ISSN     1516-5477

 

Coordenador Editorial: L. Jean Lauand

Editor de Internet: Sylvio Roque de Guimarães Horta

 

Conselho Editorial:

Gilda Naécia Maciel de Barros; María de la Concepción Piñero Valverde;

Maria de Lourdes R. da Silva; Maria Victoria de M. Benevides Soares;

Pedro Garcez Ghirardi; Robson Pereira

Each article is eviewed and accepted by at least two peers.
The peers may provide edi-torial assistance and suggestions before final acceptance.
Copyright
of the authors. Todos os artigos devem ser aprovados por ao menos dois pareceristas,
que podem condicionar a aprovação, sugerindo modificações. Copyright dos autores.

 

Outras obras literárias do autor:

Tratado das Coisas Não Fungíveis, Porto, Campo das Letras, 2000 (poesia)

E Foram Muito Felizes, Porto, Caixotim, 2002 (ficção)

Escadas do Liceu, São Paulo, Mandruvá, Prefácio da Prof. Doutora Gilda Naécia Maciel de Barros, 2004 (poesia)

           

 

 

 

 

 

Prefácio ao Livro de Horas Vagas

Canto-vos, Musas, vinde, não tardeis:

Vinde ditar de novo vossas leis.

Em uma das muitas ocasiões (na verdade, a nós outros sempre nos parecem poucas...) em que tive a honra de apresentar o conferencista Paulo Ferreira da Cunha aos colegas professores e a nossos alunos da Universidade de São Paulo, nos Seminários Internacionais de Filosofia e Arte da Faculdade de Educação, atinei com uma formulação que me parece acertada: o construtor de pontes. E esta imagem parece-me oportuna para esta beve reflexão - de inspiração pieperiana - sobre o Livro de Horas Vagas.

Que o Doutor Ferreira da Cunha é um escritor notável, um professor brilhante e um intelectual de primeira linha internacional, isto todos já sabem e puderam apreciar por si mesmos. Mas, de onde lhe vem essa tão surpreendente "unidade de contrários" em seu pensamento, tanto no conteúdo como também na forma?

Pois ele une o mais profundo pensamento teórico às mais candentes questões práticas da atualidade; as mais clássicas raízes gregas ao domínio das tecnologias mais avançadas, como a Internet (num memorável domingo do ano passado, esteve ele, com desenvoltura filosófica e tecnológica, a discutir a Justiça num chat com um nutrido grupo de universitários do outro lado do Atlântico); o mais estrito rigor da ciência do Direito com um incomparável bom humor na exposição; etc. etc. etc.

Neste livro - que a editora do CEMOrOc da FEUSP tem a honra de publicar - Paulo Ferreira da Cunha mostra-se, uma vez mais, um sensível poeta, poeta pontifex, a estabelecer conexões entre o ato poético e o filosofar, entre os fundamentos de nosso ser ocidental e a agitada realidade que hoje nos circunda.

O Livro de Horas Vagas é a prova cabal da verdade daquela proximidade e semelhança entre o filósofo e o poeta, com a qual Aristóteles começa sua Metafísica e que no comentário de Tomás de Aquino recebe a formulação: "Causa autem, quare philosophus comparatur poetae, est ista, quia uterque circa miranda versatur" (In Metaph. 1, 3, 4). Ambos, filósofo e poeta, ocupam-se do mirandum, de vagar a ad-mirar a realidade.

Certamente, Aristóteles e Tomás, ao estabelecerem a admiração como principium, como arkhé do olhar filosófico e do poético, estão a pensar na admiração diante do simples, da realidade quotidiana que nos circunda e não naquele arremedo de admiração que requer o inusitado e o exótico como Ersatz para o homem desumanizado, desumanizado justamente porque perdeu a capacidade de admirar-se.

Desse genuíno mirandum é que nos fala - já desde a primeira página - a poesia de Ferreira da Cunha, pois trata-se precisamente de tomar posse da nossa varanda:

Vou tomar posse da minha varanda

E deixar o olhar comprimido estes anos todos

Espreguiçar-se pelos longes até ao mar

Que em vão tem esperado por mim

("Tomada de Posse", p. 3)

E é que o filósofo e o poeta têm - como muito bem lembra Heidegger - aquela competência (appartenance) epistéme theoretiké, a competência de olhar; de dar-se conta do simples que todo mundo tinha visto, mas não reparado... Um homem só está a caminho de sua auto-realização quando sabe que deve tomar posse de sua varanda...

O simples essencial, assim vivenciado em "Patchwork" (p. 6):

A vida é uma mantinha de retalho;

Sozinho, cada qual quase não presta.

Mas eis qu’em vereda, beco, atalho

Descobres o que vales e o que valho,

Encontras sol luzindo em cada fresta.

Para dedicar-se a este novo modo de olhar - o olhar theorein, o olhar que se entrega à contemplação do objeto (ou, na magnífica fórmula de Ferreira da Cunha, "o olhar que se espreguiça") - são necessárias algumas condições básicas.

Aristóteles (ainda na Metafísica) indica como fundamental a atitude de skholé. A tradução usual de skholé por lazer não atinge suficientemente a característica de atitude interior, presente na skholé, da alma dotada daquela alegre disponibilidade receptiva (não por acaso de skholé derivou a palavra "escola") ao mistério do ser.

É bem a atitude descrita no poema "Reflexo condicionado", apetite suscitado por lombadas sugestivas. E o próprio título do livro, o Livro de Horas Vagas, o que está a indicar senão - seja-me permitida a gíria brasileira - o vagar da "curtição" (palavra que talvez seja a que melhor traduza skholé)?

Mas Paulo Ferreira da Cunha resolve poeticamente - e de modo absolutamente genial - esse problema da tradução da intraduzível skholé aristotélica, não por acaso no poema que contempla as férias: "Para fora cá dentro" (p. 14). Após descrever a superficialidade com que costumam ser encaradas as férias, desfere em certeiros versos toda uma fenomenologia da skholé, entendida pelo autor, como "férias, cá dentro"!

Porque férias, são cá dentro.

Cá dentro, mas dentro à séria:

De si mesmo ser o centro.

Note-se também que "vagar" vem do latim "vacare", que um autor como Beda, o Venerável, emprega para traduzir o grego skholazo. Referindo-se ao versículo bíblico da skholé, o salmo 45(/46) 11, "Vacate et videte quoniam ego sum Deus", comenta Beda: "eo quod nos dicimus 'vacate' in Graeco habetur scholasate" (In Epist. Septem Cath. lib. 2 , cap. 2). 

Nesse quadro, não poderia faltar - em tantos poemas - o diagnóstico da patologia da vida moderna e da tecnologia (esta, objeto de um capítulo). Em "Vida Moderna" (p. 12) está toda a síndrome:

Vives na caixa fósforos

Andas em lata apertada

Respiras fumo na estrada

E são de nada teus foros.

(...)

E Paulo Ferreira da Cunha nos oferece - também da tradição clássica - o remédio e, estou convencido, trata-se de um dos segredos de seu tão fecundo trabalho intelectual: o silêncio. Silêncio que, afinal, dá investidura à palavra autorizada:

Paradoxo

Só o silêncio

Só o silêncio...

E se só o silêncio,

Porquê dizer o silêncio?

Porque calar o silêncio

É o estrépito

De silenciar o silêncio.

Cantemos o silêncio

Acariciemos o silêncio

Saibamos que o silêncio

É a única cor da verdade.

Sentido único da redenção

(p.10)

Enfim, o Livro de Horas Vagas, é um sugestivo exercício daquela salvadora heterodoxia que - bem o sabem os que acompanham o trabalho de Paulo Ferreira da Cunha - é como que o código genético intelectual do autor. Ele, que, como num "Quarto de brinquedos" (p. 7), ensina a "mudar um pequenino nada" que "do Mundo altera a engenharia".

Heterodoxia: avesso ou simetria?

Do outro lado da vida

Do outro lado da sina

Do outro lado do mundo

Do outro lado profundo

Do outro lado do espelho

Do outro lado da esquina

Do outro lado da ida

Do outro lado do velho

Do outro lado: aconselho.

(p. 23)

Não quero terminar esta (insuficiente) amostra do livro sem registrar, a mútua adoção, o mútuo carinho entre Paulo Ferreira da Cunha e o Brasil e, particularmente, São Paulo (à nossa cidade dedica uma de suas poesias, na qual declara, muito justamente: "já não sou turista"). E como paulista - e uspiano- , começa já a escrever também "em brasileiro":

São Paulo que nome

Que nome bonito

Que cidade enorme

Que febre, que agito.

                        (p.58)

Universidade de São Paulo, 13 de novembro de 2004

Jean Lauand

Professor Titular da Faculdade de Educação