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I. FRISOS

“Que coisa amável é o homem quando é Homem”
Menandro

 

ANFITEATRO DO MUNDO

Do teatro Dionysus
Do Mundo vejo o teatro
Olho seus choros e risos
Esquisso assim seu retrato

Do templo da Pitonisa
Em ruínas, pedra e cal,
Da charada em tempo incisa
Desvendo signo e sinal

Disse-me Pítia o futuro
Desvendou na bruma enxofre
Disse-mo num verbo puro
A Razão do Ser que sofre

Disse-me ‘umbigo da Terra
Murmurou-me essa verdade
Que terra firme é saudade
E o Ser contínua guerra

Diz ao lusíada Helade
Que a disputa é da Terra
E nosso ser é saudade

 

ARQUÉTIPO

Cavalos se te furtaram
auriga d'olhos da luz?
'Inda essa rédea seguras?

É pois Razão que procuras,
Ou teus cavalos deixaram
Memória em teus braços nus?

 

ATHENA RECLINADA

Elmo de Péricles coroa
Na mão a lança é farol
É noite e coruja voa
Da Razão é arrebol

Da serpente hora passou
Ò virgem já de oiro armada
Nova ponte sobre a estrada
No poente despontou

 

ESTELA DE ATHENA

Silente pulsa a serpente
Em tua estela de cal
Balança entre Bem e Mal
Só não brilha o ser ausente

 

MEDEIA

Sufoca-se-me o grito
na apertada garganta
do que me deixo ser.
Ateiam-se-me as flamas
sedentas de toda a água
que o Sol secou
nas cisternas de mim.
E a lua apagou-se no entretanto.

 

ÍCONE

Um sorriso há, de Mona Lisa,
Na figura austera, bidimensional,
Que por entre o oiro glacial
Santidade presente tem concisa

 

BOTTICELLI, EM TORNO DE AFRODITE

A húmida cidade
é uma mulher escorrendo cabelos escorridos
um natural perfume em brisa fresca
sabendo a calma e paz

E as nuvens
hidrófilas farripas
de algodão
usadas na maquilhagem matinal.

 

II. TEMPOS

“O Homem é sonho de uma sombra”
Píndaro

 

ANAGNORISE

O nariz grego existe
É uma metáfora
Do lado do triângulo.

A metáfora grega existe.
Afixada e pública
Como nome
em todas os camiões de transporte.
q. e. d..

 

CÂMBIO

Na Hélade,
o sinalagma
está afixado
à porta de todos os bancos,
os quais,
não sei por que metáfora
(que é transporte)
e geometria
(que é medida da terra),
se chamam trapézios.
Pelo malabarismo de lhes pagar os juros?

 

ATARAXIA

Um silêncio morno que fenece
um vaguear calmo que flutua
um pensamento lento que já  esquece
um apagar da nacarada lua

um momento rouco  e nebuloso
um baralhar ausente de magia
um mergulhar dolente e vagaroso
um indif'rente 'star sem alegria

um vácuo em tudo pois se pressentia
nem se  ateava e nem sequer  jazia
mais que se sonhava se dormia
um estar parado bom, delicioso.

 

CRONOS

Plangentemente contorcidas
em ais de pedra antiga
as marmóreas cariátides de Atenas
vergadas ao torpor dos pesados anos
petulantes ângulos seus hercúleos açafates
já transportam
há vinte e cinco séculos de pó e erosão

Quebranta-nos uma jovem (idosa) carátide
De cariados odous
de calcário putrefacto feita.
Quão cruel é ser turista e não Homero
na terra de Palas Ateneia !

E que romântica a ronda da noite entre os armistícios!
Quão apolíneos os guerreiros da Acrópole
guardiões enamorados do Ereteu
estátutas movidas arrepiadas
pelo sopro eólico da Hélade
pelos suspiros enlevados
das canefóricas donzelas milenárias !

E se na pátria
lembra o bronze o esquecido herói,
no cume do Olimpo
Artémis descerrou o velo
dos ignotos defensores de pedras
pedras de carne, hoje ossos calcários,
amanhã somente pó,
esculturas do amor das korai erecteicas
(hoje de pedra, pó como eles no amanhã)

Unir-se-á o pó
à sombra de Caronte ?
Ainda é cedo: do Letes ao Hades
muita água corre sob as pontes.

 

ARISTÓTELES, DA POÉTICA

Falta à lira o concreto d'antanho
Natura evidente a contemplar
Sem o concreto para comparar
Tudo é banal, nada estranho
Antropófago se volve o razoar.

 

ARGONAUTAS

Os grandes silêncios
Que nas madrugadas dos grandes gestos
Preparam em suspensão e aurora
As grandes frases
Que só não mudam o mundo
Porque foram já todas ditas

E os grandes ventos
Que as folhas das árvores varreriam
Se as árvores tivessem 'inda folhas

E os tempos de espera
Que seriam ainda suportáveis
Se algo se esperasse.

Não se sustenta mais o não ser nada
Não é audível o ruído estridente
Desses silêncios que matam
Porque as esperas negam

E por isso, naturalmente,
mudaremos de poiso
e já de mira
e envergando nossos vestido alvos
ousaremos olhar o horizonte.

E eis que uma brisa sempre bulirá com a árvore imaginária
e uma madrugada sempre será prelúdio
sem fuga
de um dia novo.

Vamos esperar o que virá.
Vamos ouvir o silêncio
Vamos soprar o nosso vento
E senti-lo na face e no branco
Dos nossos mantos de verdade.

 

III. TÓPICOS

“O calado diálogo interior da alma consigo mesma”
Platão

 

ADIAPHORON

Ausente de éticas
(mas aristotelicamente cumprindo
seu modo se ser)
a deusa mortal
descalça as sandálias negras
e desliza entre o vento
até à orla de escuma.

Funde-se no azul mediterrânico
E nem sequer sorri.

Se ninguém a tivesse contemplado,
Nem no Olimpo
Nem no mundo sublunar,
Eis que teríamos um caso,
Raríssimo, embora,
De uma acção moralmente indiferente.

 

KATHODOS

À sombra do Cordeiro Místico
Que parece emoldurá-lo
Clamence continua a confessar-se
Num bar do Pireu.
Está agora na meia-idade sólida
Dos viajantes que expiam algo
Que já nem sequer recordam.
O juiz-penitente deixou-se
Crescer barba grisalha
E aprendeu grego clássico.
Confessa-se na língua de Creonte
E os olhares mal reconhecem pronúncias.
Ninguém entende o que diz
Senão os estrangeiros cultos
Muito cultos
Naquele barzinho perdido
No Porto Pireu.

 

EUDAIMONIA

Dá-me só
Nada mais quero
O pôr-do-sol em Sunion
E o nascer dele
No Porto Pireu.
Olha que é muito mais que pedir a Lua.

 

AUTARKEIA

Lá podes ser uma ilha
Numa pequena ínsula cristalizares
E receberes o correio
Uma vez por mês
Sem Internet, claro.

Lá podes ter a tua casa branca
Como uma colina na minúscula ilha
E crescer para dentro
Dentro dela

Lá podes cultivar
Tua solidão ao sol
E no teu exíguo jardim insular
Colher o vinho dos deuses
E a oliveira da paz

E na tua casinha branca
Branca e azul talvez
Podes receber-te principescamente a ti
E dar festas orgiásticas
Celebrando os mistérios
De seres apenas tu.

 

NARCISO

Como cantar
o vento suave e quente
Quente sem abafar,
que levemente
Sugere à mente
dolente
Algo que se sente
tão fervente
Que assim se vê a pulsar?

Como cantar os olhos doces
Mas doces de infinita solidão
E não sozinhos mas na minha mão
E nela sempre infindos e brilhantes?

Como dizer das mãos de maga
e fada
como descrever na madrugada
o que elas contam afagando
a alma?

Como descrever o espírito inquieto
desperto e livre e todavia aberto
dum'alma amiga e pronta atenta
e nua...

Como é aquela delicada e amena
Que subtil vem e ao espr’ito acena
E graça tem una
Minha e sua?

 

EROS

Há um encanto
Um encantamento
Nesse recanto
Nesse momento.

Não há um canto
Do pensamento
Sem esse encanto
Do sentimento

Com o seu manto
Sobre o tormento
Some-se o pranto
Com esse evento

É vão intento
Mesmo pr’a santo
Dizer que o vento
Não é mais lento
Ou chega a tanto.

Com o seu canto
Em vão alento
Volve portanto

Louco instrumento
Fugaz encanto.

 

THEORIA

Poetas cegos
guardavam o vento na pele ressequida das métricas
Poetas cegos
cantavam a memória dos odores das metáforas
Poetas cegos
sentiam a verdade por detrás dos trapos
E nos andrajos que não viam
Tinham as púrpuras da sua realeza
A quem poupara o destino
A vergonha e o espanto do claramente visto.

 

IV. DIALÉCTICAS

“A verdade é uma relação”
Protágoras

 

REMINISCÊNCIA

Que viste tu em cabo Sunion?
Que foste tu ver em cabo Sunion?
Que calma havia, que paz e que silêncio?
Que anjos que passavam,
E que plenitude recordaste?

Que interrogação no mar
tinto de cores do sol de Sunion?
Que brisa havia então, disseste, em cabo Sunion?
Que dizia ela, que não era,
ao perpassar nas pregas do teu manto ?

Que música sonhaste,
E esqueceste, em cabo Sunion?
Que suspensão do tempo que foi essa?

O Indizível passou por cabo Sunion
com a lentidão do torpor no lusco-fusco
entre vigília e sono, nesse embalo

O indizível passou em Sunion
Ou habita ele, de residência fixa,
no vértice do triângulo sagrado ?

Que foi que em Cabo Sunion tu viveste
Que despertou em ti em Cabo Sunion?

 

O ANJO E O AURIGA

Tempo que esculpes a Alma
Dos seres das coisas totais
Bendito na Voz que acalma
Arestas vãs mundanais

Ao Anjo tu decepaste
Rente ao peito ambas as mãos
Metraton decapitaste
Com horror aos traços vãos.

Olhar de luz tu velaste
Por desgaste a luz do olhar
Em torso petrificaste
E assim fala quanto baste
Ao Tempo crepuscular.

Ao Auriga d'olhar d'aço
Símbolo da férrea Razão
Deixaste rédea em só braço
Pois lhe eram embaraço
O alvo o negro alazão
Nesta hora e neste espaço
Da grande consternação.

Que faz o Auriga? Vê.
Resiste ao Tempo que leva
Os cavalos ondas vento
Na alma que se subleva.
Arconte de Portugal
Que pode ele fazer, Senhor?
Anjo vela, espera o Gral
Do Teu demiurgo Amor.

Razão e Luz são Verdade
Nessa divinal Cidade
Após portão de marfim:

No Céu da nossa soidade
Gémeos das Terras do fim
Celebram tempo sem Idade
O Anjo e o Auriga enfim.

 

HYBRIS

Decerto pois mui luzia
Quis Zeus colher sua chama
Porém a donzela q'ria
Guardar-se em alma sem flama

Foi Efeia perseguida
Pelo deus que mais s'inflama
Mas já Juno esposa f'rida
Sobre ela sombra derrama
De noite em dia volvida

E Efeia assim vestida
Não se vê por mui brilhar
Não sei se é morte se é vida
Não sei se é treva ou luar

Está a Luz toda em Egina
Está o seu templo cantando
Vitórias de Salamina
Mas há nocturnos na sina
Dos que Zeus vai convocando.

 

SÍSIFO

Entre os atalhos do Ser
Caminheiros, caminhantes
Circulam, pensam “viver”
Em fadigas esgotantes.

Cuidam eles que vão lá longe
Mas vistas as coisas bem
Hábito não faz o monge
E o aqui parece além.

Afinal o movimento
E a decisão, e a revolta
Ficam mais no sentimento
Do que no andar à solta.

Crêem eles que longe vão
Que são alguém sim senhor
Mas quem pensam eles que são
Pois sempre os vejo em redor?

Irónica ingenuidade
Esta febre do obrar
Do querer e do triunfar
Maleita da nossa idade
Que um dia há-de acabar.

 

ANTI-XERXES

As fragas sôfregas
de um silêncio
puro
junto ao roncar
marítimo
rezam baixinho
pelo total
dilúvio.
E o Egeu ouvindo
lhes responde
bruto
em feroz
berro
e chicotada
forte.


PHYSIS

Porque da rosa só
E da mais bela
Quer a melita gentil
Seu mel doce fazer?

Porque da natura grácil
Da flor mais excelente
E só dela
O melhor mel
Pode nascer.
Mas ai!
Sofrerá a rosa? Pois certamente.
Mas ai! A melita sofre, é certo.
E o néctar dos deuses distantes
A doce ambrósia
Pelas duas
Tem inexoravelmente
Que servir-lhes
No banquete insensível
Da ritual natura.

 

CIRCE

Queria sentir-
-me
o beijo
que te dou.
E que aspirasses
esse perfume doce
daqueles
que tu me deste.

 

PÉRICLES, DO OSTRACISMO

Tais perfídias
tais segredos
tais mentiras
tais degredos
tais cousas dinas do demo
são insídias
são enredos
são pelo menos venenos
esses medos
todos temos

 

EPICURISMO

Devoro os dias todos
Com sofreguidão de Cronos
a seus filhos despedaçando.

E cada aurora
se ergue para mim
como totalmente estranha
e nova.

Sorvo o coração de cada tarde
quando outrora preguiçava
dormitando.

O tempo será mais eternidade
Quando, como rápidos,
Nos precipitamos a sorvê-lo,

Ou será maior e mais perene
Quando pela janela da vida
O despejamos como inútil?

 

AFRODITE A ARES

Nessas noites altas e cerradas,
sós e perdidos,
o frio a abraçar-nos,
o medo é deus sem culto.

E cada olhar
no espelho de teu rosto
uma heresia exposta
na claridade nocturna
 sob o olhar cínico da Lua.

E a forja da memória
troando feia
nas entranhas da Terra
a melopeia que nos acompanha,
contraponto de nós.

 

TRIÂNGULO SAGRADO

Um pequeno e sombrio
vulto esfíngico
no rochedo da Acrópole
Anuncia o Deus desconhecido.

E os filósofos adiam seu veredicto:
"Ouvir-te-emos ainda outro dia..."

Do outro lado, em Sunion, Egeu
Vê negras velas, presságio nefasto
por Teseu  regressando de Creta.

E o negro é a ausência de luz,
logo, é a morte. Egeu precipita-se.

O vértice do triângulo
está em Egina.
Aí se celebra Epheia
A virgem deusa sem luz
Pois invisível.

Seu templo é de todos o mais intacto
E o mais visível
Como o templo invisível
Do Deus que só vemos como em espelho.

No rochedo renasce só Dionísio
Em Sunion vive 'inda Teseu
E debalde perdemos rei seu pai.
Em Egina se oculta e transparece
Quem pr'a se guardar
Se furta a aparecer.

 

Neste triangular mistério
em luz e trevas
está toda a verdade

 

V. ARQUITECTURAS

“(...) onde à arquitectura chamo música congelada”
Goethe

 

TOPOGRAFIA

Há capitéis ritmados
nos quadrantes
do espaço desimpedido.

 

DÉDALO

O céu aberto
de múltiplas muralhas 'stá coberto
Envolve o labirinto o movimento
e o voar é certo
e o sentimento.

 

RUÍNA

O tempo não tem re/ cantos
Mas os cantos tempo são
No som de cada re/ canto
Há um canto em erosão.

 

NECRÓPOLE

Vetustas pedras já sufocam
Em mármores cheirando a cal escura
Planícies secas onde pastam abutres
Títeres frágeis e de carne humana.

Vêm no tempo ao longe
Vogando em desnorte e olvido
Envoltos na lenda e no que foi
Pelas mentes vagas em ondas vagarosas.

Sabe a sal o tempo sem sol claro
Navegando ao baloiçar cinzento
Brumoso prenúncio de azul negro
Na noite sem luzeiros.

E no porto ansiosos
Os olhos de brilho já despidos
Como estrelas indagam o silêncio imposto

A vela é negra
E agora a casa do coração
Só pode ser o cárcere do mar.

 

ANTÍGONA ENCARCERADA

Ser emparedada ao sol-nascente
sob o rumorejar cantante dos séculos
(êxtase escândalo dos grandes gestos nulos)
é meu destino antigo e permanente.

 

VI. OCASOS

“O destino fatal é inevitável até para um deus”
Heródoto

 

ANTÍGONA EXILADA

Tactear timidamente o teu olhar cansado
Mas sempre atento e novo
Como água cantando em jovem fonte
O teu olhar doce e duro, e sapiente.
Cego tacteá-lo.

E saber de cor os sinuosos sulcos
Caminhos que o tempo desenhou
Nesse teu rosto,
Cartografia Caprichosa.

E embalar esse sorriso triste
Todavia ainda iluminado
À luz de cada ideia generosa.

E afagar os cabelos revoltos
Que são tuas serpentes
Soltadas aos ventos e aos poderes

Ah, não morreras tu
No dia do teu crime
Nesse heróico momento de revolta!

Creontes timoratos tua pena comutaram
Vale mais a morte que desterro eterno.
Crucificada estás para a História
A nossa tibieza é que te mata.
Lentamente te esvais
E a tua vitória só persiste
No coração dos que amam a Verdade

Para os demais, já nem sequer és linda
“Foi certamente bela um dia” – dirão outros.
A isto se resumira a sua filosofia
E a tal limitarão a tua história.

 

ÉDIPO

Difíceis as veredas ao caminheiro do Ser.
Ousados, os trilhos na encosta mansa
lentamente à sombra da brisa aveludada
E fresca a luz interior que nos acende inteiros
no banho nocturno
em lago azul bordado a lua cheia.

E é o céu de anil toldando a consciência
o de Orfeu os mistérios, sanguinolentos negros
em tropel fogo de corações e gestos
E as árvores na claridade nacarada
palpitando c'oa noite enchendo-nos segundos.

Que é do Infinito indefeso grão de nada?
Eleva-se o perfume, circularmente, em elipses quentes
Cerrado é bosque em sombras no termo dos ofícios.
Tacteia em vão o caminhante o seu retorno
Sísifo fútil na conjura feroz dos elementos.

Escorre angústia em cada hiato sempre
possibilidade em todos os olhares
e a mácula perpassa acusadora penetrando
o mínimo detalhe
dessa paisagem fria.

 

HELENA DE TRÓIA

Não sobrevive o Ser à cousa finda
Findou no firmamento a luz que havia
E logo se finou a tocha linda
Que cintilava ao tempo que sorria.

 

PLATÃO, DA SOFÍSTICA

Oiço nas palavras seu silêncio
Ogivas do nada cingem todas as frontes
e os sorrisos são salgados e vazios
dos olhares sabendo a lua-nova.

 

EPOCHE

Cristaliza no sistema do Ser
O estilo das coisas transparentes

Os sentidos nos contam como vagas
os clarões dos entes que encontrou
o nosso mar pessoal em algaras pelas dunas

E tudo se converte como outrora
no marulhar ausente dos lampejos
trovejar distante das memórias
embotadas na dolência derretida
na metáfora da praia imaginária.

 

ULISSES

Oh não ser dono dos próprios passos
Não ter sequer o pó da terra que se pisa!

 

DO PORTO DE ÍTHACA

Em Ítaca de regresso:
Ai eu não lembro
Kavafi, meu semelhante e irmão,
Que coisas são de mármore
Ou são de gesso;
Tudo confundo e esqueço
Neste Dezembro frio, temporão.

Por fim em Ítaca, minha ilha amada.
Quantos gelos passei sem que sua mão
Na fronte cingida e consagrada
Haver como um perfume posto um dom.

Quantos desfiladeiros, algaras, plenilúnios
Quantos rápidos, bandos, e ocasos
Quantos medos, ravinas, infortúnios
Quantas florestas, penhascos, e acasos.

Quantas promessas volvidas em traições
Quantos labores que um vento displicente
Derriba num instante e incidente
Quantas certezas vãs desilusões

Mas agora, que aporta o meu navio
De novo a minha ilha e meu rincão,
Paira em minh’alma um doce calafrio.

Distingo, entre triunfo e aclamação,
Sós, no porto velho, esp’rando ao frio,
Penélope, Telémaco, o aio e o cão.

 

CREPÚSCULO DOS DEUSES

Do bronze do escudo de Héracles
Olham-nos as mil estrelas
das águas de Sunion
E de Febo o disco ruborescido
pela invasão em torno
Esconde-se entre a sombra
dos seios da mãe Gaia
e mergulha nos braços de bronze de Poseidon.

Não sorri uma brisa no templo aberto e oculto
É tempo de sombras e perfis.
E todavia é a frescura e a promessa.