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Livro de Mêncio: Cap. I,
sub-capítulos A e B:
“Diálogos de Mêncio com o Rei Liang:
Sobre Governar pela Benevolência”

 

Nota e Trad. Ho Yeh Chia
(FFLCH-USP)
hochia@usp.br

Mêncio foi contemporâneo de Platão, Aristóteles,
Zenão, Epicuro e Demóstenes e outros grandes homens
do ocidente: posto no meio deles, podia encará-los a todos,
sem ter nada que baixar os olhos”. (James Legge)

 

Introdução:

       

Introdução

A obra Mêncio foi escrita pelo maior filósofo confuciano da China, Mêncio (séc. III a. C.) e leva o nome do seu autor. Esta obra é composta por sete capítulos, cada um deles é dividido em duas partes (A e B). Apresentaremos o capítulo I (A e B).

A época de Mêncio é aquela que é conhecida como “A Época dos Estados Combatentes” (aprox. 403 a 221 a. C.) – logo após a “Época Primavera-Outono”, onde viveu Confúcio –, e foi uma época bastante caótica, repleta de guerras cruéis, constantes batalhas entre os sete Estados da época (Qí, Chu, Yàn, Hán, Zhào, Wèi, Qín), na qual foi marcada pela queda de valores humanos, morais e éticos no império todo. O poder do imperador da dinastia estava totalmente enfraquecida, já o dos feudos bastante fortalecida.

Como bom seguidor de Confúcio, Mêncio se sentiu na obrigação de oferecer seus conhecimentos para contribuir ao bem da sociedade, servindo a um príncipe de grande valor que tivesse capacidade de restabelecer a paz e restaurar valores antigos no império. Assim, andou pelos Estados e visitou reis e duques na esperança de encontrar um soberano que fosse capaz de aceitar e realizar suas idéias de Boa Governação. No entanto, ele não encontrou nenhum, pois os dirigentes de todos os Estados estavam ocupados demais em conquistar uns aos outros, ou em defender-se dos outros Estados. Todos os príncipes queriam ser o imperador que dominasse o Império Chinês. Certamente, uma tese de Governo Benevolente, como aquela que é defendida por Mêncio, não era aceitável naquele momento. E de fato, o Estado de Qín, dirigido por um dos maiores tiranos da história da China, que adotou as idéias dos filósofos Legistas, acabou por unificar a China, e se auto-denominou de Qín Shi Huáng Dì (o Primeiro Imperador da China). É claro que as idéias legistas não podiam durar muito tempo no governo da China, pois o império foi imediatamente tomado por um sentimento de terror e de desconfiança. Mas deixemos esse assunto para nos concentrarmos no que nos interessa aqui.

Nessas condições, Mêncio recolheu-se e dedicou-se a escrever esta obra: Mêncio, que é uma obra composta por diálogos entre ele mesmo e os reis e duques que ele chegou a visitar. Assim, os diálogos têm como tema central a Boa Governação: a respeito das grandes conquistas através das virtudes.

Mêncio foi um brilhante orador, exímio nos debates, possuía um excepcional talento em dialética e retórica. Seus textos constituem longos e substanciais discursos. Além de eloqüentes, são enriquecidos com belíssimas metáforas, citações sábias do Livro dos Cantares, contendo, inclusive, passagens tão belas e tantas que seria difícil praticar-se uma seleção destinada a um livro em que se fala de Confúcio.

Sem dúvida, seu tema é a ética política; entretanto, desenvolveu conceitos tão importantes a respeito da Natureza Humana (que acredita ser boa), bem como outros conceitos que Confúcio não chegou a aprofundar e deixou demasiadamente abertos, possibilitando interpretações diversificadas entre seus seguidores.

Mas é Mêncio (considerado o maior e o mais fiel sucessor das idéias de Confúcio) que melhor representa a linha ortodoxa da escola confuciana.

As idéias que Mêncio desenvolveu representam como que um desdobramento sério e profundo das principais idéias de Confúcio; tanto que hoje, seria impossível querer ter uma noção boa dos ensinamentos confucianos sem ler algo desse ilustre seguidor. Como afirma Hantse, citado por Lin Yutang (1958):

“Os ensinamentos de Confúcio eram vastos e abrangiam amplos setores, sendo impossível que algum de seus discípulos os dominasse todos. Por isto, os primeiro adeptos de Confúcio houveram por bem ater-se cada qual a um ramo desses ensinamentos, de acordo com as possibilidades e preferências individuais. Mais tarde, esses discípulos dispersaram-se e foram estabelecer-se em diversas regiões, onde começaram a divulgar o que cada um deles havia aprendido – naturalmente afastando-se dos ensinamentos originais à medida que, no tempo e no espaço, iam-se também afastando do Mestre. Mêncio foi o único a estudar com Tsezse, cujo aprendizado confuciano fora ministrado por Tsengse. Após a morte de Confúcio, só Mêncio foi capaz de manter a tradição ortodoxa. Eis por que, ao estudarem-se as idéias do Sábio, deve-se começar por Mêncio, que foi o mais fiel dos fieis intérpretes de Confúcio – havendo ainda Hsuntse e Yangtse, que de modo geral foram fiéis, mas com ligeiras adulterações”.

Mêncio também foi o maior historiador de sua época, dominando magistralmente tudo quanto dizia respeito a sistemas fiscais, organização agrícola e regime feudal chinês.

Entre todos os conceitos desenvolvidos por Mêncio, particularmente, aqui neste capítulo, nos interessa apenas os que dizem respeito à questão da ética política:

- a distinção entre o governo pela virtude e o governo pela força; ou seja, a distinção entre um bom governo e um ditador;

- a proclamação (inédita na China) de que derrubar um governo ditador não é o mesmo que trair seu príncipe (pois príncipe digno de fidelidade, respeito e devoção dos súditos é unicamente aquele que exerce um bom governo);

- o conceito do “bom governo”, do “governo pelos exemplos”;

- o emprego (inédito) da expressão “governo benigno”.

O que nos fascina nesse texto, é que, infelizmente, ele continua atual. Diante de um cenário internacional marcado por conflitos o que temos hoje, vale a pena retomarmos e refletirmos um pouco mais as palavras de Mêncio.

Tradução Literária

Como se sabe, a tarefa de traduzir um texto originalmente de língua chinesa para uma língua ocidental, como a língua portuguesa, não é, de forma alguma, um trabalho de mera tradução, pois trata-se de línguas e culturas muito distintas e, além do mais, um texto antigo. A complexidade aumenta com a presença de termos com analogias diferentes nas duas línguas, pois um descuido do tradutor pode implicar, no leitor, associações errôneas graves. Assim, nesse capítulo, foi realizado um trabalho de tradução literária dos textos de Mêncio, visando não somente traduzi-los fielmente, como também passar as idéia do pensador em questão para os estudantes brasileiros de maneira mais próxima da nossa língua e nossa realidade atual.

 

梁惠王章句上

(Livro I – A)

1.        孟子見梁惠王. 王曰: ! 不遠千里而來, 亦將有以利吾國乎?

孟子對曰:“王何必曰利?亦有仁義而已矣!王曰:何以利吾國,大夫曰:何以利吾家,士,庶人曰:何以利吾身;上下交征利,而國危矣!萬乘之國,弒其君者,必千乘之家;千乘之國,弒其君者,必百乘之家.萬取千焉,千取百焉; 不為不多矣! 茍為後義而先利, 不奪不饜. 未有人而遺其親者也; 未有義而後其君者也. 王亦曰仁義而已矣! 何必曰利?

Mêncio visitara o rei Hui de Liang. Disse-lhe o rei: “O Senhor que vem de tão longe, deve ter algum proveito para oferecer ao nosso Estado, não é?”

Mêncio lhe respondeu: “Por que Vossa Majestade há de falar em proveitos? Pois só tenho o humanismo e a justiça para oferecer. Se o rei perguntar: que proveito trazeis ao meu Estado?, os ministros perguntarão: que proveito trazeis a minha casa?, e os funcionários e pessoas simples perguntarão, então: que proveito trazeis para cada um de nós? Todos trocarão proveitos de acordo com seus interesses, e o Estado estará em riscos! Num Estado grande de dez mil quadrigas, o assassino do seu rei deverá ter uma família de mil quadrigas. Num Estado pequeno de mil quadrigas, o assassino de seu rei deve ter cem quadrigas. Tirar mil de dez mil, ou tirar cem de mil, não se pode achar que não é muito! Pois aquele que deixa para trás a justiça e busca primeiro o proveito não descansará enquanto não se apodera de tudo.

Não há homem que tenha a virtude da Humanidade que abandone seus pais, nem homem justo que desrespeite seu rei! Vossa Majestade deve falar somente da Humanidade e da Justiça, para que falar de proveitos?”

1.        孟子見梁惠王, 王立於沼上, 顧鴻鴈麋鹿, : 賢者亦樂此乎?

孟子對曰:“賢者而後樂此; 不賢者雖有此不樂也. 詩云: 經始靈台, 經之營之, 庶民攻之, 不日成之; 經始勿亟. 庶民子來. 王在靈囿, 麀鹿攸伏. 麀鹿濯濯; 白鳥鶴鶴. 王在靈沼, 於牣魚躍.文王以民力為臺為沼, 而民歡樂之, 謂其臺曰靈臺, 謂其沼曰靈沼, 樂其有麋鹿魚虌. 古之人與民偕樂, 故能樂也. 湯誓曰: 時日害喪? 予及女偕亡!民欲與之偕亡, 雖有臺池鳥獸, 豈能獨樂哉!

Mêncio visitara o rei Hui de Liang. O rei estava de pé à beira de uma represa e, contemplando os gansos gigantes e magníficos alces, disse-lhe: “os virtuosos também gostam desses prazeres?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Os virtuosos é que gostam (e podem usufruir) desses prazeres; os que não o são, ainda que os tenham, não os aproveitarão. Dizem os Cantares: ‘A Torre Alta se iniciou: planeada, e logo em pé. Tanta gente a trabalhar, nem dias foram precisos. Começou e sem urgir os filhos do povo a virem. Estava o rei Wén no Parque Grande. Andava por ele as corças: corças nédias. Se eram nédias! E aves brancas, branquinhas! Estava o rei Wén na Presa Grande, cheia de peixes saltando [1] ’ O rei Wén construiu a Torre e o Lago com a ajuda do povo, e o povo alegrou-se com isso, e chamou a Torre de Torre Espirituosa, e chamou o Lago de Lago Espirituoso, e todos se alegraram com os alces gigantes, peixes e tartarugas que lá havia. Os Antigos Príncipes compartilhavam os prazeres junto com o povo, portanto, podiam aproveitá-los. Dizem as Escrituras: ‘Que dia será o seu fim? Junto de vós morreremos [2] ’; onde o sofrimento era tão grande que o povo deseja morrer junto com seu Príncipe, para que servem torres, lagos, aves e belos animais se não faz sentido ter os prazeres sozinho?”

3. 梁惠王曰: 寡人之於國也, 盡心焉耳矣! 河內兇, 則移其民於河東, 移其粟於河內; 河東兇, 亦然. 察鄰國之政, 無如寡人之用心者; 鄰國之民不加少, 寡人之民不加多, 何也?

孟子對曰:“王好戰, 請以戰喻: 填然鼓之, 兵刃既接, 棄甲曳兵而走, 或百步而後止, 或五十步而後止; 以五十步笑百步, 則何如? : 不可, 直不百步耳, 是亦走也!

: 王如知此, 則無望民之多於鄰國也. 不違農時, 穀不可勝食也; 數罟不入洿池, 魚虌不可勝食也; 斧斤以時入山林, 材木不可勝用也. 穀與魚虌不可勝食也, 材木不可勝用, 是使民養生喪死無憾也; 養生喪死無憾, 王道之始也. 五畝之宅, 樹之以桑, 五十者可以衣帛矣; 雞豚狗彘之序畜, 無失其時, 七十者可以食肉矣; 百畝之田, 勿奪其時, 數口之家, 可以無飢矣; 謹庠序之教, 申之以孝悌之義, 頒白者不負戴於道路矣. 七十者衣帛食肉, 黎民不飢不寒, 然而不王者, 未之有也.

狗彘食人食而不知檢; 塗有餓莩而不知發. 人死, 則曰: 非我也, 歲也.是何異於刺人而殺之, : 非我也, 兵也.王無罪歲, 斯天下之民至焉.

Disse o rei Hui de Liang a Mêncio: “Posso dizer que me dedico totalmente a meu Estado. Se há fome na região de Hé-nèi, tiro o povo de lá, transfiro-o para Hé-dong e levo alimentos para Hé-nèi; se há fome na região de Hé-dong, faço o mesmo. Ora, se verificarmos os regentes dos Estados vizinhos, concluiremos que não há ninguém tão dedicado quanto eu; mas a população dos Estados vizinhos não diminuiu, e a do meu Estado não aumentou. Por quê?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Vossa Majestade gosta de guerra, vou usá-la como exemplo: os tambores que anuciam o início da guerra tocaram, e as armas das duas tropas já se cruzaram; entre os soldados que abandonaram suas armaduras e armas, alguns correram cem passos, e outros fugiram apenas cinqüenta passos. Que diria o rei se aqueles que fugiram cinqüenta passos rissem dos que fugiram cem passos?”. O rei respondeu: “Ora, o problema não está nos cinqüenta ou cem passos, mas o ter fugido.”

Disse Mêncio: “Já que a Vossa Majestade assim concluiu, então não deveria esperar que a população do seu Estado seja maior que as dos vizinhos. Se não desrespeitar as épocas de plantação, haverá cereal com fartura; se não se lançam redes apertadas nas profundezas das represas, sobrarão peixes e tartarugas; se os machados entrarem no bosque apenas na época certa, não faltará madeira para o uso. Se houver cereais, peixes e tartarugas sobrando, e também madeira e lenha de sobra, o povo poderá alimentar os vivos e enterrar os mortos, sem descontentamento; dar condições para que o povo não tenha que se preocupar com o nutrir da vida e nem com o enterrar da morte, é o princípio do Caminho da Boa Administração.

Se, nas casas de cinco geiras, plantar amoreiras, então pessoas de cinqüenta anos poderão vestir-se de seda; se, na criação de gado, não desrespeitar os tempos próprios de procriação, então pessoas de setenta anos poderão alimentar-se de carnes; se, nos arados de cem geiras, não forem privados dos seus tempos de cultivo, mesmo em lares populosos não haverá fome; seja atencioso e prudente na educação escolar, ensine ao povo os deveres da piedade familiar, então idosos de cabelos brancos não se verão pelos caminhos de cargas pesadas nas costas. Tendo sedas para vestir e carnes para alimentar os idosos de setenta anos, tendo o povo sem passar fome nem frio, ainda não se viu alguém assim que não se torna um Grande Príncipe.

Mas atualmente, nas épocas de fartura, até cães e porcos comem alimento dos homens e não sabem mais guardar para épocas de escassez; e nas épocas de escassez, há gente morta de fome e o governo nem abre seus depósitos para salvar o povo. O povo morrendo e o príncipe disse: ‘Não é culpa minha, mas sim dos anos de infortúnio’. Que diferença há nisso com aquele que mata as pessoas e depois diz: ‘Não fui eu, foi a arma’? Se o príncipe não culpar os anos pelas desgraças, então terá aos seus pés todos os povos do mundo”.

4.      梁惠王曰: 寡人願安承教. 孟子對曰:“殺人以梃與刃, 有以異乎? : 無以異也. 以刃與政, 有以異乎? : 無以異也.

: 庖有肥肉, 廄有肥馬; 民有飢色, 野有餓莩; 此率獸而食人也! 獸相食, 且人惡之; 為民父母行政, 不免於率獸而食人, 惡在其為民父母也? 仲尼曰: 使作俑者, 其無後乎!為其象人而用之也; 如之何其使斯民飢而死也?

Disse o rei Hùi de Liáng: “Eu desejo receber modestamente vossos ensinamentos”.

Replicou-lhe Mêncio: “Há alguma diferença entre matar uma pessoa com um pau e matar com um punhal?”

Respondeu o rei: “Não há diferença”.

Perguntou ainda: “Há alguma diferença entre matar o povo usando um punhal e matar usando política?”

Respondeu o rei: “Não há diferença”.

Disse Mêncio: “Tendo boas carnes na vossa cozinha, e cavalos gordos na vossa estrebaria, mas o povo anda com cara de fome, e há mortos à fome pelo descampado, levando feras selvagens a comê-los! Animais selvagens comem-se uns aos outros, por isso os homens não gostam deles; se o governo, que é aquele que deve ser como se fosse pai e mãe do povo, não poder impedir com que os animais selvagens comam as pessoas, então que tipo de pai e mãe é ele? Disse Confúcio uma vez: ‘Aquele que inventou as estátuas para serem enterradas junto com os mortos, não deve ter descendentes’. Pois Confúcio achava cruel aquele que deu forma humana a estátuas e as usou como sacrifícios; o que dirá então daquele que mata o povo à fome?”

5. 梁惠王曰: 晉國, 天下莫強焉, 叟之所知也. 及寡人之身, 東敗於齊, 長子死焉; 西喪地於秦七百里; 南辱於楚: 寡人恥之, 願比死者一洒之! 如之何則可?

孟子對曰:“地方百里, 而可以王. 王如施仁政於民, 省刑罰, 薄稅斂; 深耕易耨; 壯者以暇日, 修其孝悌忠信, 入以事其父兄, 出以事其長上; 可使制梃以撻秦、楚之堅甲利兵矣. 彼奪其民時, 使不得耕耨, 以養其父母; 父母凍餓, 兄弟妻子離散. 彼陷溺其民, 王往而征之, 夫誰與敵? 故曰: 仁者無敵.王請勿疑!

Disse o rei Hùi de Liáng: “O meu Estado de Jìn é o mais forte de todos, o senhor sabe disso. Mas agora que está sob minha administração, a leste, fomos derrotados pelos Qí, onde jaz o meu filho mais velho; a oeste, perdemos setecentos milhas de terra para Qín; a Sul, fomos humilhados por Chu: a ofensa que recebi com isso, dá-me o desejo de, em nome dos mortos, lavar a afronta de uma vez. Como se pode conseguir isso?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Com um território de cem milhas, já se pode se considerar um rei. Se Vossa Majestade aplicar a administração ético-humano, diminuindo as punições, reduzindo os impostos; promovendo a produção agrícola, e além disso incentivar os jovens a cultivar, nos tempos de folga, as virtudes da piedade filial e da fidelidade, a servir em casa  aos pais e aos irmão, a servir fora de casa aos superiores e aos mais velhos; então tereis homens capazes de enfrentar, mesmo com varapaus, os soldados de Qín e de Chu e suas armaduras fortes e armas fiadas. Aqueles príncipes de Qín e de Chu tiram do povo o seu tempo de plantação recrutando-os para a guerra, fazendo com que não possam mais cultivar, deixando-os sem poder alimentar seus pais; os pais morrendo de fome e de frio, os irmãos e os esposos separados por causa da guerra; aqueles príncipes de Qín e de Chu arruinam a vida do povo, se Vossa Majestade tentar conquistá-los agora, quem haverá de se opor? Por isso, dizem os antigos: ‘Quem tem a virtude da benevolência, não tem inimigos’. Vossa Majestade não tenha dúvida disso!”.

6. 孟子見梁襄王, 出語人曰: 望之不似人君, 就之而不見所畏焉.卒然問曰: 天下惡乎定?吾對曰: 定于一.’‘熟能一之? 對曰: 不嗜殺人者能一之.’‘熟能與之? 對曰: 天下莫不與也. 王知夫苗乎?七八月之間旱, 則苗槁矣. 天油然作雲, 沛然下雨, 則苗浡然興之矣. 其如是, 熟能禦之?今夫天下之民, 皆引領而望之矣. 誠如是也, 民歸之, 由水之就下, 沛然誰能禦之?’”

Mêncio visita o rei Xiang de Liáng. Saindo de lá, disse para alguém: “Vendo-o, nem parece um príncipe; ao me aproximar dele, não vi nele modos de príncipe. Perguntou-me repentinamente: ‘Como é que se estabelece a paz no império/mundo?’ E eu lhe respondi: ‘É preciso haver uma unificação’. Perguntou: ‘Quem poderia unificar o império?’ Respondi: ‘Quem não tiver prazer em matar, conseguirá uni-lo’ Perguntou: ‘E quem se juntará a ele?’ Respondi: ‘Não há quem não se juntará a ele. Vossa Majestade sabe dos cereais? Durante a seca do sétimo e do oitavo mês do ano, as plantações quase morrem de seca. Mas então o céu se carrega de nuvens, e cai uma chuva grossa, e as plantas começam a brotar com vigor. E como se poderia impedir este fenômeno? Atualmente, entre os príncipes de todos os Estados, não se encontra sequer um que não goste de matar; se houvesse um que não gostasse de matar, todo o povo estenderia o pescoço a olhar para ele. Sendo assim, todo o povo o seguiria, como a água que naturalmente corre para baixo, e com tanta força, que ninguém poderia pará-la’”.

7. 齊宣王問曰: 齊桓、晉文之事, 可得聞乎? 孟子對曰:“仲尼之徒, 無道桓、文之事者, 是以後世無傳焉, 臣未之聞也; 無以則王乎!

: 德何如, 則可以王矣? : 保民而王, 莫之能禦也. : 若寡人者, 可以保民乎哉? : ! : 何由知吾可也? : 臣聞之胡齕曰: 王坐於堂上, 有牽牛而過堂下者, 王見之, : 牛何之?對曰: 將以釁鐘.王曰: 舍之, 吾不忍其觳觫, 若無罪而就死地.對曰: 然則廢釁鐘與?: 何可廢也? 以羊易之!’’不識有諸? : 有之 : 是心足以王矣! 百姓皆以王為愛也; 臣固知王之不忍也!

王曰: ! 誠有百姓者. 齊國雖褊小, 吾何愛一牛? 即不忍其觳觫, 若無罪而就死地, 故以羊易之也! : 王無異於百姓之以王為愛也; 以小易大, 彼惡知之? 王若隱其無罪而就死地, 則牛羊何擇焉? 王笑曰: 是誠何心哉! 我非愛其財, 而易之以羊也. 宜乎百姓之謂我愛也. : 無傷也, 是乃仁術也. 見牛未見羊也. 君子之於禽獸也, 見其生, 不忍見其死; 聞其聲, 不忍食其肉. 是以君子遠庖廚也.

王說曰: 詩云: 他人有心, 予忖度之.夫子之謂也! 夫我乃行之, 反而求之, 不得吾心; 夫子言之, 於我心有戚戚焉. 此心之所以合於王者, 何也? : 有復於王者曰: 吾力足以舉百鈞, 而不足以舉一羽; 明足以察秋毫之末, 而不見輿薪.則王許之乎? : 今恩足以及禽獸, 而功不至於百姓者, 獨何與? 然則一羽之不舉, 為不用力焉; 輿薪之不見, 為不用明焉; 百姓之不見保, 為不用恩焉.

故王之不王, 不為也, 非不能也.

: 不為者與不能者之形, 何以異? : 挾太山以超北海, 語人曰: 我不能是誠不能也; 為長者折枝, 語人曰: 我不能是不為也, 非不能也. 故王之不王, 是折枝之類也. 老吾老, 以及人之老; 幼吾幼, 以及人之幼; 天下可運於掌.

詩云: 刑于寡妻, 至于兄弟, 以御于家邦.言舉斯心, 加諸彼而已. 故推恩足以保四海; 不推恩無以保妻子. 古之人所以大過人者, 無他焉, 善推其所為而已矣. 今恩足以及禽獸, 而功不至於百姓者, 獨何與? , 然後知輕重; , 然後知長短; 物皆然, 心為甚. 王請度之! 抑王興甲兵, 危士臣, 構怨於諸侯, 然後快於心與? 王曰: , 吾何快於是? 將以求吾所大欲也.

: 王之所大欲, 可得聞與? 王笑而不言. : 為肥甘不足於口與? 輕煖不足於體與? 抑為采色不足視於目與? 聲音不足聽於耳與? 便嬖不足使令於前與? 王之諸臣, 皆足以供之; 而王豈為是哉? : ! 吾不為是也. : 然則王之所大欲可知已: 欲辟土地, 朝秦、楚, 蒞中國, 而撫四夷也. 以若所為, 求若所欲, 猶緣木而求魚也. 王曰: 若是其甚與! : 殆有甚焉! 緣木求魚, 雖不得魚, 無後災; 以若所為, 求若所欲, 盡心力而為之, 後必有災. : 可得聞與?

: 鄒人與楚人戰, 則王以為孰勝? : 楚人勝 : 然則小固不可以敵大, 寡固不可以敵眾, 弱固不可以敵彊. 海內之地, 方千里者九, 齊集有其一; 以一服八, 何以異於鄒敵楚哉? 蓋亦反其本矣. 今王發政施仁, 使天下仕者皆欲立於王之朝, 耕者皆欲耕於王之野, 商賈皆欲藏於王之市, 行旅皆欲出於王之塗, 天下之欲疾其君者, 皆欲赴愬於王: 其若是, 孰能禦之?

王曰: 吾惛, 不能進於是矣! 願夫子輔吾志, 明以教我; 我雖不敏, 請嘗試之. : 無恆產而有恆心者, 惟士為能. 若民, 則無恆產, 因無恆心; 茍無恆心, 放辟邪侈, 無不為已. 及陷於罪, 然後從而刑之, 是罔民也. 焉有仁人在位, 罔民而可為也? 是故明君制民之產, 必使仰足以事父母, 俯足以畜妻子; 樂歲終身飽, 兇年免於死亡; 然後驅而之善, 故民之從也輕.

今也制民之產, 仰不足以事父母, 俯不足以畜妻子; 樂歲終身苦, 兇年不免於死亡; 此惟救死而恐不贍, 奚暇治禮義哉? 王欲行之, 則盍反其本矣? 五畝之宅, 樹之以桑, 五十者可以衣帛矣; 雞豚狗彘之畜, 無失其時, 七十者可以食肉矣; 百畝之田, 勿奪其時, 八口之家, 可以無飢矣. 謹庠序之教, 申之以孝悌之義, 頒白者不負戴於道路矣. 老者衣帛食肉, 黎民不飢不寒; 然而不王者, 未之有也.

O rei Xuan de Qí perguntou a Mêncio: “Poderia perguntar sobre os feitos dos tiranos Qí Huán e Jìn Wún?” Respondeu-lhe Mêncio: “Entre os discípulos de Confúcio, não há quem comentasse dos corruptos Huán e Wún, assim, eles não ficaram na tradição, e nunca tive acesso a suas histórias; nesse caso, que tal falarmos do Caminho da Boa Administração?”

Perguntou: “Quais são as virtudes necessárias para ser um soberano que segue o Caminho da Boa Administração?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Deve saber proteger seu povo, e assim ninguém poderá impedi-lo”

Perguntou: “Alguém como eu será capaz de assegurar o bem-estar do povo?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Sim!”

Perguntou o rei: “Como sabes que serei capaz disso?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Ouvi um súdito seu, Hú-hé, contar o seguinte: ‘uma vez, o rei estava sentado na esplanada, quando um homem estava passando em baixo com um boi. O rei, vendo-o, perguntou: ‘Para onde leva este boi?’ Respondeu-lhe o homem: ‘Para ser sacrificado’ Disse o rei: ‘Deixe-o, não posso vê-lo tão assustado, como se fosse um inocente que está a caminho da execução’ Perguntou o homem: ‘Então devo cancelar o sacrifício?’ Respondeu o rei: ‘Como poderia cancelar? Substitui-o por um carneiro’. E eu não sei se isto aconteceu de fato.”

Respondeu o rei: “Sim, aconteceu”.

Disse Mêncio: “O vosso bom coração é suficiente para ser um rei. Quem não o compreende pensa que Vossa Majestade estava com pena de sacrificar o boi por mesquinharia; mas eu sei que foi por compaixão!”

Disse o rei: “Sim! De fato, houve pessoas que pensaram assim! Embora Qí seja um Estado pequeno, mas como eu poderia ser tão mesquinho a ponto de querer economizar um boi? Foi realmente porque não podia vê-lo sofrer tanto, como que um inocente que vai ser executado, e mandei substituí-lo por um carneiro”.

Disse Mêncio: “Vossa Majestade não estranhe que o povo possa ter tido essa impressão; pois trocando o pequeno pelo grande, como eles podiam entender? Se a Vossa Majestade teve pena do boi por ser um inocente, por que razão trocar por um carneiro [que é tão inocente quanto o boi]?”

O rei riu e disse: “Não sei qual foi, de fato, a minha inteção na ocasião! Eu não me importava com o gasto, mas simplesmente troquei por um carneiro! E acabei dando motivo ao povo pensar que foi por mesquinharia”.

Disse Mêncio: “Não faz mal! Foi por misericórdia. Pois Vossa Majestade só viu o sofrimento do boi, e não viu o do carneiro. Um homem ético, perante os animais, se os viu vivos, não pode vê-los morrendo; se ouviu seus gritos de sofrimento, não tem coragem de comê-los. É por esta razão que o homem ético se mantêm longe da cozinha.”

Disse o rei contente: “Dizem os Cantares: ‘O que os outros ora pensam / refletindo se adivinha [3] ’ Este verso foi comprovado por vós agora! Eu, embora, me comportei de um jeito, porém, ao ser perguntado pelo motivo, não o sabia dizer; as vossas palavras tocaram o meu coração pois condizem com o meu sentimento. Mas, por que esse meu sentimento me capacita a ser um bom rei?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Se alguém vos dizesse que ‘tenho forças para levantar cem cates [4] , entretanto não sou capaz de erguer uma pena; tenho uma visão para enxergar as pontas de pelos de um animal que arrepiam no frio do outono, entretanto não sou capaz de enxergar um carro de lenhas’, Vossa Majestade acreditaria nisso?”

Respondeu o rei: “Não.”

Disse Mêncio: “Pois, a misericórdia da Vossa Majestade pode chegar aos animais, e no entanto esta não é dada ao povo, por que razão? De fato, não ser capaz de levantar uma pena é porque não quer fazer o esforço; e não ser capaz de enxergar um carro de lenhas é porque não quer ver; e se o povo não é beneficiado é porque a vossa bondade não lhe foi aplicada. É por isso que a Vossa Majestade não sois um Príncipe de verdade; por não o quererdes e não por não poderdes”.

Disse o rei: “Entre as situações daquele que não realiza e daquele que não pode, qual é a diferença?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Se pedir para alguém tomar o Monte Tài pelos braços e atravessar com ele o Mar do Norte, e esta pessoa dizer que ‘não posso fazê-lo’, é não poder de fato; mas se pedir para alguém arrancar um galho para um idoso, e ele dizer que não pode, então é porque não quer realizar, e não por não poder. Portanto, o fato de a Vossa Majestade não serdes um Príncipe, não é como o caso de não poder atravessar o Mar do Norte com o Monte Tài debaixo dos braços, mas é como o caso de não arrancar um galho de árvore. Respeitai, primeiramente, os vossos velhos, e então estender esse respeito aos velhos dos outros; protegei, antes de tudo, as vossas crianças, e então estender esta proteção às criancas dos outros; tereis então o Império na palma da vossa mão.

Dizem os Cantares: ‘Antes, ele foi um exemplo para a esposa / depois, para os irmãos / e então pode influenciar um Estado’. O poema diz como a bondade pode influenciar os outros. Por isso, quem consegue promover o bem pode dominar o mundo, e quem não o consegue, pode até perder esposa e filhos. A razão pela qual os antigos nos superam não é outra senão porque sabiam promover/alargar/ampliar seus feitos. Agora, a bondade beneficia apenas os animais, e no entanto não chega a beneficiar o povo, como se pode explicar? É pesando que se conhece o peso de algo; é medindo que se sabe a medida de algo; é assim que se conhece objetos, e assim também se lida com corações. Que a Vossa Majestade meditai sobre isso! Pois, pelo que vejo, Vossa Majestade quer promover guerra, pondo em risco a vida dos vossos súditos, provocando a ira dos senhores feudais, e isso vos dá prazer?”

Disse o rei: “Não! Como isso poderia me dar prazer? Eu apenas procuro realizar o meu maior desejo”.

Disse Mêncio: “E pode-se saber qual é o maior desejo da Vossa Majestade?”

O rei sorriu e não lhe respondeu.

Disse Mêncio: “Seria porque as iguarias não satisfazem vosso apetite? Seria porque as refinados vestes não satisfazem vosso corpo? Seria porque as belas cores não satisfazem vossa visão? Seria porque as belas músicas não satisfazem vossos ouvidos? Seria porque os servos não bastam para vosso uso? Vossos súditos vos providenciam tudo! Então, por que se preocupar com isso?”

Disse o rei: “Não! Não é com isso que me preocupo!”

Disse Mêncio: “Então, já se pode saber qual seria o vosso maior desejo! Vosso desejo é ampliar vosso território, receber homenagens de Estados como Qín e Chu, reinar no Estado Central, e dominar os povos bárbaros. Mas pelo que tem feito, a realização desse desejo vos será tão difícil quanto buscar peixes nas árvores”.

Disse o rei: “Esta comparação é exagerada!”

Disse Mêncio: “Na realidade, vossa situação é pior! Buscar peixes nas árvores pode não obter sucesso, entretanto também não trará nenhum mal; ao passo que se vós fazeis o que sempre fazeis, para conseguir realizar vossa conquista, e pondo todo o empenho nisso, no fim tereis certamente conseqüências infelizes”.

Disse o rei: “Pode-se saber como?”

Disse Mêncio: “Se o Estado de Zou enfrentar Chu numa guerra, quem Vossa Majestade acha que vai vencer?”

Disse o rei: “Vencerá Chu”

Disse Mêncio: “É porque os pequenos não podem combater com os grandes, os poucos não podem combater com os muitos, e os fracos não podem combater com os fortes. O território dos mares a dentro, há nove regiões de mil léguas, apenas uma delas é de Qí; um contra oito, que diferença isso tem com Zou enfrentar Chu? Assim só vai prejudicar o que já possuía. Mas, se a Vossa Majestade aplicasse a Boa Governação, todos os funcionários dos outros governos desejarão ser vossos funcionários, todos os agricultores desejarão cultivar vossos campos, todos os comerciantes desejarão fazer negócios nos vossos mercados, todos os viajantes desejarão passar por vosso território, todos os povos que estejam descontentes com seus dirigentes desejarão queixar-se com Vossa Majestade. Se Vossa Majestade alcançar isto, quem poderá impedi-lo de dominar o Império?”

Disse o rei: “Sou um ignorante, incapaz destas realizações! Peço que o mestre me guie nos meus propósitos, e que me ensine claramente; embora eu não seja inteligente, mas quero tentar”.

Disse Mêncio: “Somente os que estudaram podem ter um coração constante mesmo não tendo propriedades estáveis. Pessoas simples não têm um coração constante por não terem propriedades estáveis; por não ter um coração constante, estão mais sujeitos a vícios e crimes, e são capazes de tudo. Se o povo cometer esses erros por falha do governo, e ainda são punidos por isso, é como armar uma rede para pegar o povo. Como isso poderia acontecer se tivesse um Bom Príncipe no poder? Por isso, um Príncipe esclarecido deve cuidar das condições econômicas do povo, deve permitir que tenha o suficiente para sustentar os pais, e prover o bastante para a criação dos filhos; deve proporcionar abundância nos anos de boa colheita, e permitir a sobrevivência nos anos de escassez; e depois poderá incentivá-lo a praticar o bem, que o povo o fará facilmente.

Ora, atualmente, as políticas de subsistência não dão condições para que o povo possa sustentar seus pais, e nem criar seus filhos; o povo sofre nos anos de abundância, e não escapa da morte nos anos de escassez; assim, só consegue pensar na luta pela sobrevivência, pois não lhe sobra tempo para pensar nos ritos e nem na justiça (no certo e errado). Se Vossa Majestade quiser realizar a Boa Governação, por que não agir de acordo com seu princípio?

Se, em cada propriedade de cinco geiras, plantasse amoreiras, então os homens de cinqüenta anos poderão vestir-se de setim; se não desrespeitasse as épocas de procriação dos gados, então os homens de setenta anos poderão alimentar-se de carne; se distribuisse para cada homem cem geiras de terra, e não lhe roubar o tempo de plantação [convocando-o para guerras], então não haverá fome mesmo nas famílias de oito pessoas. Cuide da educação nas escolas, ensine o povo sobre os deveres da piedade filial e familiar, então os idosos de cabelos brancos não andarão carregados pelos caminhos. Se os velhos tiverem setim para se vestir e carnes para se alimentar, se os jovens não passarem nem fome nem frio, então será impossível que Vossa Majestade não domine o império”.

梁惠王章句下

(Livro I – B)

1. 莊暴見孟子曰: 暴見於王, 王語暴以好樂, 暴未有以對也. : 好樂, 何如? 孟子曰: 王之好樂甚, 則齊國其庶幾乎!

他日見於王曰: 王嘗語莊子以好樂, 有諸? 王變乎色, :“寡人非能好先王之樂也, 直好世俗之樂耳! : 王之好樂甚, 則齊其庶幾乎! 今之樂, 由古之樂也. : 可得聞與? : 獨樂樂, 與人樂樂, 孰樂? : 不若與人. : 與少樂樂, 與眾樂樂, 孰樂? : 不若與眾.

臣請為王言樂; 今王鼓樂於此, 百姓聞王鐘鼓之聲, 管籥之音, 舉疾首蹙頞而相告曰: 吾王之好鼓樂, 夫何使我至於此極也? 父子不相見, 兄弟妻子離散!’ 今王田獵於此, 百姓聞王車馬之音, 見羽旄之美, 舉疾首蹙頞而相告曰: 吾王之好田獵, 夫何使我至於此極也? 父子不相見, 兄弟妻子離散!’ 此無他, 不與民同樂也. 今王鼓樂於此, 百姓聞王鐘鼓之聲, 管籥之音, 舉欣欣然有喜色而相告曰: 吾王庶幾無疾病與! 何以能鼓樂也?’ 今王田獵於此, 百姓聞王鐘鼓之聲, 管籥之音, 舉欣欣然有喜色而相告曰: 吾王庶幾無疾病與! 何以能田獵也?’ 此無他, 與民同樂也. 今王與百姓同樂, 則王矣.”

Zhuang-Bào visita Mêncio e lhe diz: “Fui visitar o rei [de Qí], e ele me disse que gostava de música. Não me ocorreu nada para lhe responder. O rei afirma gostar de música. Que dizeis sobre isto?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Se o rei realmente gostasse profundamente da música, então o Estado de Qí teria salvação”.

Dias depois, Mêncio visita o rei [de Qí], e lhe disse: “Vossa Majestade teria dito a Zhuang-Bào que gostava de música, é verdade?”

O rei corou e respondeu: “Não sei apreciar a boa música dos antigos Reis, apenas gosto das musiquinhas populares de hoje!”

Disse Mêncio: “Se Vossa Majestade gostar profundamente da música, então, o Estado de Qí será beneficiado! A música atual tem sua origem na música antiga”.

Disse o rei: “Podeis me falar disso?”

Disse Mêncio: “Apreciar a música a sós, ou apreciá-la com outros, onde haverá mais prazer?”

Respondeu-lhe o rei: “Não há prazer comparável como o de apreciar a música com outros”.

Perguntou Mêncio: “Com poucos, ou com muitos, onde é que há mais prazer?”

Respondeu-lhe o rei: “Não há prazer maior do que apreciar a música com muitos”.

Disse Mêncio: “Permita-me que eu lhe fale da música:

Se hoje Vossa Majestade mandasse tocar uma música, e, ao ouvir o som dos instrumentos [sinos, tambores, flautas e pífaros], o povo sentisse dor de cabeça e torcesse o nariz, queixando-se um com outro, dizendo: ‘Nosso rei gosta de música, por que então nos deixa viver nas situações de limite [de extrema miséria]? Pais e filhos não se vêem; irmãos, esposos, e filhos encontram-se dispersos?’; se hoje Vossa Majestade vai praticar a caça, e, ao ouvir o ruído das carroças e dos cavalos, e ao ver as belas bandeiras e guiões, o povo sente dor de cabeça e torce o nariz, queixando-se um com outro, dizendo: ‘Nosso rei gosta de caçar, por que então nos deixa viver nessa miséria? Pais e filhos não se vêem; irmãos, esposos, e filhos encontram-se dispersos?’. Pois, não há outra razão para tais queixas senão porque Vossa Majestade não desfruta junto com o povo.

Mas se hoje Vossa Majestade mandasse tocar uma música, e todo o povo, ao ouvir o som dos instrumentos, satisfeito e alegremente, um diz ao outro: ‘Nosso rei deve estar muito bem, sem problemas de saúde! Senão como poderia ter essa música!’; se hoje Vossa Majestade sai a caça, e todo o povo, ao ouvir o barulho dos carros e cavalos, e ao ver as belas bandeiras, comenta satisfeito e alegremente um com o outro, dizendo: ‘Nosso rei deve estar muito bem, sem problemas de saúde! Senão como poderia ir caçar!’. Ora, não há outra razão para tais alegrias senão porque Vossa Majestade se alegra juntamente com o povo.

Se Vossa Majestade souber desfrutar os prazeres junto com o povo, poder-se-á tornar um verdadeiro imperador”.

2. 齊宣王問曰: “文王之囿, 方七十里, 有諸?” 孟子對曰: “於傳有之.” : “若是其大乎?” : “民猶以為小也!” : “寡人之囿, 方四十里, 民猶以為小, 何也?”

: “文王之囿, 方七十里: 芻蕘者往焉, 雉兔者往焉, 與民同之; 民以為小, 不亦宜乎? 臣始至於境, 問國之大禁, 然後敢入. 臣聞郊關之內, 有囿方四十里, 殺其麋鹿者, 如殺人之罪. 則是方四十里, 為阱於國中; 民以為大, 不亦宜乎?”

O rei Xuan de Qí perguntou: “O parque zoológico que possuía o rei Wén era de setenta estádios, isso é verdade?”

Respondeu Mêncio: “Assim se registra nas Crônicas”.

Disse o rei: “Era mesmo tão grande?”

Respondeu-lhe Mêncio: “E o povo ainda o achava pequeno”.

Disse o rei: “O meu parque zoológico é de quarenta estádios, e o povo o acha grande demais. Como poderia isso acontecer?”

Disse Mêncio: “O zoológico de rei Wén tinha setenta estádios, onde se podia entrar lenhadores, caçadores de coelhos ou de faisões selvagens, pois o parque era para ser usufruído junto com o povo; assim, não há nada de estranho que o povo o ache pequeno. Quando eu cheguei a fronteira do vosso Estado, informei-me sobre as severas proibições, e só depois disso é que ousei-me entrar. Disseram-me que, no interior desse território, há um parque de quarenta estádios onde aquele que lá matar um alce, cumprirá a mesma pena de quem mata um homem. Assim, esses quarenta estádios de terra é como que uma armadilha no meio do Estado, logo não há nada de estranho que o povo o ache grande demais!”

3. 齊宣王問曰: “交鄰國有道乎?” 孟子對曰: “. 惟仁者為能以大事小; 是故湯事葛, 文王事昆夷. 惟智者為能以小事大; 故大王事獯鬻, 句踐事吳. 以大事小者, 樂天者也; 以小事大者, 畏天者也. 樂天者保天下, 畏天者保其國. 詩云: “畏天之威, 于時保之”.

王曰: “大哉言矣! 寡人有疾, 寡人好勇.” 對曰: “王請無好小勇. 夫撫劍疾視, : ‘彼惡敢當我哉?’ 此匹夫之勇, 敵一人者也. 王請大之! 詩云: ‘王赫斯怒, 爰整其旅, 以遏徂莒, 以篤周祜, 以對于天下.’ 此文王之勇也. 文王一怒而安天下之民. 書曰: ‘天降下民, 作之君, 作之師, 惟曰: 其助上帝, 寵之四方. 有罪無罪, 惟我在, 天下曷敢有越厥志?’ 一人衡行於天下, 武王恥之; 此武王之勇也. 而武王亦一怒而安天下之民. 今王一怒而安天下之民, 民惟恐王之不好勇也!”

O rei Xuan de Qí perguntou: “Que sabedoria há no bom relacionamento com países vizinhos?”

Respondeu-lhe Mêncio: “Há, sim. Somente Príncipes que possuem a virtude da Humanidade sabem, com um Estado grande, ajudar Estados pequenos; pois foi assim que o Estado de Gù ajudou o Estado de Ge, assim como o grande rei Wén ajudou Kun-Yí.

Somente Príncipes sábios sabem, com um Estado pequeno, servir Estados grandes; pois foi assim que o rei Tài de Zhou serviu Xun-Yü, assim como Gou-Jiàn serviu Wú.

Aquele que ajuda Estados pequenos com seu Estado grande, o faz por amor a Deus. Aquele que serve Estados grandes com seu Estado pequeno, o faz por temer a Deus. Àquele que ama a Deus lhe compete preservar o Império, e aquele que teme a Deus pode [tem a missão de] preservar seu Estado. Diz a Canção: ‘Respeite a Deus, e pode-se preservar’”.

Disse o rei: “Que grandes sentenças! Mas eu tenho um defeito: gosto de valentia”

Respondeu-lhe Mêncio: “Que Vossa Majestade não se contente com pequenas valentias. Um homem empunhado a espada, com um olhar irado, diz: ‘quem é que se atreve a lutar comigo?’ Isto é valentia de homem vulgar, e é limitado a desafiar um homem apenas. É preciso que Vossa Majestade seja maior. Diz a Canção:

‘Mui irado então o Rei,

Ordenou as suas tropas,

Para opor-se aos invasores.

E o bem de Zhou se firmou,

Para bem do Império todo [5] ’.

Eis a valentia de rei Wén. Uma ira do rei Wén deu paz ao seu povo. Dizem as Escrituras:

‘Deus vem até os homens deste mundo, enviando-lhes Soberanos e dando-lhes Mestres, aos quais diz: que estes ajudem Deus a cuidar dos povos dos quatro cantos. Culpados ou inocentes, só Eu o vejo. Como se atreverá alguém a violar esta vontade [de Deus]?’

Houve um monarca [refere-se a rei Zhòu de Shang] que não respeitou a vontade divina, e o rei Wu envergonhou-se dele. Esta foi a valentia dele [do rei Wu, que aniquilou Zhòu], pois sua ira deu paz ao mundo. Assim, o que o povo teme mesmo é que Vossa Majestade não goste realmente da valentia.”

4. 齊宣王見孟子於雪宮. 王曰: “賢者亦有此樂乎?” 孟子對曰: “. 人不得, 則非其上矣. 不得, 而非其上者, 非也; 為民上而不與民同樂者, 亦非也. 樂民之樂者, 民亦樂其樂; 憂民之憂者, 民亦憂其憂. 樂以天下, 憂以天下; 然而不王者, 未之有也.

昔者齊景公問於晏子曰: ‘吾欲觀於轉附、朝舞, 遵海而南, 放於瑯邪; 吾何修而可以比於先王觀也?’ 晏子對曰: ‘善哉問也! 天子適諸侯曰巡狩; 巡狩者, 巡所守也. 諸侯朝於天子曰述職; 述職者, 述所職也. 無非事者. 春省耕而補不足; 秋省斂而助不給. 夏諺曰: ‘吾王不遊, 吾何以休? 吾王不豫, 吾何以助? 一遊一豫, 為諸侯度.’

今也不然; 師行而糧食; 飢者弗食, 勞者弗息. 睊睊胥讒, 民乃作慝. 方命虐民, 飲食若流; 流連荒亡, 為諸侯憂. 從流下而忘反,